Os ataques desfechados por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã, somados à retaliação iraniana contra os países do Golfo, tiveram impacto profundo sobre o Brics. Alguns analistas identificaram, com razão, a emergência de uma crise no grupo. Em termos imediatos, ela é movida pela troca de hostilidades entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos (EAU); em termos mais amplos, decorre da incapacidade do grupo de resolver esse atrito. Nesse contexto, a presidência indiana do Brics tem papel decisivo na tentativa de normalizar as relações dentro do bloco. A pergunta crítica permanece: a Índia está preparada para estar à altura desse desafio?
No curto prazo, a crise mais importante que o Brics enfrenta está na relação entre os Emirados Árabes Unidos e o Irã. Segundo diplomatas próximos às negociações, a troca cada vez mais exasperada de acusações mútuas entre os dois países vem paralisando o avanço da agenda do Brics nas reuniões de xerpas.
Pela primeira vez na história do grupo, há a possibilidade concreta de que a cúpula de setembro não produza uma declaração conjunta final. Caso a declaração se materialize, tudo indica que será altamente genérica e superficial, evitando os temas controversos que foram abertamente tratados na declaração do Rio de Janeiro, no ano anterior.
Nota da edição: A 18ª Cúpula do Brics ocorreu em Nova Délhi, na Índia, nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, três dias depois da publicação original deste artigo, e os líderes adotaram por unanimidade a Declaração de Nova Délhi.
Muitos observadores apontam a ampliação do quadro de membros, em 2023, como o principal catalisador do impasse atual. Essa, no entanto, parece ser uma leitura superficial dos acontecimentos. A raiz do problema não está na ampliação do grupo em si, mas no modo como tanto os membros mais antigos quanto os recém-admitidos vêm administrando suas alianças fora do bloco.
Os “Brics-5” originais consolidaram sua força pela convergência de dois pilares centrais: a defesa da multipolaridade e a busca do desenvolvimento. Embora a ênfase dada a essas duas dimensões tenha variado entre os Estados-membros ao longo do tempo, ela acabou por cristalizar-se com China e Rússia advogando a multipolaridade, enquanto Brasil, África do Sul e Índia priorizavam o desenvolvimento por meio da diversificação de suas parcerias.
Como estes últimos buscam também parcerias dentro do Ocidente Coletivo, os membros do Brics costumam caracterizar o grupo como “não ocidental”, e não como “antiocidental”. Em consequência, alguns analistas rotularam esses Estados de swingers — caracterização que parece exagerada.
Até há pouco tempo, as parcerias com nações ocidentais permaneciam flexíveis e não ameaçavam os valores fundamentais do Brics. Era perfeitamente viável, por exemplo, que em 2012 o Brasil reafirmasse seu papel dentro do bloco e, ao mesmo tempo, buscasse fortalecer seus laços bilaterais com os Estados Unidos.
Nos últimos anos, contudo, o caráter das alianças que certos membros do Brics mantêm com Estados externos mudou de forma fundamental. Os casos mais decisivos para compreender a crise atual envolvem os EAU e a Índia.
Os EAU foram o primeiro Estado do Golfo a assinar os Acordos de Abraão, costurados sob supervisão dos EUA em 2020. A normalização das relações entre as monarquias do Golfo e Israel serviu ao objetivo estratégico americano de isolar o Irã política e militarmente. Para tanto, os Estados Unidos autorizaram a venda de caças F-35 aos Emirados, e o país iniciou uma cooperação profunda com Israel, que culminou num comércio bilateral superior a 14 bilhões de dólares em 2026.
Como ocorre com frequência nas relações com Washington, a aquisição dos F-35 foi posteriormente congelada em razão de exigências americanas de salvaguardas tecnológicas, motivadas pela desconfiança crescente quanto aos laços militares entre os EAU e a China. Ainda assim, na guerra recente, a relação entre os EAU e Israel se fortaleceu ainda mais. Durante o conflito, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enviou militares aos EAU para operar uma bateria antiaérea Iron Dome, protegendo o país dos ataques iranianos. Essa aliança encorajou os EAU a lançar retaliações militares encobertas contra o Irã, segundo relatos da imprensa americana, levando a escalada perigosamente perto de sair de controle. O impasse atual nas negociações políticas do Brics é consequência direta e evidente desse pano de fundo geopolítico.
A Índia, que detém a presidência do grupo em 2026, está em posição de desempenhar papel central na desativação dessa disputa. Contudo, a política externa de multialinhamento de Nova Délhi parece ter alcançado seus limites estruturais.
Durante anos, a Índia investiu em alianças diplomáticas destinadas a reforçar sua posição em disputas regionais e a projetar seu status de futura grande potência global. A cooperação nuclear civil com os EUA e a participação ativa no Quad são exemplos de longa data — anteriores ao atual governo — da assertividade indiana na administração de seus rivais regionais, Paquistão e China. Isso não impediu a Índia de cultivar laços profundos com as nações da “Maioria Mundial”, em que o Brics oferece um canal vital de ganhos concretos quando as instituições multilaterais tradicionais estão paralisadas. Ultimamente, porém, as alianças indianas vêm se consolidando em compromissos altamente ambiciosos, que restringem sua autonomia estratégica.
Em 2023, o lançamento do Corredor Econômico Índia–Oriente Médio–Europa (IMEC) — anunciado durante a presidência indiana do G20 e financiado pelo G7 — ligou Índia, EAU e Israel numa única iniciativa de peso. No início de 2026, a Índia aderiu formalmente à Pax Silica — iniciativa liderada pelos EUA para organizar, sob sua coordenação, as cadeias de suprimento de minerais críticos e de semicondutores — que conta também com a participação entusiasmada tanto dos Emirados quanto de Israel.
A convergência entre o Quad e a Pax Silica foi formalizada em Nova Délhi, em maio de 2026, com a adoção do Quad Critical Minerals Initiative Framework, que projeta a mobilização de 20 bilhões de dólares para empreendimentos conjuntos. Esse arcabouço assegura as cadeias de suprimento de matérias-primas vitais para a produção de semicondutores e de inteligência artificial, controladas pelos EUA por meio de seu paradigma da Pax Silica.
A superposição dessas iniciativas estratégicas serve para solidificar o eixo trilateral Índia–EAU–Israel. Em retrospecto, esse alinhamento explica, entre outros fatores, o apoio entusiasmado da Índia à admissão dos EAU no Brics em 2023. Também lança luz sobre a visita de alto risco do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, a Netanyahu em fevereiro de 2026, ocorrida apenas dois dias antes da eclosão das hostilidades contra o Irã.
Em condições geopolíticas normais, as parcerias dos EAU e da Índia com o Ocidente Coletivo não teriam abalado a coesão interna do Brics. Estamos, porém, testemunhando o ocaso da “ordem baseada em regras”. Os esforços sistemáticos dos Estados Unidos para desmontar o multilateralismo liberal vêm convertendo os alinhamentos legítimos e pragmáticos desses dois países em compromissos morais vinculantes com o hegemon — alianças cada vez mais difíceis de conciliar com os princípios do Brics.
Em termos diretos: a assertividade americana e a emergência das práticas neocoloniais que a acompanham estão forçando nações tradicionalmente pragmáticas a escolher lados. É uma posição incômoda, que provoca críticas domésticas dentro de cada governo e ameaça a legitimidade interna de quem decide. E é precisamente esse o núcleo da estratégia dos EUA. A instrumentalização das sanções, as barreiras tarifárias, o conflito prolongado na Ucrânia e as agressões recorrentes contra o Irã servem exatamente a esse propósito: forçar a consolidação de alianças em torno do projeto neocolonial americano e isolar os potenciais contestadores, sobretudo China, Rússia e Irã.
Para recuperar sua margem de manobra estratégica e equilibrar suas relações com o Ocidente, a melhor alternativa tanto para a Índia quanto para os EAU é redobrar seu compromisso com o Brics. O bloco pode servir como a plataforma mais eficaz — livre da arbitrariedade ocidental — para que a Índia articule suas preocupações legítimas quanto à projeção regional da China por meio da Iniciativa Cinturão e Rota. Do mesmo modo, os EAU podem valer-se da influência diplomática da China e da Rússia, principais parceiros econômicos e geopolíticos do Irã, para ajudar a desescalar as tensões com a nação persa.
Como alternativa aos incentivos econômicos oferecidos pelo Ocidente, Índia e EAU poderiam fortalecer sua cooperação com os países do Brics justamente nos setores em que as parcerias ocidentais parecem mais atraentes. Nesse sentido, dado que os países do Brics detêm 85% das terras raras do mundo, uma iniciativa conjunta do bloco poderia mobilizar capital chinês e emiradense para o desenvolvimento colaborativo e o processamento local desses materiais críticos, sem os regimes restritivos de exclusividade característicos das propostas americanas mencionadas.
Além de fomentar a cooperação tecnológica e gerar benefícios econômicos substanciais, uma iniciativa assim reforçaria outros empreendimentos do Brics e construiria, no longo prazo, confiança mútua entre seus membros. Por conseguinte, gradualismo e paciência representam as estratégias mais viáveis para atravessar a crise atual.
*Fabiano Mielniczuk é professor de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
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