Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

Educar para a democracia: formar estudantes na esperança por meio da ação prática

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A pesquisa “Juventudes: um Desafio Pendente” mostra que 57% dos jovens têm baixa confiança nos partidos | Crédito: Wilson Dias/Agência Brasil

Esperança precisa de prática e ação, dentro e fora da escola

Por Carlos Eduardo Petronilho Boiago

Em uma sala de aula qualquer, um estudante levanta a mão e pergunta: para que serve votar, se os políticos são todos iguais? A pergunta pode soar como cansaço. Pode ser também o começo de uma conversa séria sobre democracia. Como a escola responde a ela?

Formar para a democracia não é tarefa de uma disciplina. É um modo de organizar a vida escolar inteira.

Pierre Bourdieu ajuda a entender por que isso é difícil. Para ele, a escola não é um espaço neutro. Ela transmite um capital cultural, feito de saberes, modos de falar e formas de se comportar. Muitos estudantes já recebem esse capital em casa. Outros não. Quem chega com ele se sente em casa. Quem não chega, sente que aquele lugar não foi feito para si.

Essa desigualdade quase nunca aparece como injustiça. Aparece como mérito ou fracasso individual. Bourdieu chamava isso de violência simbólica: uma forma de dominação que se apresenta como natural. Por isso passa despercebida, até mesmo para quem sofre com ela.

Freire chega, por outro caminho, a uma conclusão parecida. Para ele, a educação pode ser prática da liberdade ou instrumento de domesticação. Juntos, os dois autores nos lembram que a escola pode reproduzir a ordem existente ou ajudar a questioná-la.

A pesquisa “Juventudes: um Desafio Pendente”, da Fundação Friedrich Ebert, divulgada em novembro de 2025, mostra o tamanho do desafio. Segundo o levantamento, 66% dos jovens brasileiros entre 15 e 35 anos consideram a democracia a melhor forma de governo. Ao mesmo tempo, 49% acreditam que ela pode funcionar sem partidos. E 58% dizem que um líder forte resolve melhor os problemas do que partidos e instituições. 

Há apreço pela democracia, mas também cansaço. Quem ensina o jovem a diferenciar o desejo legítimo por ordem do desejo autoritário? Essa é uma tarefa da escola.

Os dados mostram ainda que 57% dos jovens têm baixa confiança nos partidos e que 60% se informam todos os dias, em grande parte, pelas redes sociais. Um estudante que aprende política pelo algoritmo precisa de ferramentas para checar fontes e reconhecer manipulações. Isso também é educação política.

Muitos professores ouvem, no corredor, que direitos humanos são coisa de bandido. Ouvem comentários sobre o aluno negro que tem cara de suspeito. Ouvem, ainda, que a menina precisa aprender a se calar. Quando a escola deixa essas frases passar sem resposta, ensina algo sem dizer nada: que algumas vidas valem menos.

A democracia, portanto, não se aprende apenas decorando artigos. Aprende-se vivendo. Aprende-se no grêmio que de fato decide alguma coisa, na assembleia de turma que escuta, no conselho escolar que reúne famílias e funcionários. Aprende-se quando um conflito é resolvido pelo diálogo, e não pela punição rápida.

O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, lançado em sua versão final em 2006, parte dessa mesma ideia. Educar em direitos humanos é formar para a dignidade, a igualdade e a justiça no cotidiano. Isso inclui reconhecer quando um direito é violado, inclusive dentro da própria escola.

Que tipo de escola estamos construindo, se o estudante não participa de nenhuma decisão sobre a própria vida lá dentro? Como esperar que ele valorize a participação democrática do lado de fora?

Para Freire, ninguém se liberta sozinho. A aprendizagem acontece em diálogo. Por isso a escola precisa de tempo para o debate, de formação continuada para professores e de enfrentamento à desinformação. Precisa, sobretudo, de condições dignas de trabalho. Não é justo cobrar do docente uma cidadania democrática em escolas que não dialogam com a comunidade.

O Ministério da Educação anunciou recentemente o Programa Educação para a Cidadania e a Sustentabilidade, que pretende alcançar milhões de estudantes da educação básica. Iniciativas assim só cumprem seu papel se vierem acompanhadas de formação, materiais e escuta das escolas. Sem isso, tornam-se mais um item de cartilha.

Voltemos à pergunta do estudante. Votar serve para escolher representantes. Mas serve, sobretudo, para lembrar que ninguém decide sozinho sobre a vida coletiva. Serve para afirmar que a dignidade de cada pessoa não se negocia. E serve para acreditar que é possível fazer diferente.

Freire dizia que a esperança precisa de prática. Formar para a democracia e para os direitos humanos é transformar essa esperança em ação, dentro e fora da escola. Que nossos estudantes saiam não apenas sabendo o que é democracia, mas capazes de vivê-la.

Fica uma pergunta: que democracia estamos ensinando com o modo como organizamos a escola hoje?

Carlos Eduardo Petronilho Boiago é doutor em Educação (UFU), professor de Matemática (SEE), membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Seção Minas Gerais. Email: [email protected]

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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no Brasil de Fato.

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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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