Carol Santos e Bruna Schatschineider*
Enquanto conversávamos com estudantes da Escola Municipal de Ensino Fundamental Chapéu do Sol, durante uma atividade da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, a chuva voltava a transformar o Rio Grande do Sul em cenário de emergência. Os rios subiam novamente, famílias deixavam suas casas e o medo retornava às comunidades que, pouco mais de dois anos depois da maior tragédia climática da história do estado, ainda convivem com marcas profundas.
Dentro da escola discutíamos justiça climática. Do lado de fora, ela deixava de ser conceito para voltar a ser realidade.
Foi ouvindo esses estudantes que percebemos algo que os números sozinhos não conseguem revelar: para muitas comunidades, a crise climática não terminou quando as águas baixaram. Ela continua presente toda vez que a previsão anuncia chuva.
A crise climática não começou com as enchentes de 2024 nem terminará quando as águas baixarem. Para o Movimento Feminista Inclusivass, ela é uma realidade permanente que atravessa os corpos, os territórios e a vida das mulheres e meninas com deficiência que acompanhamos diariamente. Nossa reflexão nasce da experiência de quem vive essas desigualdades, atua nos territórios e constrói respostas coletivas para enfrentar uma das maiores crises do nosso tempo.
Os relatos dos estudantes revelaram que o medo permanece. Muitos lembraram das perdas sofridas durante as enchentes, da insegurança sempre que a chuva retorna e da preocupação com o futuro. A escuta confirmou aquilo que já sabemos: a crise climática deixou de ser uma ameaça distante e passou a integrar o cotidiano das comunidades.
Mas ela não atinge todas as pessoas da mesma forma.
A crise climática é também uma crise de direitos humanos, de justiça social e de democracia. Seus impactos se intensificam onde já existem desigualdades produzidas pelo patriarcado, pelo racismo estrutural, pelo racismo ambiental, pelo capacitismo e pela concentração de renda. Por isso, atingem com maior força quem historicamente teve menos acesso à moradia digna, saneamento básico, saúde, educação, acessibilidade e proteção do Estado.
Embora seus impactos alcancem toda a sociedade, suas causas estão longe de ser naturais. A intensificação dos eventos extremos resulta de décadas de um modelo de desenvolvimento baseado na exploração predatória dos recursos naturais, no uso intensivo de combustíveis fósseis, no desmatamento, na mercantilização dos territórios e na concentração de riqueza. Não existe desastre “natural” quando escolhas econômicas e políticas ampliam deliberadamente os riscos para parte da população.
Por isso insistimos: a crise climática tem gênero, deficiência e responsáveis.
Quando falamos em responsáveis, não nos referimos apenas às emissões que agravam o aquecimento global. Falamos também das decisões políticas que definem quem será protegido, quem terá acesso aos recursos públicos e quem continuará invisível diante das políticas de prevenção, resposta e reconstrução.
Quando autoridades afirmam que o Rio Grande do Sul está mais preparado do que em 2024, seguimos fazendo uma pergunta simples: preparado para quem?
Obras de contenção, sistemas de alerta e investimentos em infraestrutura são fundamentais. Mas nenhuma reconstrução será suficiente se continuar ignorando quem permanece invisível nas políticas públicas. Ainda convivemos com a ausência de protocolos acessíveis de evacuação, comunicação em múltiplos formatos, transporte adaptado, abrigos acessíveis e atendimento especializado para pessoas com deficiência durante situações de emergência.
Essa ausência não representa apenas uma falha administrativa. Ela revela quem é tratado como prioridade e quem continua sendo deixado para trás.
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro com status constitucional, determina, em seu artigo 11, que os Estados adotem todas as medidas necessárias para garantir a proteção e a segurança das pessoas com deficiência em situações de risco, emergências humanitárias e desastres naturais. O Marco de Sendai para Redução do Risco de Desastres (2015–2030), também assumido pelo Brasil, reforça que essas pessoas devem participar do planejamento, da prevenção, da resposta e da reconstrução dos territórios.
Apesar desses compromissos, a realidade permanece distante do que esses instrumentos estabelecem.
Segundo a PNAD Contínua de 2022, o Brasil possui aproximadamente 18,6 milhões de pessoas com deficiência, das quais 10,7 milhões são mulheres, o equivalente a quase 58% dessa população. Ainda assim, elas seguem praticamente ausentes dos planos de adaptação climática, gestão de riscos e resposta a desastres.
Ignorar gênero e deficiência não é uma falha técnica.
É uma escolha política.
Quando acrescentamos o recorte racial, as desigualdades tornam-se ainda mais profundas. O racismo ambiental empurra historicamente populações negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas para territórios mais vulneráveis às enchentes, aos deslizamentos, à contaminação ambiental, à ausência de saneamento e à precariedade da infraestrutura.
Mulheres negras com deficiência vivem na intersecção dessas desigualdades. Enfrentam simultaneamente o racismo, o sexismo e o capacitismo, acumulando barreiras para acessar moradia adequada, renda, transporte, saúde, educação e proteção social. Em situações de emergência climática, isso significa maior exposição aos riscos, mais dificuldades para evacuar áreas atingidas, menor acesso à informação acessível e menos condições para reconstruir suas vidas.
Falar em justiça climática exige enfrentar também o racismo ambiental.
A enchente histórica de 2024 evidenciou que os desastres não criam desigualdades: eles aprofundam aquelas que já existiam.
Foi nesse contexto que o Movimento Feminista Inclusivass desenvolveu o projeto “Por Todas Nós”, com apoio do Fundo ELAS+, realizando o mapeamento, a escuta, o acolhimento e a incidência política junto às mulheres e meninas com deficiência atingidas pelas enchentes.
O projeto revelou aquilo que os números, sozinhos, não conseguem mostrar: as desigualdades têm rosto, nome e território.
Os relatos que ouvimos jamais serão esquecidos.
Mulheres contaram que precisaram escolher entre salvar a própria vida ou tentar resgatar suas cadeiras de rodas, próteses, aparelhos auditivos, bengalas, órteses e outros recursos de tecnologia assistiva indispensáveis à sua autonomia. Outras perderam medicamentos, documentos, adaptações residenciais e equipamentos essenciais para sua independência.
Dois anos depois, muitas dessas tecnologias assistivas ainda não foram substituídas.
Em muitos casos, esses equipamentos representam a própria possibilidade de existir com autonomia.
Para uma mulher com deficiência, perder uma cadeira de rodas, um aparelho auditivo ou qualquer outro recurso de tecnologia assistiva não representa apenas um prejuízo material. Significa perder autonomia, mobilidade, acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à participação política e ao convívio comunitário.
Reconstruir não pode significar apenas levantar muros e reconstruir estradas. Reconstruir significa devolver autonomia, garantir direitos e assegurar que nenhuma pessoa permaneça meses ou anos privada da própria liberdade por falta de uma cadeira de rodas, de um aparelho auditivo ou de qualquer outro recurso essencial.
O projeto “Por Todas Nós” evidenciou outro problema estrutural: a ausência de dados produzidos com recortes de gênero, raça, deficiência, idade e território. Quando o Estado não produz informações qualificadas sobre quem foi atingido, também produz invisibilidade, e políticas públicas formuladas sem esses dados tendem a reproduzir desigualdades.
Por isso, defendemos que todos os planos de prevenção, resposta e reconstrução incorporem indicadores desagregados. Sem dados não existe planejamento. Sem planejamento não existe justiça climática.
A crise climática também amplia as diferentes formas de violência contra as mulheres. Em situações de desastre aumentam os casos de violência doméstica, violência sexual, exploração, abuso e feminicídio. O deslocamento forçado, a perda da moradia, a interrupção das redes de apoio e a precarização das condições de vida dificultam que muitas mulheres denunciem seus agressores ou acessem medidas de proteção.
Para mulheres com deficiência, essas barreiras tornam-se ainda maiores. A falta de acessibilidade nos serviços, a ausência de comunicação em formatos acessíveis, a dependência de terceiros para locomoção e a inexistência de protocolos específicos fazem com que muitas permaneçam isoladas e sem condições de pedir socorro.
Garantir proteção durante uma emergência climática também significa fortalecer as políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres, assegurando atendimento acessível, acolhimento qualificado e respostas rápidas para quem mais precisa.
Mas nossa atuação não se limita aos momentos de desastre.
Enfrentar a crise climática exige fortalecer direitos antes, durante e depois das emergências. Por isso seguimos investindo em formação política, educação ambiental e participação social, porque acreditamos que a prevenção também se constrói por meio da informação, da organização coletiva e da ampliação da participação democrática.
A experiência demonstra que são justamente os movimentos sociais, as organizações comunitárias e os coletivos populares que frequentemente chegam primeiro aos territórios, acolhem as famílias e pressionam o poder público para que direitos sejam efetivamente garantidos. Reconhecer esse protagonismo também faz parte da construção da justiça climática.
A justiça climática não será construída apenas com diques, bombas de drenagem ou sistemas de alerta. Ela exige transformar a forma como produzimos cidades, distribuímos recursos e reconhecemos direitos. Exige enfrentar o racismo ambiental, o capacitismo, o patriarcado e todas as estruturas que determinam quais vidas importam mais do que outras.
Mulheres e meninas com deficiência querem participar das decisões, influenciar as políticas públicas e construir, junto com toda a sociedade, caminhos para um futuro mais justo.
A crise climática é ambiental, mas também é política, social e ética. E justamente por ser resultado de escolhas humanas, ela pode ser enfrentada por outras escolhas: aquelas que colocam a vida, a dignidade e os direitos humanos no centro das decisões.
Porque nenhuma reconstrução será verdadeiramente completa enquanto algumas vidas continuarem sendo consideradas reconstruíveis e outras permanecerem descartáveis.
*Carol Santos e Bruna Schatschineider fazem parte do Movimento Feminista Inclusivass.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

