Por José Luiz Quadros de Magalhães
Encontramos na literatura significados distintos para a palavra “presentismo”. Podemos compreendê-la como a impossibilidade de ver o passado que não seja pela percepção do presente; como a perda do passado como história e tradição, do futuro como ideal, e a condenação a um presente de curtição permanente; ou, ainda, como um presente dinâmico de transformação permanente e ininterrupto, como vivem os povos da floresta, acompanhando o movimento da vida em permanente mutação. Nada será como antes (Milton Nascimento) e nada do que foi será do jeito que a gente viu há um segundo (Lulu Santos).
Infelizmente, o presente se mostra congelado em uma curtição sem sentido, sem passado e sem futuro, sem valores e sem projetos. Outro dia, caminhando em direção da sala de aula, ouvi, sem querer, a conversa de alguns alunos do ensino médio que visitavam a PUC Minas para conhecer os cursos existentes e assim poder escolher seu curso superior. A conversa girava em torno de dinheiro, consumo, e qual curso poderia oferecer o acesso a este objetivo.
Pensei como, gradualmente, o mundo vai perdendo o sentido. Se antes, a escolha de um trabalho era vinculada ao espaço em que se vivia, a família, a um ideal, uma realização de valores, hoje tudo parece se resumir, para uma parcela expressiva de pessoas, em dinheiro.
Republicanismo x luxo e dinheiro
Um ministro do Supremo Tribunal Federal deveria se satisfazer em ocupar uma função de guardião da Constituição. Poder guardar a Constituição, defender a República e a democracia é razão suficiente para preencher uma vida. Mas parece que para alguns (não são muitos) o principal é poder ter acesso ao luxo, sucesso, acesso a favores, viagens em aviões particulares, recepções e contratos de milhões para seus familiares.
O mesmo acontece com os representantes do povo. Deputados e senadores, e muitos candidatos a estes cargos, parecem buscar estas funções, não pela grande oportunidade de representar as pessoas e seus direitos, mas como trampolim para ter acesso a privilégios, jatos particulares, convivência com o poder econômico e suas benesses.
A República precisa de republicanismo. Mesmo que determinados comportamentos não sejam ilegais são absurdamente não éticos, desrespeitosos e comprometem o Estado de Direito e a vida em sociedade. Não pode ser correta uma sociedade que se fundamente no sucesso pessoal, na ganância e no desespero por obter dinheiro. Isto não vai funcionar. Um ministro de uma Corte Suprema deve ser um ministro da Corte Suprema. Não é correto utilizar sua passagem pelo cargo para ficar milionário. Isto está muito errado.
O desafio contemporâneo é o comedimento. Palavra que soa estranha que implica em moderação, calma, prudência e dialoga com cuidado, ética e pode nos levar a simplicidade, humildade e responsabilidade.
O mundo está estagnado neste presentismo desesperado de busca permanente por dinheiro, e cheira mal. Este presente inerte, parado em um gozo interminável, fede.
Trazendo algumas palavras que carregam ideias do campo das ciências “psi”, mais especialmente a psicanálise, e dialogando com os psicanalistas e filósofos, Slavoj Zizek e Célio Garcia, podemos lembrar do caminho percorrido pelo capitalismo, do desejo ao gozo e do gozo ao mais gozar para, enfim, o aprisionamento das pessoas nesta “jouissance” , neste gozo infinito que não permite espaço para o desejo.
Sem desejo não há transformação possível, ou outros futuros possíveis. O aprisionamento no mais gozar permanente mata qualquer possibilidade de futuro, de transformação radical ou de revolução.
Se o capitalismo soube lidar com o desejo melhor que o socialismo, ao atrair as pessoas para suas garras, mergulhou as pessoas em um gozo permanente. Em um excesso desesperado, permanente, alucinado, em busca de poder, dinheiro, sucesso sem limites. Como pessoas drogadas pelo excesso, no gozar e mais gozar não há espaço para desejar. Não há tempo para desejar.
O grande antídoto para esta sociedade de zumbis enebriados por poder e dinheiro, vestidos ou não de capas pretas até o tornozelo, em funções de representação nos parlamentos ou nos escritórios de grandes empresas capitalistas, é o desejo. As pessoas precisam voltar a sonhar, a imaginar, a buscar outras coisas. É necessário desacelerar, sair deste pesadelo de jantares sofisticados; viagens em jatinhos particulares; acúmulo de poderes econômicos e jogos de influência; de vaidades e futilidades intermináveis, que não trazem nada além de desespero delirante.
A grande questão que colocamos é como podemos fazer com que as pessoas voltem a desejar outros mundos possíveis, ou mesmo impossíveis. Só o desejo radical de transformação pode romper com o apocalipse zumbi dos corredores do poder, a vaidade regada a jantares caros, carros de luxo e jatinhos particulares. Só o desejo pode libertar as pessoas do gozo de alucinados bilionários, infelizes e maus.
José Luiz Quadros de Magalhães é professor da Faculdade de Direito da UFMG, integrante da Diretoria Setorial de Arte e Cultura do APUBHUFMG+ e presidente da Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz de Belo Horizonte.
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