Clube Valdai

Fundado em 2004, o Clube Valdai nasceu com o objetivo inicial de integrar a Rússia ao sistema internacional, servindo como uma ponte para que intelectuais ocidentais compreendessem as dinâmicas de Moscou. No entanto, a trajetória do Clube acompanhou a própria metamorfose da Federação Russa. De uma plataforma de diálogo com o Ocidente, o Valdai transformou-se no epicentro da ruptura teórica com o unipolarismo estadunidense. A coluna do Clube Valdai no Brasil de Fato conta com a curadoria de Marco Fernandes, analista geopolítico residente em Moscou.

Oportunidades de convergência entre o BRICSe a OCX na Grande Eurásia

No audio source provided.

Foto conjunta dos chefes de delegação com os líderes do Conselho Empresarial dos BRICS e da Aliança Empresarial Feminina dos BRICS, em Nova Déhli, Índia, em 11 de setembro de 2026
Foto conjunta dos chefes de delegação com os líderes do Conselho Empresarial dos BRICS e da Aliança Empresarial Feminina dos BRICS, em Nova Déhli, Índia, em 11 de setembro de 2026 | Crédito: Kremlin.ru

A Grande Eurásia poderia se tornar um dos centros-chave da futura arquitetura policêntrica do mundo, em que BRICS e OCX sejam pilares da futura ordem mundial

Diante da dificuldade de lançar formatos rígidos de integração, a formação do espaço da
Grande Eurásia pela convergência das políticas e dos projetos do BRICS, da OCX e de outros
atores e organizações interessados poderia funcionar bem por meio de uma cooperação em
vários níveis e várias velocidades, escreve Viktoria Panova.


O último mês de diplomacia de cúpulas envolvendo a Maioria Global foi, possivelmente, o mais inquietante para quem está de fora. Afinal, nem o BRICS nem a OCX incluem, sob qualquer forma, representantes de países ocidentais. Por isso, o potencial de aprofundar a cooperação entre os países da Maioria Global nessas diferentes plataformas tem importância especial para a futura ordem mundial. A iniciativa da Grande Eurásia também tem particular relevância, assim como as oportunidades que nascem do alinhamento dos projetos de cooperação do
BRICS e da OCX.

O conceito de Grande Eurásia se constrói sobre uma premissa simples, mas ambiciosa: a vasta região que vai da Europa Oriental e da Ásia Central ao Oriente Médio, à Índia, à China e ao Sudeste Asiático se apoia num sistema de estruturas de cooperação interligadas. Nesse contexto, um papel-chave na conformação desse espaço cabe a estruturas que, de um lado, ajudam a estabelecer regras para as suas próprias interações e, potencialmente, para as de um grupo mais amplo de nações; e que, de outro, reúnem membros empenhados em criar uma
zona integrada de prosperidade e segurança no continente eurasiático.

Dois pilares, um continente

O BRICS e a OCX têm potencial para se tornar pilares complementares da Grande Eurásia. O BRICS representa um alcance global, econômico, financeiro e político, enquanto a OCX funciona como estrutura regional de segurança, conectividade de transportes e diálogo político. Não há necessidade de fundir artificialmente esses dois mecanismos. O foco poderia estar, antes, na criação de uma rede de projetos conjuntos – e, potencialmente, em casos específicos, de instituições e regras – que mais adiante estaria aberta a outras entidades não ocidentais, como a União Econômica Eurasiática (UEEA) ou a ASEAN.


A OCX foi formada historicamente como plataforma regional para fortalecer a segurança e combater o terrorismo, o extremismo e o separatismo. Aos poucos, suas esferas de interação se ampliaram para transportes, energia, comércio e investimento. Já o BRICS é uma estrutura global, transregional, que vem se afirmando de forma cada vez mais enfática na reivindicação de uma reforma global ativa, na construção de um novo modelo de cooperação, no fortalecimento do comércio mundial e na ampliação do papel dos países da maioria global nas cadeias de valor, na transferência de tecnologia e no desenvolvimento sustentável.

Ao mesmo tempo, o núcleo de participantes dos dois mecanismos coincide: falamos da Rússia, da Índia, do Irã e da China. O pesquisador chinês Jiang Tianjiao acredita que a OCX se transformará, no futuro, de uma plataforma de coordenação em segurança numa estrutura abrangente de governança, com foco ainda mais forte na economia e mecanismos maduros de equilíbrio interno. Ao mesmo tempo, ele concorda com a premissa geral de que o BRICS continuará a se fortalecer como núcleo de coordenação dos esforços da maioria global, com o aprofundamento da cooperação na esfera monetária e financeira e no campo dos desafios de segurança não
tradicionais. Pareceria que cada um tem seus próprios objetivos e tarefas, ainda que com perspectiva de ampliação. Mas a combinação de potenciais pode dar uma soma diferente da mera adição.

Quando 2 + 2 pode dar 5

Dados os modelos distintos de interação e o fato de que as duas associações têm objetivos próprios diferentes, há toda uma série de questões em que o potencial de sincronizar o trabalho do BRICS e da OCX poderia dar o maior resultado. Comecemos pela esfera mais complexa, e ao mesmo tempo fundamental: as finanças. A desdolarização não é um fim em si mesmo no BRICS; ainda assim, há mais de dez anos os participantes da associação adotaram um marco para o uso de moedas nacionais, e hoje 67% de todo o comércio intra-BRICS já é feito em moedas nacionais.

Continua o trabalho de criação de um sistema de pagamentos alternativo e de definição dos parâmetros técnicos de uma nova plataforma de investimentos. E, embora nenhum avanço decisivo nessa questão tenha ocorrido depois da cúpula de Délhi, confirmou-se a determinação comum de alcançar o objetivo de assegurar as condições para um desenvolvimento soberano e igualitário (em circunstâncias em que tanto o próprio dólar
quanto as tarifas continuam a ser usados por Washington como armas e instrumento de chantagem, inclusive contra quem gostaria muito de preservar o status quo nas relações com os países ocidentais, não resta outra opção de ação), o que marca a passagem definitiva da coordenação política para o ajuste técnico.

A cúpula da OCX em Bishkek, entre outras coisas, também registrou o compromisso dos líderes com «a continuidade da implementação, pelos Estados-membros da OCX interessados, do roteiro para o aumento gradual da participação das moedas nacionais nos acertos mútuos». E, um ano antes, havia sido adotada a Estratégia de Desenvolvimento da OCX até 2035, que igualmente definia as tarefas para aprofundar a cooperação prática nas áreas de comércio, economia, finanças e investimento.

Assim, uma expansão sincronizada do uso de moedas nacionais nos acertos mútuos, bem como o envolvimento de todos os participantes da OCX nos esforços do BRICS para desenvolver um mecanismo de pagamentos alternativo, ajudaria a testar as capacidades desse sistema de pagamentos num número maior de países da maioria global.

Lembremos também que, já no ano passado, a cúpula de Tianjin decidiu criar um banco da OCX, embora tecnicamente ele ainda não tenha entrado em funcionamento. Apesar das restrições que persistem até hoje, impostas pelo próprio sistema centrado no Ocidente ao funcionamento do Novo Banco de Desenvolvimento, um caminho alternativo ao lançamento travado do banco da OCX poderia ser a participação gradual de não membros do BRICS no NBD.

Outra esfera é a da segurança. Para a OCX, ela é mais primária e orgânica, ao passo que, no BRICS, evita-se deliberadamente qualquer ênfase excessiva em questões de coordenação político-militar. Assim, enquanto exercícios conjuntos periódicos são naturais para a OCX (os mais recentes exercícios antiterroristas ocorreram no Irã em dezembro do ano passado, os Sahand Antiterror 2025), lembramos que os exercícios Vontade de Paz 2026, iniciados pela África do Sul no começo deste ano e apresentados inicialmente como formato «BRICS plus»,
não conseguiram atrair todos os membros. Ainda assim, certa divisão de papéis – com a cooperação prática por parte da OCX, e o quadro teórico e o diálogo político sobre os riscos globais e a coordenação de posições da maioria global por parte do BRICS – poderia oferecer um formato viável. Por sua vez, essa complementaridade mútua leva à formação de um ambiente mais seguro para o comércio, o investimento e a realização da conectividade de transportes entre os países que participam das duas associações.

As questões da governança global, por sua vez, são mais orgânicas ao BRICS, mas vemos abordagens análogas nos documentos da OCX quanto à reforma da ONU, do FMI e do Banco Mundial e à ampliação do papel do Sul Global. Nesse caso, há a oportunidade de atuar, no quadro das instituições universais existentes, como uma plataforma mais ampla, com a possibilidade de envolver todos os Estados-membros do BRICS e seus parceiros, os países da OCX, inclusive parceiros de diálogo e observadores, além dos países da UEEA e da ASEAN. Uma
voz assim unificada seria difícil de continuar ignorando.

Outra área potencial de convergência é a da energia e dos recursos críticos. Já em 2006, o presidente russo propôs criar um Clube de Energia no âmbito da OCX, e onze anos depois foi lançada, sob a égide do BRICS, uma Plataforma de Pesquisa Energética. De um lado, o próprio formato dessas instituições não implica uma coordenação séria das posições dos países participantes; de outro, é no mínimo uma oportunidade de comparar regularmente as anotações sobre as questões mais sensíveis para produtores e consumidores de energia dentro
desses mecanismos, identificando os caminhos mais promissores para garantir uma transição energética justa, levando em conta os interesses soberanos e as particularidades de todos os países participantes.

Mais ainda: num formato de convergência, o que pode estar em jogo não é só, nem tanto, garantir a resiliência e a segurança do abastecimento e desenvolver redes regionais; combinando isso com a questão dos minerais críticos, pode-se falar na criação de cadeias de valor (aliás, esse foi justamente um dos pontos enfatizados na última cúpula do BRICS, em Délhi): processamento mais profundo, fabricação de equipamentos,
desenvolvimento de padrões tecnológicos comuns e assim por diante.

Garantir a conectividade digital e fomentar a cooperação no campo da inteligência artificial também pode se mostrar crucial. No ano passado, no Rio de Janeiro, os líderes do BRICS adotaram uma declaração sobre a governança global da IA; mais recentemente, antes de a China assumir a presidência do BRICS, Xi Jinping propôs a iniciativa de criar um centro internacional de IA, defendendo o «desenvolvimento de IA de código aberto num espírito de cooperação e compartilhamento» – tudo isso além da Organização Mundial de Cooperação em
IA (WAICO), lançada anteriormente pela China. Além disso, uma agenda comum poderia abranger canais seguros de troca de dados, documentos comerciais digitais e padrões de pagamento interoperáveis. Embora cada iniciativa mereça estudo detalhado, uma coisa é certa: para os países do BRICS e da OCX – e para a Maioria Global em geral, marcada por níveis muito diferentes de desenvolvimento tecnológico –, o que importa não são plataformas fechadas, mas regras abertas que impeçam a criação de novas dependências em relação a qualquer
centro de poder isolado.

Outras áreas potenciais de convergência de políticas e abordagens, bem como de trabalho em projetos conjuntos concretos, poderiam incluir ainda o desenvolvimento da conectividade de transportes, a garantia da segurança alimentar e a criação de reservas estratégicas conjuntas, projetos de resiliência climática e muitos outros pontos de interesse.

O princípio orientador é a integração em vários níveis e várias
velocidades


Diante da dificuldade de lançar formatos rígidos de integração, a formação do espaço da Grande Eurásia pela convergência das políticas e dos projetos do BRICS, da OCX e de outros atores e organizações interessados poderia funcionar bem por meio de uma cooperação em vários níveis e várias velocidades.

Aliás, embora uma nova expansão do BRICS seja, por ora, antes contraproducente, uma alternativa poderia ser o envolvimento gradual não de países isolados como parceiros, mas de organizações regionais inteiras. Recentemente, alguns especialistas começaram a defender que seria recomendável envolver a União Africana nos
trabalhos do BRICS (por analogia com sua inclusão anterior nos trabalhos do G20); talvez uma solução salomônica venha a ser, no futuro, a inclusão nos trabalhos da associação não só da UA, mas também da OCX, da ASEAN, da Liga Árabe, da CELAC e de outras organizações compostas por representantes da maioria global.

Isso corresponderia plenamente à lógica da multipolaridade e do desenvolvimento igualitário. Se voltarmos do nível global ao eurasiático, essa abordagem, somada à cooperação em vários níveis em projetos específicos, poderia corresponder ao espírito da parceria eurasiática – um espaço com vários centros de poder, economias diversas, diferentes orientações de política externa e vários códigos culturais e civilizacionais. Seguindo essa lógica, a Grande Eurásia poderia se tornar um dos centros-chave da futura arquitetura policêntrica do mundo, em que o BRICS e a OCX sejam os pilares da futura ordem mundial.

Viktoria Panova é sherpa da Rússia no W20, o grupo de engajamento das mulheres do G20, e
chefe do Conselho de Especialistas do BRICS na Rússia.


*As opiniões expressas são de responsabilidade individual dos membros e colaboradores, e não
do Clube, salvo indicação explícita em contrário.

Editado por: Camila Salmazio

|

Newsletter