Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

Memória, cinema e educação em direitos humanos

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Imagem do filme “Ouro de tolo”, de Richardson Pontone | Crédito: reprodução

A literatura, a música, a poesia, contribuem para a educação em direitos humanos

Por José Heleno Ferreira

O direito à memória é condição para a garantia do bem viver e do reconhecimento da produção cultural, das lutas e conquistas de um povo. Não à toa, processos de colonização buscam negar a história e a memória das pessoas escravizadas e dominadas. Assim foi com negras e negros arrancados do continente africano e transformados em mercadoria, em instrumentos de trabalho e também com os povos originários da América. 

Esse mesmo processo continua ocorrendo em relação a campesinos e às periferias do mundo. Mais que negar acesso a direitos, trata-se de uma tentativa de apagamento, de negação de existências: aqueles e aquelas que não existem, não têm, obviamente, condições de reivindicar o que quer que seja.

Por isso, é importante afirmar: o direito à memória é um direito humano e defendê-lo é uma das tarefas da educação em direitos humanos!

A educação das sensibilidades: educar para o nunca mais e educar para o amanhã

Educar em direitos humanos é educar para o nunca mais e também para o amanhã. Pressupõe a denúncia de todas as mazelas que impedem o bem viver e que afrontam a dignidade humana – mas pressupõe também o anúncio do mundo que se quer construir. E nesse processo, seja como denúncia, seja como anúncio, a memória é fundamental.

Ao longo da nossa história, muitos são os momentos difíceis que precisam ser lembrados – para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça! Não é possível esquecer os horrores do nazifascismo, a escravidão moderna, a ditadura empresarial-militar no Brasil… Mas faz-se necessário também anunciar o novo e, para isso, a memória das lutas populares e dos movimentos de resistência diante das injustiças cumpre um papel fundamental.

A potência do cinema na educação em direitos humanos

A miséria é mar largo e para vencê-la vale qualquer esforço, nos diz o Mestre Carpina de João Cabral de Melo Neto diante do retirante Severino que cogitava saltar da ponte da vida (no auto de natal Morte e Vida Severina).

A literatura, a música, a poesia, muitas vezes, tornam-se uma grande contribuição para a educação em direitos humanos. E o cinema, que reúne a poesia, a música, a imagem em movimento, representa uma potência nesse sentido.

Entre tantos exemplos da potência do cinema na defesa do direito à memória e da educação em direitos humanos, vale a pena citar o documentário Ouro de Tolo, do mineiro Richardson Pontone, disponível no Youtube.  

Gravado na Região dos Inconfidentes, em Minas Gerais, a obra retrata o cotidiano das comunidades e territórios afetados pela mineração. No documentário produzido em 2025 sobre o rompimento de barragens de mineradoras (Mariana, 2015; Brumadinho, 2019), o cineasta parte de três questões: o que é uma casa quando a casa desaparece? O que é memória quando o arquivo vira lama? Que Justiça é essa que passa a limpo sem limpar nada?

As entrevistas com quilombolas e pessoas retiradas de seus locais de moradia devido à servidão minerária são reveladoras dos impactos causados pela mineração. Impactos econômicos e ambientais, mas também subjetivos. Comunidades inteiras que tiveram seus modos de vida e de socialização destruídos. 

Mas há também relatos de resistência! Os encontros das mulheres quilombolas, fazendo do artesanato e do diálogo ferramentas para restaurar a convivência e a socialização interrompidas pela destruição das comunidades… O jornal A Sirene, lido comunitariamente para homens e mulheres sem acesso à leitura e à escrita.

Ouro de Tolo, como o próprio autor diz, é cinema feito com os pés no chão! Uma obra que se coloca a serviço da luta das comunidades afetadas pela mineração, pelo direito à vida e à dignidade. Um filme que busca ouvir o que a lama tentou calar e projeta, nas telas, uma história que precisa ser contada para que não vire costume, para que não seja banalizada a destruição da vida por parte das mineradoras. 

Uma experiência que evidencia o potencial do audiovisual na defesa e promoção dos direitos humanos e, mais especificamente, do direito à memória.

José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG), coordenador da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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