Edlamar França

Natural de Salvador-Bahia, Graduou-se em Psicologia, é psicanalista em formação pela Escola de Psicanálise Après Coup (POA); Mestre em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua na clínica com psicoterapia na perspectiva da Psicanálise Amefricana.

@edlamarfranca

Criadas: a ficção inventariando o que nos constitui

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Cena do filme Criadas (2025), dirigido por Carol Rodrigues | Crédito: Divulgação

Filme mostra como os processos de subjetivação de pessoas negras são marcados por experiências específicas de racialização, apagamento e luta por reconhecimento

Uma recomendação: assistam ao filme “Criadas”, dirigido por Carol Rodrigues. O título é a primeira coisa que nos faz pensar. A ambiguidade da palavra e as primeiras cenas da película mexem com nosso imaginário e a colonialidade instituída na nossa formação. Uma vez que nos remete tanto à função doméstica destinada às mulheres negras na “criadagem”, como a uma pessoa que, por convivência, é formada numa perspectiva de existência.

A complexidade das relações familiares e demais estruturadas pelo racismo, gênero e classe vai se revelando no desenrolar da trama e nos lembra, apesar de estar por vezes na superfície e tão escancarada, quão inconscientes somos das forças que tramam estas relações. Sobretudo quando os afetos significativos que temos são, em grande parte, os nós de nossas questões. 

Em “Criadas” o reencontro de duas mulheres negras, uma retinta e a outra de pele clara, primas que moravam na mesma casa em uma parte de suas infâncias, mas com posições bem diferentes nas relações estruturadas, são afetadas por memórias familiares e vínculos afetivos que atualizam feridas, heranças coloniais e o colorismo como efeito do racismo na família. Sandra que é retinta, retorna à casa onde viveu com a sua mãe que trabalhou como empregada doméstica para uma tia, cuja ascensão econômica a distingue dos demais parentes. Enquanto sua mãe, como a criada da casa, ocupava o lugar de cuidado, servidão e invisibilidade.

Por outro lado, Mariana de pele clara, vai se dando conta das distinções, acessos e experiências sociais e afetivas que teve. E de como a hierarquização da cor, distribuição de privilégios e violências sofridas se davam conforme a proximidade com os ideais de embranquecimento. Sobretudo, transmitidos pela sua mãe que parece ter adotado tais ideais como espécie de blindagem das violências raciais. No filme essas violências ultrapassam a dimensão econômica, se estendem às relações familiares e amorosas, organizando os afetos dentro e fora do âmbito familiar.

A casa é mais do que um cenário, é uma metáfora das estruturas coloniais que sustentam uma aparente normalidade construída sobre relações racializadas não elaboradas que uma determinada história insiste em ocultar. As paredes são testemunhas do que se viveu e do que se vive. Escondem histórias, segredos familiares, lembranças fragmentadas, silenciam violências, delimitam cômodos e lugares sociais. As paredes são barreiras físicas, simbólicas e psíquicas herdadas pelas personagens. Elas encarnam traumas transgeracionais que atravessam suas histórias pessoais. Aqui a ausência de palavras não significa ausência de violência, mas a permanência de marcas psíquicas desta violência nos corpos, nos afetos, nas relações. 

O sintoma colonial retorna como assombro, apesar das tentativas de silenciamento. As luzes que acendem e apagam sozinhas, os desaparecimentos, os sonhos, os diálogos entre vivos e mortos, os fantasmas. Cenas de um inconsciente racial. Os fantasmas que representam as violências não elaboradas da escravidão e do trabalho doméstico, mas também a força daqueles que permanecem na memória coletiva. 

O retorno de Sandra à casa pela busca de uma fotografia de sua mãe é mais do que recuperar uma imagem, é o enfrentamento dos vestígios materiais e afetivos dessa história familiar. É a necessidade de reconstruir uma memória que foi sistematicamente silenciada. O racismo não produz apenas desigualdades materiais, mas também apagamentos simbólicos que comprometem a elaboração da história e da identidade de pessoas negras. Recuperar a imagem da mãe é reinscrever a sua memória e ancestralidade. Portanto, os ancestrais não aparecem apenas como fantasmas ou como lembranças de um passado traumático, mas como presenças que organizam a experiência subjetiva no presente e exigem elaboração. 

Há um momento em que Sandra e Mariana canalizam a raiva dessas violências na quebra das paredes. O que poderíamos entender como quebra das divisões que enfraquecem os vínculos afetivos e coletivos. Ambas compartilham vínculos familiares, afetivos e ancestrais, mas suas experiências não são iguais. Serem negras e se identificarem como tal não apaga as diferenças instituídas pelas hierarquias raciais que não foram criadas por elas. Mas, a identidade é relacional, formada por múltiplas experiências que não podem ser reduzidas a uma única origem. Ninguém precisa ser reduzida às categorias inventadas pelo olhar dominante para ser aceita. A quebra das paredes, cena que marca um processo de rompimentos de estruturas e reconstrução de si na presença uma da outra, ambas são protagonistas e testemunhas de uma nova narrativa, uma outra identidade, uma nova relação. 

Enfim… O filme mostra como os processos de subjetivação de pessoas negras são marcados por experiências específicas de racialização, apagamento e luta por reconhecimento. Como também foge da linearidade de mostrar a complexidade das relações numa sociedade racializada e de uma explicação totalizante. Somos forjados mais pelos rastros e vestígios daquilo que permanece com sua densidade histórica, afetiva e ancestral, do que com uma suposta história transparente, inteligível e classificável que nos fazem acreditar. É a ficção inventariando aquilo que constitui a nossa psique e a formação da nossa sociedade. Um excelente filme!

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Jamile Araújo

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