Em 2025, o Brasil registrou o terceiro menor número de conflitos no campo dos últimos dez anos. Ao mesmo tempo, o número de assassinatos ligados a esses conflitos dobrou. O paradoxo é o ponto de partida do caderno Conflitos no Campo Brasil 2025, publicado em abril pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). E também é o pano de fundo sobre o qual, entre os dias 10 e 14 de agosto, dezenas de organizações realizarão a Semana Nacional de Enfrentamento à Violência no Campo, uma iniciativa da Campanha Contra a Violência no Campo, coalizão de mais de 70 entidades que neste ano completa quatro anos de existência.
Uma década, dois movimentos contrários
Segundo o levantamento da CPT, o Brasil registrou 1.593 conflitos no campo em 2025, uma queda de 27% em relação ao ano anterior e um dos três menores totais da década iniciada em 2016. No mesmo período, porém, os assassinatos ligados a esses conflitos saltaram de 13 para 26, um aumento de 100%. O ano também registrou dois massacres, definidos pela CPT como a morte de três ou mais pessoas na mesma data e na mesma ocorrência: um no Pará, vitimando trabalhadores sem-terra; e outro em Rondônia, no qual um posseiro e dois aliados foram mortos. Não se registrava a ocorrência de dois massacres em um único ano desde 2019. E, desde 2022, não havia qualquer massacre no campo brasileiro.
O próprio Caderno da CPT chama atenção para o que essa combinação de números sugere: não existe relação direta entre o volume de conflitos agrários e a ocorrência de assassinatos. Os dois anos da década com menor número de mortes — 2020 e 2024 — estão justamente entre os anos com mais conflitos registrados. Se a explicação para o recrudescimento da violência letal não está no grau de conflitividade, ela precisa ser buscada em outro lugar: nas conjunturas políticas e institucionais que, historicamente, favorecem — ou contêm — o recurso à violência extrema no campo.
A resposta da sociedade civil: Semana Nacional de Enfrentamento à Violência no Campo
É nesse cenário de escalada da violência letal e de uma nova fronteira de expansão agrícola sobre o Cerrado que se organiza a Semana Nacional de Enfrentamento à Violência no Campo.
Entre 10 e 14 de agosto, organizações vinculadas à Campanha Contra a Violência no Campo realizaram rodas de conversa, seminários, vigílias, atos públicos, audiências e ações de comunicação em todo o país, em torno do dia 12 de agosto, Dia de Luta Contra a Violência no Campo, instituído em memória da sindicalista Margarida Maria Alves, assassinada em 1983, em Alagoa Grande (PB).
A Campanha Contra Violência no Campo realizará a Plenária Nacional Virtual, atividade que marcará a abertura da semana, discutindo o avanço da fronteira mineral, energética e de infraestrutura sobre a reforma agrária, com base em uma pesquisa realizada pela Fase e a Fundação Rosa Luxemburgo. A atividade será no dia 10 de agosto, das 14h às 16h.
Além disso, a programação nacional já reúne atividades confirmadas em diferentes pontos do país. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lança, durante a semana, seu relatório de violência contra os povos indígenas. Também está prevista uma atividade na Universidade de Brasília (UnB).
Organizações de Alagoas e de Rondônia também preparam atividades locais, entre outras iniciativas que devem se somar à programação ao longo da semana.
Como parte da mobilização, a Campanha também divulga um vídeo institucional que sintetiza o caráter estrutural da violência no campo brasileiro.
VIDA E TERRA SIM, VIOLÊNCIA NÃO!
E é sob esse lema que a Campanha busca fortalecer redes de solidariedade e mecanismos de proteção coletiva às comunidades atingidas, tarefa essa que, diante do quadro descrito pela CPT, não admite mais adiamento.
*Giovanna Ferreira Lima é formada em Direito e mestranda em Desenvolvimento Regional. Se organiza na Secretaria Nacional do Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais e no Conselho Nacional da rede BrCidades, organizações integrantes da CCVC.
**Jardel Neves Lopes é formado em filosofia, especialista em fé e política e doutorando em teologia, secretário executivo da Campanha contra a violência no campo e assessor da CNBB, atuando como secretário-executivo do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara (CEFEP/CNBB).
***Fátima Tertuliano é formada em Jornalismo, mestranda em Educomunicação. Está como Assessora de Comunicação da Campanha Contra a Violência no Campo, integrante do Coletivo Magnífica Mundi – UFG e fundadora da primeira rádio comunitária do Quilombo Kalunga, maior território quilombola do mundo em extensão territorial.
****Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

