Por Luciano Mendes
Há muitos modos de se ler um livro, e outros tantos para dizer como ele foi lido. Eu gosto, ainda que nem sempre, de assemelhar a leitura de um livro a uma viagem, metáfora esta, aliás, que não tem nada de original. Os vãos do livro, suas entrâncias e reentrâncias, suas paradas, as bifurcações que se nos oferecem e que, às vezes, confundem (ou cofundem), exigem caminhadas atentas, às vezes bússolas até, e nada garante que a travessia será agradável e que haja algum porto seguro do outro lado. Viajar é perigoso, podemos dizer parafraseando Riobaldo Tatarana; e a leitura também pode sê-lo.
O ponto de partida nem sempre é o mesmo – quase sempre não é – para todos as pessoas que viajam e que, eventualmente, passam pelos mesmos lugares, assim como não o é para as pessoas que leem um livro. No caso dos livros, este é um dos 10 direitos imprescindíveis do leitor, segundo Daniel Pennac, nunca é demais relembrar.
Foi, pois, a este exercício a que me dediquei com especial afinco lendo o livro Ensaios de ontem, de Elenilto Saldanha Damasceno, a quem tive o prazer de conhecer outro dia em Novo Hamburdo (RS). Composto por 8 ensaios, escritos, ao que parece, pois nem sempre é possível precisar a data exata, nas últimas duas décadas, e com finalidades diversas, o livro permite vários passeios pelos bosques da ficção e da crítica literária.
Comecei a ler o livro pelo último capítulo – A representação da cidade no romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato –, coincidentemente no mesmo dia em que o Malafaia reafirmava em alto e bom som o que todos já sabíamos: que “os filhos de Bolsonaro são uns jumentos”, numa clara agressão aos asnos da história. Neste percurso ao contrário, cheguei ao “Canto de patativa na língua de Eulália”, que abre o livro.
O trabalho de Elenilto nos permite várias viagens. A primeira delas, como já disse, pelos bosques da literatura brasileira. Neles desfilam Patativa do Assaré, Rosa Lobato de Faria, Manoel Bandeira, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Chico Buarque, Luiz Ruffato e muitas outras pessoas que produziram o melhor da literatura brasileira nos últimos 150 anos. Há, também, algum espaço para a literatura estrangeira, com José Saramago e centenas de pessoas mais ou menos conhecidas que “escreveram” a Bíblia, uma das obras continuamente referidas.
Entrando por outra bifurcação, o passeio também encontrará, nos percursos e percalços da leitura, parte significativa da crítica literária brasileira contemporânea trazida pelas mãos, ou melhor, pelas penas de Antônio Cândido, Alfredo Bosi, Lúcia Granja, Roberto Schwarz, Décio de Almeida Prado, dentre outros. A forma de mobilização da fortuna crítica das obras analisadas é um dos pontos altos de observação desta viagem em terreno, às vezes, pedregoso. É um exercício em que o autor nos permite ver mais longe, além das árvores, e observar florestas inteiras.
Nesta topografia da estrada, há ainda outros dois pontos de observação que permitem uma mirada mais adelante. O primeiro é a aproximação que o autor faz da Bíblia como texto literário. Numa visada ousada e corajosa, e apoiada em Northrop Frye, Elenilto consegue ler os textos sagrados da tradição judaico-cristã como participantes da tradição literária sem que, com isto, ele menospreze a importância religiosa dos mesmos. Aliás a forma como Machado de Assis se apropria dos textos bíblicos foi objeto de sua dissertação de mestrado, “Textos do Novo Testamento nas crônicas de Machado de Assis”, transformada posteriormente em livro pela editora Dialética.
Outro momento sui generis do livro é o capítulo que fecha a obra. Como se disse, no ensaio mais maduro e melhor acabado do conjunto, ao tratar da representação da cidade no romance “Eles eram muitos cavalos”, de L. Ruffato. Aqui, com maestria o autor reúne um conjunto expressivo de tradições teóricas e metodológicas que tratam da cidade na literatura para, de certa forma, reconstruir sinteticamente a narrativa de Ruffato, dando-nos uma condensada visão do universo social, mental, cultural, político e das sensibilidades das populações humanas que habitam, no romance, a cidade de São Paulo. É, posso adiantar, um ensaio de leitura difícil, pesada, desconcertante, quase desoladora, não pelo intrincado do texto, mas pelo teor do que nele se captura do universo construído por Ruffato.
Entrando por outra rota, a pessoa que passeia ou viaja numa direção ou noutra, vai se deparar com a diferentes gêneros literários que, com maior ou menos maestria, são submetidos ao olhar crítico do autor, ele também um ficcionista literário: da crônica ao romance, passando pelo teatro e pela poesia, sem deixar de lado, nunca, a Bíblia, este livro que reúne também vários gêneros.
Como disse, li o livro do fim para o começo. Então, terminei pela apresentação. Foi quando fiquei sabendo que o livro, publicado em 2026, reúne, como disse, ensaios escritos em vários momentos. O que eu não disse é que a posição do ensaio na ordem do livro vai dos textos mais antigos, produzidos ainda na graduação, aos textos mais maduros que refletem, já, não apenas o aprofundamento da formação, da leitura e da reflexão do autor, mas também a sua experiência como escritor e professor de língua portuguesa e literatura.
Estas características da autoria permite que o livro seja lido também, de certa forma, como um livro de formação, para utilizar, de forma consciente, uma referência cara aos nossos clássicos sobre o Brasil e a literatura aqui produzida (Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prato Jr; Formação da literatura brasileira, de Antônio Cândico, dentre outros).
Formação do autor, por suposto, mas, mas também formação das pessoas leitoras e, eu hipotetizaria, de dois outros públicos: as alunos e alunas a quem Elenilto acolhe em suas aulas e as pessoas com quem convive, por exemplo, em São Leopoldo. A respeito deste último público leitor visado, o capítulo A imperatriz Leopoldina na memória cultural é um exemplo acabado, me parece. Se assim foi pensado, somente o autor pode confirmar; no entanto, esta foi uma das muitas possibilidades que encontrei ao ler o livro.
Como disse acima, há muitas formas de ler ou de atravessar um livro. Um bom livro é, justamente, aquele que oferece ao leitor/viajante o maior número possível de entradas, de estradas, com ou sem bandeiras. Este é o caso do livro do Elenilto Saldanha Damasceno. Sinta-se, pois, convidado às aventuras da leitura!
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal


