Por Luciano Mendes
Passei boa parte da minha vida adulta estudando temáticas que mantinham uma relação muito estreita com a questão do tempo, estivesse esta relacionada ao trabalho industrial, ao trabalho escolar, ao lazer ou à vida de um modo geral, seja no mundo da cidade, seja no campo.
Em meus primeiros trabalhos, ainda nos anos de 1980, sob inspiração das elaborações do historiador inglês E. P. Thompson, me preocupava a questão do tempo de trabalho e os tempos escolares inseridos na longa trama de afirmação do capitalismo industrial e suas ramificações para todas as dimensões da vida social. Naqueles idos, o texto Tempo, disciplina do trabalho e capitalismo industrial era uma forte inspiração para nossas pesquisas, e permanece, ainda hoje, com grande atualidade.
Nos anos seguintes a relação entre os tempos escolares e as demais configurações do tempo nas sociedades crescentemente escolarizadas se impôs às minhas investigações e àquelas de muitas pessoas que investigam a educação contemporânea e a história da educação no mundo todo. Não por acaso, um de meus textos mais lidos é justamente um que trata desta temática e foi em parceria com a professora Diana Vidal, da USP.
Faço esta retrospectiva pessoal para reiterar e reforçar as muitas manifestações já havidas, inclusive aqui no Brasil de Fato MG, sobre a importância política e cultural da aprovação da jornada máxima de trabalho de cinco dias por semana para toda a classe trabalhadora. Este é um ganho e um avanço que devemos, sim, comemorar, e muito.
Sob o capitalismo, “tempo é dinheiro”, embolsado pelo capitalista e, de outra parte, apesar de não dito ou maldito, a falta de tempo é falta de vida para os trabalhadores e as trabalhadoras do mundo todo. “O tempo não é como trem, que apita na curva, ele passa direto”, diz um antigo adágio popular. Ele passa direto e é irrecuperável.
É da vida e dos modos de vivê-la que se trata a luta em torno do tempo e não é sem razão que no coração da luta da classe trabalhadora no mundo todo está a luta pelo tempo, pelo menor tempo de trabalho e pelo tempo para usufruir dos ganhos do trabalho (como sempre fazem os donos da capital de forma solene ou nem tanto).
Menos tempo de trabalho é a possibilidade de conviver com as pessoas que gostam, com a vizinhança, com os familiares. É a possibilidade de ler, escrever, ir ao cinema, ao teatro, aos museus, às celebrações religiosas diversas, de ficar à toa, de dormir mais um pouco, de descansar mais, de perambular pela cidade ou pelo campo. É, pois, a possibilidade de participar ativamente do governo de si e da pólis; ou seja, de fazer política.
Uma das formas mais nefastas pelas quais o capitalismo tem afastado a classe trabalhadora da política é submetê-la a um trabalho tão exaustivo que exaure todas as suas forças para qualquer outra atividade que demande energia e criatividade. Parafraseando o poeta, a política é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros na política. É por isto que ela demanda tempo e energia.
A aprovação da nova escala de trabalho é, também, simbólica e praticamente, um enfrentamento importante à ideia vendida aos quatro ventos pelo capital de que o empreendedorismo pessoal, ou o que é chamado também de uberização, seja uma saída para os dilemas financeiros (e existenciais) de um número crescente de trabalhadores e trabalhadoras no mundo todo. É, de certa forma, uma afirmação de que é preciso trabalhar para viver e não viver para trabalhar.
Mas a nova escala de trabalho impõe também, aos movimentos sindicais, sociais, comunitários, partidos políticos e coletivos os mais diversos comprometidos com a luta democrática, antiautoritária, antirracista e pelo fim de todas as violências, o desafio de criar possibilidade para que todas as pessoas possam usufruir deste tempo individual e coletivamente conquistado.
Não se trata, obviamente, de criar novas formas de “utilizar” o tempo, mas de oferecer possibilidades várias de usufruir das artes, da educação, de atividades coletivas ou individuais, de usufruir de bens culturais, seja como forma de deleite ou como forma de assunção da autoria nas diversas dimensões da vida!
É por isto que, para finalizar, no justo momento em que escrevo este texto, estou a pensar na importância de evitarmos que a extrema direita assuma a Presidência da República nesta eleição. Se perdermos, conforme já foi anunciado pela equipe do candidato das milícias, do crime organizado e do capital internacional, corremos sério risco de perdermos a escala 5×2 tão duramente conquistada.
Se perdermos veremos, como afirmava W. Benjamin há quase um século, que nem os mortos descansarão em paz!
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal


