Por Bruno Lazzarotti, Felipe Di Mingo Mota Longo e Marina Diniz Ferreira Pinheiro
Dentre as políticas educacionais que vêm ganhando impulso no Brasil, a expansão da oferta de educação em tempo integral (ETI) tem se destacado. Não é sem razão. Quando comparada a outros países, a jornada escolar semanal média de nosso país é significativamente menor, como pode ser observado no gráfico 1.

Como se vê no gráfico, a jornada semanal média do Brasil que, em 2018, era de 27,5 horas, era significativamente inferior à maioria dos países da amostra. Mesmo entre países da América Latina, o Brasil figurava abaixo de Chile, Costa Rica, Peru e Colômbia, bem como abaixo da média dos países da OCDE.
Entretanto, nos últimos anos, houve no Brasil uma expansão significativa das matrículas em tempo integral: considerando o conjunto da educação básica (infantil, ensino fundamental e médio), as matrículas em tempo integral no país passaram de 15,1% do total, em 2021, para 25,8%, em 2025; um avanço muito significativo em 4 anos.
Mas será que adotar jornada parcial ou integral faz diferença para a educação e para estudantes e suas famílias?
As melhores evidências disponíveis até o momento apontam claramente que sim. Uma síntese de evidências sobre os efeitos da ETI na América Latina (Quintão et al., 2026) mostra ganhos em proficiência significativos nos ensino fundamental e médio e mais modestos nos primeiros anos de escolarização e impactos positivos sobre o desenvolvimento socioemocional dos estudantes. Por outro lado, não ficam nítidos eventuais efeitos sobre abandono e reprovação. Além disso, foi detectada a redução da gravidez na adolescência e da criminalidade nos contextos beneficiados pela ETI.
Tão importante quanto os impactos gerais, porém, é o achado de que os efeitos positivos da ETI são mais fortes nos contextos mais vulneráveis, nas escolas públicas e rurais. Ou seja, todos são beneficiados e os mais vulneráveis se beneficiam ainda mais, em uma combinação importante de eficácia e equidade. Os efeitos da ETI estendem-se ainda sobre as famílias, com maior inserção de mães e avós no mercado de trabalho. Ou seja, é simultaneamente parte de uma política de educação, de cuidado e de inclusão produtiva e autonomia das mulheres.
Minas Gerais
No que se refere à expansão da oferta em ETI, porém, a rede estadual de Minas Gerais tem feito um progresso bem mais limitado do que outros estados do sudeste e do que o conjunto das redes estaduais do Brasil. Essa diferença pode ser observada de forma mais clara quando se compara a evolução das matrículas em tempo integral na rede estadual mineira com a trajetória do conjunto das redes estaduais brasileiras.
Os gráficos a seguir permitem visualizar como esse movimento ocorreu entre 2015 e 2025 e em que medida Minas Gerais acompanhou, ou se distanciou, da expansão registrada no país.

Quando se observa separadamente cada etapa da educação básica, a distância entre Minas Gerais e o conjunto das redes estaduais brasileiras se torna mais evidente. Em 2025, o estado apresentava percentuais inferiores de matrículas em tempo integral nas três etapas analisadas.
Porém, mais importante do que essa fotografia isolada, é a trajetória ao longo da última década: enquanto o movimento nacional recente é marcado por uma expansão relativamente contínua, Minas apresenta avanços interrompidos, períodos de estagnação e perda de parte da cobertura anteriormente alcançada.
Nos anos iniciais do ensino fundamental, Minas Gerais chegou a ocupar uma posição bastante favorável. Entre 2015 e 2018, o percentual de matrículas em tempo integral permaneceu acima da média das redes estaduais brasileiras, alcançando 20,4% em 2017, frente a 12,6% no país. A partir de 2019, no entanto, ocorre uma mudança brusca: o índice mineiro cai para 4,7% e permanece em níveis reduzidos nos anos seguintes. Como essa retração antecede a pandemia, ela não pode ser atribuída apenas às consequências da crise sanitária.
Mesmo com alguma recuperação recente, Minas chegou a 2025 com apenas 6,4% das matrículas dessa etapa em tempo integral, diante de 11,9% no conjunto nacional. O dado chama atenção porque o estado não enfrenta somente o desafio de criar novas vagas, mas também de recuperar uma capacidade de oferta que já demonstrou possuir no passado.
Nos anos finais do ensino fundamental, o contraste é ainda mais acentuado. A rede estadual de Minas ampliou muito pouco a cobertura nos últimos anos: o percentual passou de 7,2% em 2022 para 8,7% em 2025. No mesmo intervalo, a média nacional avançou de 15,6% para 21,9%. A diferença entre Minas e o país alcançou, assim, 13,2 pontos percentuais em 2025, a maior entre as três etapas analisadas.
Isso, para além de um percentual baixo, indica que o estado vem avançando em ritmo insuficiente para acompanhar a expansão observada em outras redes estaduais. Essa defasagem é especialmente relevante por atingir uma fase decisiva da trajetória escolar, marcada pela adolescência e por desafios relacionados à aprendizagem, permanência e desenvolvimento dos estudantes.
No ensino médio, por outro lado, a trajetória demonstra que Minas possui capacidade de expansão rápida. A participação das matrículas em tempo integral, que era praticamente inexistente em 2015, chegou a 21,9% em 2022, superando naquele ano a média nacional de 19,5%. O avanço, entretanto, não se sustentou. Em 2023, o percentual mineiro caiu para 13,7%, enquanto o indicador nacional continuou crescendo.
Mesmo com recuperação nos anos seguintes, Minas chegou a 2025 com 16,5% das matrículas em tempo integral, contra 26,2% no conjunto das redes estaduais brasileiras. Em apenas três anos, portanto, o estado passou de uma posição ligeiramente superior à média nacional para uma diferença negativa de quase dez pontos percentuais.
O conjunto dos dados aponta para um problema que vai além da quantidade atual de matrículas. A principal fragilidade da trajetória mineira parece estar na dificuldade de garantir continuidade às expansões realizadas. Nos anos iniciais houve perda expressiva de uma cobertura anteriormente elevada, nos anos finais predomina a estagnação, enquanto no ensino médio uma forte expansão foi seguida por um recuo significativo. Enquanto isso, o conjunto das redes estaduais brasileiras ampliou de forma mais consistente a participação da educação em tempo integral nos últimos anos.
Essa diferença importa porque a ampliação da jornada escolar não é apenas uma questão de tempo dentro da escola. Como discutido anteriormente, as evidências disponíveis indicam que políticas de educação em tempo integral, quando acompanhadas de qualidade, podem gerar ganhos de aprendizagem e desenvolvimento socioemocional, além de efeitos sociais que alcançam estudantes e suas famílias.
Também há indícios de que esses benefícios sejam maiores justamente em contextos de maior vulnerabilidade, o que torna a expansão da política uma questão não apenas de qualidade educacional, mas também de equidade.
Minas Gerais já demonstrou que é capaz de ampliar significativamente a oferta de educação em tempo integral. O desafio é transformar experiências de expansão pontual em uma política mais estável e duradoura. Isso exige aumentar a cobertura sem reduzir a discussão apenas à quantidade de horas ou vagas, uma vez que mais tempo na escola precisa estar associado a melhores condições de aprendizagem, convivência, cultura, esporte e desenvolvimento integral.
Ou seja, é preciso expandir a ETI, mas provendo as condições adequadas para que produza os resultados esperados. Diante do avanço observado no restante do país, os dados indicam que Minas tem espaço para acelerar esse processo, garantindo que a expansão alcance de forma consistente os estudantes que mais podem se beneficiar dela.
Bruno Lazzarotti é doutor em Ciências Humanas: Sociologia e Política pela UFMG.
Felipe Di Mingo Mota Longo é graduando do curso de Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e bolsista no Observatório das Desigualdades.
Marina Diniz Ferreira Pinheiro é graduanda do curso de Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e bolsista no Observatório das Desigualdades.
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Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

