Se o capitalismo industrial alienava do trabalhador o produto de seu trabalho físico, hoje as maiores empresas de tecnologia alienam o “produto” da própria existência das pessoas, na forma de dados comportamentais e de interações sociais. O lucro com esses dados favorece a concentração de capital e a transformação das corporações da Big Tech em monopólios de escala antes inimaginável, com influência crescente sobre a política interna e externa dos Estados. Andrey Kozinets discute como isso leva ao surgimento de uma nova hierarquia internacional, em que as potências hegemônicas dos dados concentram a infraestrutura de geração, armazenamento e processamento de informação, enquanto as demais correm o risco de perder sua soberania.
Desde a Revolução Industrial, as grandes potências disputam o controle das jazidas de carvão, petróleo e gás. Mais tarde, somou-se a disputa pelo cobalto, pelo lítio e por outros minerais críticos. Com a revolução da informação, porém, surgem novos recursos de importância estratégica para a economia e a política mundiais. A digitalização e a algoritmização onipresentes transformam cada transação e cada deslocamento num conjunto de dados. Em 2026, geram-se mais de 400 milhões de terabytes de dados por dia.
Esses dados servem para treinar a inteligência artificial (IA), que penetra cada vez mais em diversos setores da economia, no planejamento militar e na administração pública. Os dados se tornam um recurso de fato valioso, cujo controle ganha importância crescente tanto para as empresas quanto para os governos. Os Estados, por sua vez, adotam cada vez mais políticas de localização de dados, agindo dentro da lógica da soberania digital.
As fronteiras entre o político e o técnico desaparecem diante dos nossos olhos, tanto no interior das sociedades quanto no plano internacional. Uma das formas mais agudas de compreender o estado atual da economia foi proposta pela psicóloga social Shoshana Zuboff, que cunhou o termo “capitalismo de vigilância”. As corporações da tecnologia de vigilância se tornam os maiores monopólios da era do capitalismo de vigilância.
Graças à penetração generalizada da internet e aos sistemas automatizados de coleta e processamento de informação, esses novos monopólios adquiriram a capacidade de reunir quantidades enormes de dados sobre seus clientes. As empresas vendem esses dados num mercado de novo tipo – o mercado de futuros comportamentais –, que carece de regulação jurídica suficiente. O poder instrumental das corporações nesse ambiente lhes permite não apenas influenciar, mas determinar o comportamento de consumidores individuais e da população em geral, o que traz consequências sociopolíticas.
É importante ter em mente que o drama deste momento se agrava porque os dados dos clientes deixam de ser pessoais e se tornam sociais. Hoje, as corporações tecnologicamente avançadas coletam dados até de pessoas que não usam seus produtos. Já não é raro que empresas conheçam informações sensíveis sobre alguém, como seu estado de saúde, antes mesmo de qualquer interação com essa pessoa. Na prática, assistimos a uma nova forma de alienação. Se o capitalismo industrial alienava as pessoas dos produtos de seu trabalho físico (o operário não era dono do que a fábrica produzia com o seu trabalho), o «capitalismo de vigilância» aliena o «produto» da própria existência delas, incluindo a voz, o rosto, os padrões de comportamento e os resultados de suas interações sociais.
Ao mesmo tempo, as principais corporações da big tech, como as estadunidenses, coletam esses dados de pessoas do mundo inteiro. Assim, a escala de sua influência ultrapassa as fronteiras nacionais e se torna verdadeiramente global. A coleta e o processamento de grandes volumes de dados sociais de cidadãos de outros países abrem possibilidades de interferência nos processos políticos de terceiros países. Um exemplo emblemático é a atuação da Cambridge Analytica, que ficou famosa por interferir em eleições (inclusive presidenciais) no Quênia, na Nigéria e em vários outros países.
Além disso, essas empresas se tornam novos monopólios, com influência crescente sobre a política interna e externa do Estado. O exemplo dos Estados Unidos mostra de modo particular que processos importantes estão em curso no plano das relações entre corporações e Estado, repensando a viabilidade dos sistemas políticos existentes no contexto da nova economia. Há alguns anos o bilionário da tecnologia e investidor de risco estadunidense Peter Thiel defende que é preciso «deixar o capitalismo superar a política». Observam-se hoje diferentes modelos de interação entre o Estado e as corporações; tal como na China, na União Europeia e na Rússia, a mudança na natureza dessa interação é uma tendência geral.
A digitalização e a algoritmização da economia não alteram apenas a relação entre indivíduos e empresas, ou entre empresas e Estado, mas afetam também de forma significativa as relações entre os Estados. O «capitalismo de vigilância» transcende as fronteiras nacionais e, em sua nova fase, transforma-se em imperialismo digital.
Hoje há dois hegemons desse tipo: os Estados Unidos e a China. A União Europeia reivindica a liderança na criação de regimes jurídicos, mas não dispõe de infraestrutura de geração nem de capacidade de computação comparáveis. A Rússia controla o armazenamento e o acesso aos dados dentro de sua jurisdição e oferece certas soluções tecnológicas no plano internacional, mas ainda não tem plataformas de escala global comparáveis à Big Tech estadunidense ou às principais gigantes chinesas da tecnologia.
Nessa situação, os demais países se tornam “Estados clientes”, obrigados a depender de sistemas estrangeiros de processamento de dados. Não lhes resta alternativa senão usar plataformas e algoritmos estrangeiros e evitar transformar-se em campo de batalha das empresas de tecnologia dos Estados Unidos e da China, que promovem suas soluções tecnológicas na América Latina, na África, no Sul da Ásia e no Sudeste Asiático. Isso vale tanto para software e computação em nuvem quanto para a infraestrutura física, como centros de dados, polos de dados e torres de comunicação.
Além disso, os Estados Unidos e a China constroem ativamente seus próprios marcos de governança global no campo da IA: a Pax Silica e a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), respectivamente. Embora as duas iniciativas sejam formalmente abertas e globais, parece claro que são, em grande medida, mutuamente excludentes. Estão em jogo modelos e até filosofias concorrentes de desenvolvimento da IA, além das plataformas tecnológicas correspondentes.
As questões diante de nós só vão ganhar peso. Restará lugar para a pessoa humana e sua individualidade, ou a capacidade de computação e os algoritmos determinarão por completo o comportamento, os interesses e as decisões humanas? Veremos surgir um movimento internacional pelos direitos humanos digitais, semelhante ao movimento operário do fim do século 19 e do início do século 20? Como mudarão os regimes políticos e a nossa compreensão do Estado diante da algoritmização crescente dos processos econômicos no mundo inteiro? Entraremos num conflito global aberto movido pelo imperialismo digital, ou o mundo se dividirá em “pan-regiões digitais”?
Uma alternativa a esses cenários poderia ser a criação de um mecanismo multilateral de regulação da coleta e do processamento de dados sociais sob os auspícios da ONU ou de outras plataformas internacionais, como o Brics ou o G20. É preciso reconhecer, no entanto, que, no momento, o espírito de competição prevalece sobre o desejo de cooperação.
*Andrey Kozinets é candidato em Ciências Políticas (grau acadêmico russo equivalente ao doutorado) e professor associado da Universidade Federal do Extremo Oriente, em Vladivostok. Participa do projeto Valdai – Nova Geração, do Valdai Discussion Club.
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