“Um mundo melhor para as mulheres negras é um mundo melhor para todas as pessoas”. Esta frase, que ecoa as vozes de tantas mulheres que formam o movimento de mulheres negras, reflete que nós ainda vivemos em condições socioeconômicas que nos colocam na base da pirâmide social.
Estar na base da pirâmide social brasileira significa enfrentar diariamente as piores condições de trabalho, os menores salários, a maior exposição à violência, além de termos menos acesso a direitos e oportunidades. Infelizmente são muitos os dados que escancaram as desigualdades estruturais que nos colocam em condições de vulnerabilidade.
Assim, não me peçam para falar em igualdade de oportunidades enquanto nós, mulheres negras, recebemos em média metade da renda dos homens brancos, de acordo com o Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), que analisou dados do IBGE e do Ipea entre 2026 e 2023. Não me peçam para falar em igualdade de oportunidades enquanto o desemprego entre jovens negras (de 25 a 29 anos) é quase três vezes maior do que entre homens brancos (PNAD Contínua, 2025).
Não me peçam para falar em igualdade de oportunidades enquanto levamos cerca de sete gerações (184 anos!) para conseguirmos comprar nossa casa própria, de acordo com o estudo “Sem moradia digna não há justiça de gênero” (ONG Habitat para a Humanidade Brasil) ou enquanto representamos 65,1% das vítimas de feminicídio do país (20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública).
E, mesmo com tudo isso, nós somos responsáveis pelo sustento de aproximadamente 24 milhões de lares no país, quase 30% da totalidade dos domicílios, como mostra o Boletim especial Dia da Consciência Negra (DIEESE, 2025).
Nós, mulheres negras, formamos a maior parcela populacional do Brasil. Nós somos hoje 60,6 milhões, de acordo com o IBGE, o que representa 28% da população brasileira. Embora sejamos o maior grupo na população, os dados acima nos mostram que ainda hoje somos minoria quando o assunto é acesso à direitos.
Nas últimas semanas, milhares de mulheres negras de todo o Brasil promoveram uma série de atos em alusão ao dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, celebrado no dia 25 de julho. Mulheres negras se uniram em marcha nas ruas de capitais como o Recife (PE), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG) e Belém (PA), todas por reparação e bem viver.
A fragilidade nas políticas de promoção da igualdade racial e de enfrentamento ao racismo e sexismo, a tímida participação das mulheres em espaços de representação e poder, além do deficitário acesso a direitos básicos como saúde, educação, moradia e trabalho são pontos que se destacam entre as reivindicações historicamente trazidas por nós.
Estamos em ano eleitoral, quando decidiremos mais uma vez quais pessoas farão parte da fotografia do poder do Brasil. A escolha dos representantes do povo que ocuparão as casas legislativas estaduais e o Congresso Nacional se conecta diretamente com as pautas trazidas pelas mulheres negras — mas sempre nos foi dito que o espaço da política não é feito para nós.
Eu, enquanto uma mulher negra, que hoje estou deputada estadual, compreendo que ocupar este espaço representa um movimento de insubordinação a um sistema que nos distancia dos locais de tomada de decisões. Mais uma vez eu preciso lembrar: estamos em período eleitoral, um momento decisivo para redesenharmos essa fotografia do poder. Já imaginaram as casas legislativas e as cadeiras dos executivos deste país terem o rosto de nossas mães, filhas, irmãs e amigas?
Preciso aqui trazer à tona alguns dados alarmantes mas que nos mostram o quanto o espaço da política se apresenta alheio à participação das mulheres negras. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, num universo de 513 vagas, apenas 29 são ocupadas por mulheres negras, ou seja, somos apenas 5,7%. No Senado o cenário é ainda mais assustador: das 81 vagas, nenhuma é ocupada por uma mulher negra.
Sou de um estado onde mais de 65% da população é negra e 52,3% é de mulheres, mas a composição da nossa casa legislativa não reflete esta realidade. Na Assembleia Legislativa de Pernambuco, somos apenas seis mulheres deputadas, pouco mais de 12% das cadeiras. Destas, apenas duas são negras. Não estamos falando só de números, mas de uma ausência que se traduz inclusive na fragilidade na defesa de políticas para essas mulheres.
Assim, eleger mais mulheres negras comprometidas com a defesa dos nossos direitos vai muito além de uma questão de representatividade, mas de transformação concreta das prioridades políticas e do próprio fazer legislativo. Ampliar essa presença significa enfrentar desigualdades históricas e afirmar que a democracia só se realiza plenamente quando todas as pessoas estejam representadas.
É preciso entender que, para mudar a estrutura que nos oprime, precisamos ter mais de nós movendo essas estruturas, promovendo políticas públicas que de fato mudem a fotografia do poder na nossa sociedade e que possibilitem acesso e permanência real nesses espaços que nos foram negados ao longo de toda a história.
Eleger mulheres negras, mais do que uma escolha, é uma reintegração de posse. E nós chegamos para ficar. Vamos aquilombar e enegrecer os parlamentos Brasil afora. A resposta é negra!

