Por José Heleno Ferreira
Dia 4 de outubro, brasileiros e brasileiras votaram para presidente, para os governos de seus respectivos estados e também para o legislativo: Senado, Câmara Federal e Assembleias Legislativas. Logo após os resultados da apuração, uma deputada federal reeleita em Santa Catarina desfilou pelas ruas da capital com um chicote nas mãos. À medida que caminhava, chicoteava o chão e era aplaudida pelo público que a acompanhava.
No Rio Grande do Norte, numa aglomeração de pessoas vestidas de verde e amarelo comemorando os resultados da votação para presidente no primeiro turno, via-se uma criança segurando uma arma de fogo enquanto dançava e era ovacionada pelos presentes.
Estas são apenas duas entre as diversas cenas dantescas que marcaram o primeiro domingo deste mês de outubro.
Como compreender os resultados eleitorais tão adversos para a maioria da população?
Os resultados que as urnas mostraram – seja para a presidência da República, para os governos estaduais, seja para o parlamento em seus vários níveis – são desoladores para aqueles e aquelas que defendem a igualdade, a justiça e os direitos humanos.
Como compreender o fato de que grande parcela da classe trabalhadora votou, por exemplo, em quem se opõe ao fim da escala 6×1? Que mulheres (e homens) tenham optado por reeleger parlamentares que buscaram impedir a aprovação de políticas públicas de combate ao feminicídio? Que pessoas pobres apoiaram candidaturas que têm suas trajetórias políticas marcadas por ações que contribuem para a manutenção e ou agravamento da desigualdade social?
Seguramente, não é razoável afirmar que a maioria do povo brasileiro apoia abertamente o fascismo, as milícias e a corrupção. Esse discurso, além de raso, além de não se ancorar em evidências que o confirmem, não contribui para que possamos compreender a realidade, menos ainda contribui para que possamos superá-la.
Como, então, compreender o fato de que grande parte das pessoas tenha apoiado candidaturas que vão contra seus próprios interesses
O culto à violência
As classes populares enfrentam, cotidianamente, uma série de dificuldades relacionadas à sobrevivência. Falta de moradia, transporte, segurança, alimentação e muitos outros problemas seculares que conduzem à desesperança e ao medo. Desesperança exatamente porque os problemas continuam ao longo das gerações. Medo porque há sempre a possibilidade da situação piorar. E a extrema direita tem conseguido captar e manipular esses sentimentos.
E o culto à violência é uma das formas utilizadas pela extrema direita para esta manipulação. Assim, uma mulher com o punho erguido, agitando um chicote, uma criança dançando com uma arma de fogo nas mãos são imagens emblemáticas que enaltecem o uso da força bruta e anunciam que somente através dela os problemas sociais poderão ser enfrentados.
Um discurso nefasto que manipula o sentimento de desesperança e medo de uma considerável parcela da população. E que, ao fazê-lo, garante o apoio àqueles e àquelas que são, em grande parte, responsáveis pelas situações que causam desesperança e medo.
Uma equação complexa. E que exige de nós, de todas as pessoas que defendem a dignidade humana, o combate cotidiano aos discursos e práticas de violência. E, para além disso, o compromisso com as organizações populares, com os processos coletivos que construam e sustentem utopias.
Afinal, são elas, as utopias, que nos impelem a caminhar!
José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG) e coordenador da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Minas Gerais. Email: [email protected]
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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.


