Economia Popular

Economia Popular é uma coluna que discute a economia do dia-a-dia: preços, inflação, custos, juros, endividamento, políticas econômicas, estatais e bem-estar material. Uma leitura crítica da ortodoxia econômica, mostrando como a disputa da grande política se traduz no bolso de quem vive do seu próprio trabalho.

Lula precisa reestatizar as refinarias vendidas por Bolsonaro

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso de reeleição, São Paulo (SP).
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso de reeleição | Crédito: Ricardo Stuckert

O quarto mandato de Lula precisará de um programa econômico popular que enfrente o custo de vida.

Lula foi eleito para um quarto mandato numa virada histórica, e seu programa econômico tem apoio popular: isenção do imposto de renda, fim da escala 6×1, fim das bets, Desenrola, ganho real do salário mínimo e investimento maciço da Petrobras. Mas Lula chegará ao seu último mandato com uma pauta pendente, a reversão das privatizações de ativos fundamentais, entre eles refinarias e distribuidoras de combustíveis. Neste artigo trataremos sobre a necessidade da retomada das refinarias.

Em 2019, a Petrobras fechou um acordo com o Cade para vender metade do seu parque de refino, sob a promessa de mais concorrência e preços menores. Bolsonaro vendeu a Refinaria de Mataripe (Bahia) à Mubadala, hoje Acelen; a Refinaria de Manaus ao grupo Atem, hoje REAM; e a Clara Camarão (Rio Grande do Norte) à 3R, hoje Brava. A SIX, de xisto, no Paraná, também foi vendida, mas não entra aqui por questões de diferenças operacionais. O resultado foi trocar um monopólio nacional por monopólios regionais privados.

Na Bahia, segundo a ANP, a Refinaria de Mataripe forneceu de janeiro a setembro de 2026 todo o diesel S-10, 81,5% da gasolina e 97,7% do GLP entregues às distribuidoras. É monopólio privado no diesel e no GLP e duopólio privado na gasolina, com a Braskem. A Petrobras está fora do mercado.

Tabela 1 – Entregas às distribuidoras na Bahia por fornecedor, jan–set/2026 (%)

ProdutoMataripe/AcelenBraskemOutrosVolume
Diesel S-10100,0––1.798 mil m³
Gasolina A81,518,30,11.974 mil m³
GLP97,72,3–265 mil t

Fonte: ANP. Elaboração: Ibeps

Sem concorrência e com operação apenas privada, o preço sobe. A Petrobras cobra hoje R$ 3,05 pela gasolina, R$ 3,30 pelo diesel e R$ 34,70 pelo botijão de 13 kg, e mantém reajustes espaçados mesmo com a guerra. As privatizadas repassam toda a oscilação do mercado, e mais (Gráfico 1). Desde a privatização, a Acelen cobrou em média 7% a mais na gasolina, 8% no diesel e 25% no GLP; a REAM, 21%, 24% e 33%; a Clara Camarão, 12% na gasolina e 35% no GLP (Tabela 2). Em vários momentos cobraram acima até do Preço de Paridade de Importação (PPI) da ANP, ou seja, mais do que custaria importar o produto pronto. A Acelen cobrou o GLP acima do PPI de Suape em 230 das 256 semanas desde 2022, e em todo ano de 2025, em média R$ 12,94 (35%) acima. A REAM cobrou a gasolina acima do PPI de Manaus em quase todo o período de operação privada. Em junho de 2026, a gasolina da Acelen chegou a R$ 3,86 contra PPI de R$ 3,12.

Gráfico 1 – Preço da gasolina, do diesel S-10 e do GLP: Petrobras e refinarias privatizadas

Fonte: Petrobras, Acelen, REAM, Brava/3R. Médias semanais. Elaboração: Ibeps

Tabela 2 – Diferença média para a Petrobras desde o início de cada privatização (R$ e %)

Refinaria (início)Gasolina (R$/L)Diesel S-10 (R$/L)GLP (R$/botijão)
Acelen (dez/2021)0,21 (7%)0,31 (8%)9,76 (25%)
REAM (dez/2022)0,59 (21%)0,84 (24%)11,45 (33%)
Clara Camarão/3R (jun/2023)0,33 (12%)–11,79 (35%)

Fonte: Petrobras, Acelen, REAM, 3R. Elaboração: Ibeps

Desde 28 de fevereiro, quando começou a guerra, a Petrobras manteve preços estáveis, e as privatizadas repassaram o choque ao consumidor (Tabela 3). O diesel da Acelen custou em média 52% mais que o da Petrobras, contra 8% no período todo. A gasolina, 40% mais. No Amazonas, o diesel da REAM chegou a R$ 7,19 contra R$ 3,30 da Petrobras, 89% a mais em média. A guerra prova de forma ainda mais explícita que refinaria privada significa instabilidade e exposição do consumidor.

Tabela 3 – Diferença média para a Petrobras desde o início da guerra, 28/02/2026 (R$ e %)

RefinariaGasolina (R$/L)Diesel S-10 (R$/L)GLP (R$/botijão)
Acelen1,08 (40%)1,77 (52%)14,56 (42%)
REAM1,80 (67%)3,04 (89%)4,03 (12%)
Clara Camarão/3R1,14 (42%)–14,59 (42%)

Fonte: Petrobras, Acelen, REAM, 3R. Elaboração: Ibeps

Para ilustrar o problema, multiplicamos a diferença mensal entre o preço da Acelen e o da Petrobras pelo volume de cada produto vendido pela Mataripe no estado (ANP), supondo que as distribuidoras repassem o aumento ao consumidor. Entre dezembro de 2021 e setembro de 2026, a diferença de preço da Acelen para a Petrobras custou R$ 6,7 bilhões aos baianos, cerca de R$ 470 por habitante (Censo 2022: 14,1 milhões). Só nos sete meses da guerra, de março a setembro, foram R$ 4,1 bilhões, 62% do total (Tabela 4 e Gráfico 2). Para junho a setembro, os volumes de cada produto foram estimados pela média dos meses anteriores de 2026.

Tabela 4 – Gasto a mais na Bahia por privatização (R$ milhões)

PeríodoGasolinaDiesel S-10GLPTotal
Dez/2021 a fev/20265887681.1962.552
Mar a set/2026 (guerra)1.3912.4972324.120
Total1.9803.2651.4276.672

Fonte: Acelen, Petrobras, ANP. Jun–set/2026 estimado. Elaboração: Ibeps

Gráfico 2 – Gasto a mais mensal na Bahia pela diferença de preço da Acelen para a Petrobras

Fonte: Acelen, Petrobras, ANP. Jun–set/2026 estimado. Elaboração: Ibeps

O quarto mandato de Lula precisará de um programa econômico popular que enfrente o custo de vida. Combustível e gás de cozinha pesam no orçamento do trabalhador e no preço de fretes e alimentos, e quem controla o refino controla parte da inflação. Devolver à Petrobras o comando de preços e da oferta, reestatizando as refinarias vendidas por Bolsonaro, é um passo incontornável para que esse mandato mantenha o apoio popular.

*Eric Gil Dantas, economista do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais), é doutor em Ciência Política pela UFPR.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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