Clube Valdai

Fundado em 2004, o Clube Valdai nasceu com o objetivo inicial de integrar a Rússia ao sistema internacional, servindo como uma ponte para que intelectuais ocidentais compreendessem as dinâmicas de Moscou. No entanto, a trajetória do Clube acompanhou a própria metamorfose da Federação Russa. De uma plataforma de diálogo com o Ocidente, o Valdai transformou-se no epicentro da ruptura teórica com o unipolarismo estadunidense. A coluna do Clube Valdai no Brasil de Fato conta com a curadoria de Marco Fernandes, analista geopolítico residente em Moscou.

CiQuanta e a importância estratégica da Computação Quântica para o Brasil

Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba, o Ciquanta.
Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba, o Ciquanta. | Crédito: Divulgação/Governo da Paraíba

No dia 25 de outubro não se decide apenas quem governa o Brasil, mas se o país entra na era quântica como produtor de conhecimento ou, mais uma vez, como colôni

7 de outubro de 2021. Exatamente cinco anos atrás, o Congresso Nacional aprovou, a pedido do Ministério da Economia de Paulo Guedes, o PLN 16/21, que desviou para outras pastas quase todo o crédito suplementar previsto para a ciência brasileira. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que deveria receber R$ 655,4 milhões, ficou com R$ 7,2 milhões. Pouco mais de 1% do prometido.

Outubro de 2026. Em João Pessoa, na antiga Estação das Artes, técnicos brasileiros e chineses devem concluir neste mês a montagem dos dois primeiros computadores quânticos operacionais da América Latina, de 20 e de 100 qubits, no Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba, o Ciquanta.

Mas qual é a relação entre essas duas datas? Existe uma terceira data que liga as duas: 25 de outubro de 2026, dia do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. E é nela que se decide qual das duas datas anteriores será o retrato do Brasil nos próximos anos.

Esqueça o Coach Quântico, de novo

Já disse por aqui que o negócio não é o coach quântico, mas a computação quântica. Vale relembrar rapidamente o porquê.

Do ábaco ao computador mecânico, do mecânico ao eletrônico, cada salto da computação mudou o que a humanidade é capaz de calcular, e por consequência, o que ela é capaz de produzir. O computador quântico é o próximo degrau dessa escada. Enquanto um computador comum trabalha com bits, que são 0 ou 1, o computador quântico trabalha com qubits, que podem existir numa superposição desses estados e se entrelaçar uns com os outros. Na prática, isso permite atacar certos problemas que levariam séculos para os computadores atuais resolverem: simular moléculas para criar novos medicamentos e fertilizantes, desenhar materiais para baterias e energia limpa, otimizar redes logísticas e elétricas, modelar o clima.

Porém, peço que respire antes de embarcar no hype. Máquinas de 20 ou 100 qubits ainda não vão descobrir a cura do câncer na semana que vem. São equipamentos ruidosos, que servem principalmente para pesquisa, testes de algoritmos e formação de gente. E é exatamente aí que mora a importância deles.

Há ainda um lado menos glamoroso da história: a criptografia. Praticamente tudo o que protege as comunicações do Estado, as transações bancárias e o Pix se baseia em problemas matemáticos que um computador quântico suficientemente grande poderá quebrar. Agências de inteligência ao redor do mundo já operam sob a lógica de “colher agora, decifrar depois”: armazenar hoje dados cifrados para lê-los quando a máquina certa existir. Quem chegar primeiro a ela terá, literalmente, a chave dos segredos dos outros.

Soberania não se compra pronta numa caixa

Por isso, computação quântica não é luxo de laboratório. É questão de soberania.

O Ciquanta custa cerca de R$ 200 milhões, sendo R$ 140 milhões do governo da Paraíba e R$ 60 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O parceiro tecnológico é o 54º Instituto da China Electronics Technology Group Corporation (CETC), estatal chinesa que opera um centro de inovação em tecnologia quântica em Suzhou. O acordo prevê, além dos equipamentos, transferência de tecnologia, o desenvolvimento futuro de computadores maiores, uma rede de comunicação quântica entre João Pessoa e Campina Grande e um programa de residência com 156 bolsas e meta de formar cerca de 500 profissionais em computação quântica, microeletrônica e semicondutores. Pesquisadores da UFPB, UFCG e IFPB serão os primeiros a utilizá-los.

Mas é preciso cautela também aqui. Comprar dois computadores quânticos, por si só, não é soberania. Seria apenas trocar de fornecedor. O que transforma esse investimento em política de soberania é o que vem junto: gente formada, conhecimento transferido, capacidade de projetar e, um dia, fabricar as próximas máquinas em solo nacional. Já falei aqui que soberania digital é um conceito inócuo sem soberania tecnológica, e que o Brasil precisa fabricar o que se chuta. Na era quântica, isso vale em dobro.

Para dimensionar o tamanho do atraso: em 2024, o Brasil tinha cerca de R$ 60 milhões investidos em computação quântica, enquanto o mundo investia algo próximo de R$ 240 bilhões. O Ciquanta, sozinho, mais que triplica aquele número. Ainda é pouco, mas é a primeira vez em décadas que o país deixa de apenas assistir à corrida pela televisão, como no Fantástico de 2025, em que apenas especialistas estrangeiros foram ouvidos.

O mundo não cabe num só laboratório do Vale do Silício

Nada disso seria possível num mundo unipolar. Os Estados Unidos já tratam tecnologia quântica como item de controle de exportação, assim como fizeram com chips de inteligência artificial, e o Brasil sabe bem o que é ficar do lado de fora da lista de países que podem comprar processadores avançados. Se a única porta fosse a de IBM e Google, o máximo que um pesquisador brasileiro conseguiria seria alugar alguns minutos de máquina na nuvem, pagando em dólar e entregando seus dados e algoritmos a empresas estrangeiras.

É aqui que entram os Brics. A China construiu o Zuchongzhi 3.0, de 105 qubits; a Rússia desenvolve computadores quânticos nas quatro principais plataformas tecnológicas; a Índia já tem máquina própria de 25 qubits; e a África do Sul participa com a China da linha de comunicação quântica mais longa do mundo, com quase 13 mil quilômetros. Em junho deste ano, Moscou sediou o primeiro Fórum de Tecnologias Quânticas do BRICS, e em agosto, na reunião de ministros das Comunicações do bloco em Pune, na Índia, foi mantida uma linha de trabalho dedicada a computação, comunicação e sensoriamento quânticos.

Vijay Prashad descreve a hierarquia em que o capitalismo central reserva para si a produção de conhecimento e deixa ao Sul Global o papel de fornecedor de matéria-prima e mercado consumidor. A cooperação Sul-Sul em tecnologias quânticas é uma das poucas brechas reais nessa hierarquia. Isso não significa que a China seja filantropa, nem que dependência de Pequim seja melhor que dependência de Washington. Significa que, pela primeira vez, existe mais de uma porta, e que um governo com projeto nacional pode negociar contrapartidas como transferência tecnológica e formação de profissionais brasileiros, em vez de aceitar o pacote fechado que vem do Norte.

E se o relógio voltar para 2021?

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula. A possibilidade de um novo governo bolsonarista é concreta, e é preciso olhar para o que ela significaria para a computação quântica brasileira.

O programa registrado no TSE elege Estados Unidos, Argentina e Israel como “parceiros mais importantes e tradicionais” e simplesmente não menciona os Brics. Em comício, o candidato prometeu uma relação “pragmática” com a China, no mesmo discurso em que acusou o atual governo de “lamber bota da China”.

Agora some a isso um detalhe: a CETC, parceira do Ciquanta, consta desde 2021 na lista do Pentágono de empresas chinesas ligadas às forças armadas. Um governo que se alinha a Donald Trump e que já viveu, no primeiro mandato do pai, a pressão americana contra a Huawei no 5G, teria todos os incentivos para tratar o Ciquanta como um incômodo diplomático, e não como um ativo estratégico.

Os riscos, a meu ver, são pelo menos três. O primeiro é o orçamentário: computadores quânticos supercondutores precisam operar perto do zero absoluto, com misturas de hélio-3 e hélio-4, manutenção especializada e contratos de suporte contínuos. Basta asfixiar o financiamento, como foi feito com o FNDCT, para que dois equipamentos de ponta virem peças de museu. O segundo é a interrupção da transferência tecnológica: sem a continuidade da parceria, ficamos com as caixas e sem o conhecimento para construir as próximas. O terceiro, talvez o mais grave, é a fuga de cérebros: centenas de profissionais formados com dinheiro público, sem perspectiva de carreira no país, se tornariam mão de obra barata e qualificada para empresas do Norte Global.

Não há nada novo.

Foi o mesmo governo que decretou a liquidação do Ceitec, a única fábrica de chips da América Latina, depois revertida pelo governo Lula. É a mesma lógica que, nos anos 1990, enterrou a indústria de computação nacional que começou com o Patinho Feio. E é o mesmo campo político que se aproxima, cada vez mais, dos TechBros que Tatiana Poggi descreve como expressão do tecnonazismo, interessados num Brasil consumidor de suas plataformas, e não produtor de tecnologia.

Não sei se um eventual governo Flávio Bolsonaro desmontaria o Ciquanta de forma aberta. Provavelmente não. O mais provável é a morte lenta: cortes silenciosos, parcerias congeladas, bolsas sem renovação, até que o centro vire mais um elefante branco a ser usado como prova de que “o Estado não sabe investir em tecnologia”. E, por fim, privatizado ou alugado para alguma Big Tech norte-americana.

O Patinho Feio não pode ser abatido duas vezes

A computação quântica não vai esperar pelo Brasil. A China, a Rússia, a Índia e os Estados Unidos seguirão avançando, com ou sem nós. A única pergunta é se estaremos dentro dessa corrida com gente, conhecimento e capacidade industrial próprios, ou se ficaremos, mais uma vez, alugando o futuro de outros.

No dia 25 de outubro não se decide apenas quem governa o Brasil, mas se o país entra na era quântica como produtor de conhecimento ou, mais uma vez, como colônia digital.

*Rafael da Guia é militante do Movimento Brasil Popular, coordenador da Estel Tecnologia e pós-graduando em Computação Quântica pela PUC Minas.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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