Lula foi eleito para um quarto mandato numa virada histórica, e seu programa econômico tem apoio popular: isenção do imposto de renda, fim da escala 6×1, fim das bets, Desenrola, ganho real do salário mínimo e investimento maciço da Petrobras. Mas Lula chegará ao seu último mandato com uma pauta pendente, a reversão das privatizações de ativos fundamentais, entre eles refinarias e distribuidoras de combustíveis. Neste artigo trataremos sobre a necessidade da retomada das refinarias.
Em 2019, a Petrobras fechou um acordo com o Cade para vender metade do seu parque de refino, sob a promessa de mais concorrência e preços menores. Bolsonaro vendeu a Refinaria de Mataripe (Bahia) à Mubadala, hoje Acelen; a Refinaria de Manaus ao grupo Atem, hoje REAM; e a Clara Camarão (Rio Grande do Norte) à 3R, hoje Brava. A SIX, de xisto, no Paraná, também foi vendida, mas não entra aqui por questões de diferenças operacionais. O resultado foi trocar um monopólio nacional por monopólios regionais privados.
Na Bahia, segundo a ANP, a Refinaria de Mataripe forneceu de janeiro a setembro de 2026 todo o diesel S-10, 81,5% da gasolina e 97,7% do GLP entregues às distribuidoras. É monopólio privado no diesel e no GLP e duopólio privado na gasolina, com a Braskem. A Petrobras está fora do mercado.
Tabela 1 – Entregas às distribuidoras na Bahia por fornecedor, jan–set/2026 (%)
| Produto | Mataripe/Acelen | Braskem | Outros | Volume |
| Diesel S-10 | 100,0 | – | – | 1.798 mil m³ |
| Gasolina A | 81,5 | 18,3 | 0,1 | 1.974 mil m³ |
| GLP | 97,7 | 2,3 | – | 265 mil t |
Fonte: ANP. Elaboração: Ibeps
Sem concorrência e com operação apenas privada, o preço sobe. A Petrobras cobra hoje R$ 3,05 pela gasolina, R$ 3,30 pelo diesel e R$ 34,70 pelo botijão de 13 kg, e mantém reajustes espaçados mesmo com a guerra. As privatizadas repassam toda a oscilação do mercado, e mais (Gráfico 1). Desde a privatização, a Acelen cobrou em média 7% a mais na gasolina, 8% no diesel e 25% no GLP; a REAM, 21%, 24% e 33%; a Clara Camarão, 12% na gasolina e 35% no GLP (Tabela 2). Em vários momentos cobraram acima até do Preço de Paridade de Importação (PPI) da ANP, ou seja, mais do que custaria importar o produto pronto. A Acelen cobrou o GLP acima do PPI de Suape em 230 das 256 semanas desde 2022, e em todo ano de 2025, em média R$ 12,94 (35%) acima. A REAM cobrou a gasolina acima do PPI de Manaus em quase todo o período de operação privada. Em junho de 2026, a gasolina da Acelen chegou a R$ 3,86 contra PPI de R$ 3,12.
Gráfico 1 – Preço da gasolina, do diesel S-10 e do GLP: Petrobras e refinarias privatizadas

Fonte: Petrobras, Acelen, REAM, Brava/3R. Médias semanais. Elaboração: Ibeps
Tabela 2 – Diferença média para a Petrobras desde o início de cada privatização (R$ e %)
| Refinaria (início) | Gasolina (R$/L) | Diesel S-10 (R$/L) | GLP (R$/botijão) |
| Acelen (dez/2021) | 0,21 (7%) | 0,31 (8%) | 9,76 (25%) |
| REAM (dez/2022) | 0,59 (21%) | 0,84 (24%) | 11,45 (33%) |
| Clara Camarão/3R (jun/2023) | 0,33 (12%) | – | 11,79 (35%) |
Fonte: Petrobras, Acelen, REAM, 3R. Elaboração: Ibeps
Desde 28 de fevereiro, quando começou a guerra, a Petrobras manteve preços estáveis, e as privatizadas repassaram o choque ao consumidor (Tabela 3). O diesel da Acelen custou em média 52% mais que o da Petrobras, contra 8% no período todo. A gasolina, 40% mais. No Amazonas, o diesel da REAM chegou a R$ 7,19 contra R$ 3,30 da Petrobras, 89% a mais em média. A guerra prova de forma ainda mais explícita que refinaria privada significa instabilidade e exposição do consumidor.
Tabela 3 – Diferença média para a Petrobras desde o início da guerra, 28/02/2026 (R$ e %)
| Refinaria | Gasolina (R$/L) | Diesel S-10 (R$/L) | GLP (R$/botijão) |
| Acelen | 1,08 (40%) | 1,77 (52%) | 14,56 (42%) |
| REAM | 1,80 (67%) | 3,04 (89%) | 4,03 (12%) |
| Clara Camarão/3R | 1,14 (42%) | – | 14,59 (42%) |
Fonte: Petrobras, Acelen, REAM, 3R. Elaboração: Ibeps
Para ilustrar o problema, multiplicamos a diferença mensal entre o preço da Acelen e o da Petrobras pelo volume de cada produto vendido pela Mataripe no estado (ANP), supondo que as distribuidoras repassem o aumento ao consumidor. Entre dezembro de 2021 e setembro de 2026, a diferença de preço da Acelen para a Petrobras custou R$ 6,7 bilhões aos baianos, cerca de R$ 470 por habitante (Censo 2022: 14,1 milhões). Só nos sete meses da guerra, de março a setembro, foram R$ 4,1 bilhões, 62% do total (Tabela 4 e Gráfico 2). Para junho a setembro, os volumes de cada produto foram estimados pela média dos meses anteriores de 2026.
Tabela 4 – Gasto a mais na Bahia por privatização (R$ milhões)
| Período | Gasolina | Diesel S-10 | GLP | Total |
| Dez/2021 a fev/2026 | 588 | 768 | 1.196 | 2.552 |
| Mar a set/2026 (guerra) | 1.391 | 2.497 | 232 | 4.120 |
| Total | 1.980 | 3.265 | 1.427 | 6.672 |
Fonte: Acelen, Petrobras, ANP. Jun–set/2026 estimado. Elaboração: Ibeps
Gráfico 2 – Gasto a mais mensal na Bahia pela diferença de preço da Acelen para a Petrobras

Fonte: Acelen, Petrobras, ANP. Jun–set/2026 estimado. Elaboração: Ibeps
O quarto mandato de Lula precisará de um programa econômico popular que enfrente o custo de vida. Combustível e gás de cozinha pesam no orçamento do trabalhador e no preço de fretes e alimentos, e quem controla o refino controla parte da inflação. Devolver à Petrobras o comando de preços e da oferta, reestatizando as refinarias vendidas por Bolsonaro, é um passo incontornável para que esse mandato mantenha o apoio popular.
*Eric Gil Dantas, economista do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais), é doutor em Ciência Política pela UFPR.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


