Editorial do maior jornal do país resume dilema nacional à defesa de uma única tese econômica corporativa
A Folha de S.Paulo publicou um editorial para lamentar a suposta indigência do debate eleitoral brasileiro. Há algo de revelador nisso: o jornal parece incapaz de perceber o quanto seu próprio editorial é uma demonstração do problema que pretende denunciar.
Para a Folha, “qualquer pessoa minimamente bem informada” saberia que o país está diante de uma escolha difícil: promover um duro ajuste dos gastos públicos ou enfrentar o agravamento do estresse financeiro. É uma formulação impressionante, não apenas pelo dogmatismo econômico, mas pela capacidade de reduzir uma eleição presidencial, em um país marcado por desigualdades profundas e em meio a disputas sobre democracia, soberania e direitos, a uma questão de corte de gastos.
É esse o grande dilema nacional?
Não a redução da pobreza e da fome. Não a qualidade do emprego e da renda. Não o acesso à saúde, educação e moradia. Não a emergência climática. Não a violência contra mulheres e população negra. Não a soberania tecnológica e econômica. Não a relação do Brasil com as grandes potências. Não a preservação das instituições democráticas.
O problema incontornável, para a Folha, é novamente o ajuste fiscal.
É legítimo que um jornal defenda determinada concepção econômica. O que merece crítica é apresentá-la como se fosse uma conclusão evidente para qualquer pessoa “minimamente bem informada”. Isso transforma uma posição política e econômica específica em aparente senso comum técnico e rebaixa todas as outras prioridades nacionais à condição de distrações.
E os fatos recentes tornam esse enquadramento ainda mais estreito. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da ONU em 2025 e permaneceu fora dele em 2026. O relatório mais recente da FAO mantém a prevalência de subnutrição abaixo de 2,5% da população. Em sentido contrário, 2022 terminou marcado por níveis dramáticos de insegurança alimentar: diferentes metodologias produziram números distintos, mas todas registraram uma situação grave de fome no país.
Isso não transforma uma eleição em plebiscito sobre um único indicador, nem elimina críticas possíveis ao atual governo. Mostra, porém, algo que o enquadramento fiscalista apaga: políticas públicas produzem consequências materiais radicalmente diferentes sobre a vida das pessoas. Discutir quais políticas serão mantidas, abandonadas ou aprofundadas é tão concretamente econômico quanto discutir resultado primário, dívida ou gasto público.
Há ainda outro problema na tentativa de produzir uma falsa simetria confortável.
A eleição de 2026 ocorre depois de uma tentativa de ruptura institucional pela qual Jair Bolsonaro foi condenado, e Flávio Bolsonaro construiu sua candidatura reivindicando explicitamente o legado político do pai. Ao mesmo tempo, o candidato tem prometido reverter decisões judiciais envolvendo sua família e feito ataques a ministros do Supremo. A própria Folha já noticiou essas contradições.
Também não é possível tratar soberania nacional como assunto lateral. Nesta campanha, as relações com os Estados Unidos se converteram em tema eleitoral concreto. Há denúncias de interferência externa. Sanções e tarifas estadunidenses entraram no debate político brasileiro, e a própria Folha noticiou documento que vinculava medidas comerciais dos Estados Unidos a exigências relacionadas ao cenário político brasileiro, enquanto Flávio Bolsonaro negou receber qualquer ajuda de Donald Trump.
Nada disso obriga um jornal a apoiar Lula, evidentemente. Jornalismo não existe para poupar governos de críticas, e o eleitor tem direito de conhecer e avaliar problemas fiscais, erros administrativos, contradições e promessas não cumpridas. Mas é justamente aí que entra a responsabilidade da imprensa.
O papel do jornalismo em uma democracia não deveria ser fabricar equivalências para parecer equidistante. Tampouco transformar uma determinada ortodoxia econômica em régua universal para decidir quais assuntos são “graves e reais” e quais seriam apenas ruído eleitoral.
Uma imprensa que pretende qualificar o debate público precisa oferecer ao cidadão contexto suficiente para compreender o que efetivamente está em disputa.
Pode e deve cobrar de Lula sua ausência dos debates. Pode cobrar explicações sobre política fiscal. Pode escrutinar cada promessa, gasto e contradição do governo. Mas deveria aplicar a mesma disposição analítica às diferenças entre os projetos políticos apresentados ao país, às trajetórias de seus protagonistas, às consequências concretas das políticas que representam e aos compromissos que assumem diante das instituições democráticas e da soberania brasileira.
Porque eleições não acontecem entre duas abstrações chamadas “situação” e “oposição”. Acontecem entre projetos políticos com histórias, alianças, práticas e consequências verificáveis.
Talvez a pergunta que a Folha deveria fazer seja outra.
Se o debate eleitoral brasileiro está tão indigente, qual é a responsabilidade dos grandes meios de comunicação nisso?
Quem escolhe diariamente quais temas merecem manchetes, editoriais, entrevistas e enquadramentos também participa da definição da agenda pública. Quem insiste em tratar equilíbrio fiscal como a grande questão nacional faz uma escolha editorial. Quem transforma diferenças substantivas em uma equivalência entre “dois lados” também faz uma escolha editorial.
A imprensa não está fora da disputa sobre o que importa.
E talvez uma das maiores indigências do debate público brasileiro seja justamente esta: apresentar escolhas editoriais, econômicas e políticas como se fossem apenas a descrição neutra e inevitável da realidade.
*Ramênia Vieira é jornalista, feminista, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom) da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do DiraCom.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


