Por Luciano Mendes
Para Kelly, Nelson e Caio
Há muitos anos, quando eu me mudei para Belo Horizonte, mas talvez ainda hoje, não raras vezes eu me sentia um bocoió da roça quando me pegava olhando pra cima, nas ruas, para ver o tamanho dos prédios. Eu sentia, como já disse em outras ocasiões, uma certa vertigem, o que, anos depois, me fez gostar demais de uma passagem de Baudelaire que diz: “A vertigem que sentimos nas grandes cidades assemelha-se à que conhecemos no seio da natureza – o gozo do caos e da imensidade. – A sensação que experimenta um homem sensível quando visita uma cidade grande e desconhecida”.
Andar pela cidade é, no entanto, muito mais do que olhar para cima. É perder-se no “gozo do caos e da imensidão”, é perambular pelas suas ruas, é observar as suas esquinas. Foi nesta toada que, andando por Madrid, na Espanha, outro dia, me vi na esquina da Calle de Embajadores com a Calle Fray Ceferino Gonzales, no coração do bairro Lavapies. Justo nesta esquina, em que a Embajadores encontra seu fim na Fray Ceferino, é que pude observar algumas imagens que me fizeram parar e, de novo, olhar para cima.
Trata-se de dois imensos painéis, postados um em frente do outro nos muros formados pelo recuo do prédio, em que se vê, de um lado, uma obra do artista argentino Nico Romero (conhecido como Ever). Nela como se fosse uma cascata, tendo em cima uma cara de gato e embaixo uma travessa de frutas, em que se destacam ainda as flores e frutas – pêssegos, maçãs, laranjas – e os gatos (muitos deles!) e um cachorro, ladeados por corpos humanos que parecem bailar, numa clara referência a obra A dança, de Matisse.

Bem em frente a ela está outra obra, esta de Dean Stockton (conhecido como D*Face), em que um casal se abraça fortemente, ele com traços cadavérico, vestido de verde, e ela de vermelho, cabelos grandes e com o semblante tranquilo, numa estética que remete aos quadrinhos.

E bem, ali, mas do outro lado da rua, uma outra imagem, agora produzida pela artista espanhola Yolanda Gómez Urrea. Nela, pode-se ver uma interpretação particular de Eva do Jardim do Paraíso. Lá está o corpo feminino desnudo, a maçã, a vegetação. Mas, ao contrário de outras referências clássicas ao mito bíblico, a aparência de Eva aparece mais triste e desconsolada do que vivaz e inocente.

Há, claro, várias referências e interpretações sobre estas obras na internet, as quais as pessoas que se interessarem poderão buscar. Do mesmo modo, há muitas outras esquinas, literais e simbólicas, como o Esquina Nua – lugar de convivência, para se conhecer, frequentar e deleitar-se em Madri. No entanto, o que me tocou foi encontrar, numa única esquina, um conjunto, plural, diverso e impactante de imagens que me fez voltar no tempo, recordar lugares e momentos passados e, ao mesmo tempo, viver a alegria de poder sentir e dizer: que bom que vivi para conhecer estas paragens!
Uma profusão de sentimentos e imagens que me fizeram também, em um momento posterior, articular aquelas imagens e o sentimento de presença da cidade que pude viver, com a música Nu, da cantora brasileira Assucena, a quem também tive o prazer de ver e ouvir numa noite na capital espanhola. Nela, a cantora e compositora articula elementos religiosos, devaneios do sentimentos, experiências várias para dizer dos encontros e desencontros e das tempestuosos sentimentos e sensações que nos afligem a alma:
Silhueta, sombra dum arcanjo
Espada tesa, alada, anjo
Auréolas acesas sobre duas cabeças
(…)
Ele ferro, eu imã, fosca fonte de luz
Colisão astral dum pecado sem pena, sem cruz
Fusco-lusco, encaixe de opostos
Ele veio, eu fui
(…)
Virou acorde, virou gemido
E tudo virou clímax na boca da canção
Dois pecadores, a sós, alados
Num quarto onde há pecado
E onde há perdão
Arcanjo, anjo, pecado, luz, perdão… “tudo virou clímax na boca da canção”. As artes subvertem o tempo e o espaço, colocam nossas cabeças e nossas sensibilidade de cabeça para baixo, e nos ajudam a exorcizar nossos demônios, talvez numa reafirmação perene e silenciosa de que a assertiva de Ferreira Gullar de que “a arte existe porque a vida não basta” continua mais atual do que nunca.
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
PS: Em Belo Horizonte, hoje, eu continuo a olhar para o alto, agora não mais para ver a altura dos prédios, mas para apreciar os maravilhosos murais que fazem da cidade uma contínua exposição a céu aberto.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal


