Em dezembro de 1952, um menino de sete anos deixou Pernambuco. Luiz Inácio atravessou o Brasil durante 13 dias, com Dona Lindu e os irmãos, num caminhão pau-de-arara. Como tantos nordestinos, conheceu a pobreza e a migração em busca de uma vida melhor. Tornou-se trabalhador, torneiro mecânico, líder sindical e presidente da República.
Essa trajetória me recorda Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, mulher negra, pobre e catadora de papel, que conheceu a fome na própria carne: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”.
É com essa memória, mas também olhando para fatos e políticas públicas, que faço meu discernimento.
O governo Lula retomou e ampliou ações de combate à fome e à pobreza, como o Bolsa Família, a valorização do salário mínimo, o Minha Casa, Minha Vida, alimentação escolar e apoio à agricultura familiar. Em 2025, o Brasil alcançou 103 milhões de pessoas ocupadas, com taxa média de desemprego de 5,6%, a menor da série histórica iniciada em 2012.
Essas políticas, porém, não alcançam somente os mais pobres. A classe média também é beneficiada. Desde 2026, rendimentos mensais de até R$ 5 mil deixaram de ser tributados para o Imposto de Renda, além da redução progressiva da cobrança para rendimentos de até R$ 7.350. O Minha Casa, Minha Vida também passou a contemplar famílias com renda mensal de até R$ 13 mil, permitindo o financiamento de imóveis de até R$ 600 mil.
E há uma contradição que não pode passar despercebida: não dá para a classe média se preparar durante anos para concursos públicos, buscar estabilidade e remuneração no serviço público e, ao mesmo tempo, defender o Estado mínimo.
E não são apenas os beneficiários dos programas sociais que recebem apoio público. Agricultura empresarial, indústria, comércio e serviços também recebem crédito, financiamento e incentivos. O Plano Safra 2026/2027 programou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, enquanto o Pronaf prevê R$ 85,2 bilhões para operações da agricultura familiar. Isso demonstra que os incentivos do governo não são recebidos somente pelos beneficiários do Bolsa Família, mas também a classe empresarial — e em proporções muito maiores.
Em 2025, o PIB cresceu 2,3% e alcançou R$ 12,7 trilhões, com crescimento da agropecuária, indústria e serviços. Emprego e renda também movimentam comércio, serviços, cultura e consumo.
No Brasil, às vezes vivemos uma confusão na compreensão das classes sociais: parte da classe trabalhadora se imagina classe média, enquanto parte da classe média se imagina classe rica.
É importante lembrar que tanto a chamada classe trabalhadora quanto grande parte da classe média vivem do próprio trabalho, cada uma em seu nível de renda. Por isso, os ganhos salariais, a valorização do trabalho e as políticas de renda interessam não somente aos trabalhadores de menor renda: também alcançam e beneficiam a classe média que vive do seu trabalho.
Na saúde estão SUS, Mais Médicos e Farmácia Popular. Na educação, Pé-de-Meia, educação integral, alfabetização, institutos e universidades federais. Na cultura, Ministério da Cultura, Lei Paulo Gustavo, Política Nacional Aldir Blanc e Pontos de Cultura. Na segurança pública, há financiamento federal, integração pelo SUSP, inteligência e ações contra o crime organizado, contra o tráfico e a violência contra as mulheres.
Também é preciso desfazer fantasmas: o Brasil não se tornou comunista, a propriedade privada não foi abolida e as igrejas não foram fechadas. O país permanece uma economia capitalista — a meu ver, infelizmente ainda marcada pelo neoliberalismo, embora com forte compromisso com políticas sociais — e constitucionalmente é um Estado laico. E a laicidade não é inimiga da religião: ela garante liberdade de consciência e de crença para todas as religiões e também para quem não professa nenhuma.
Como cristão e padre católico, não confundo Igreja com partido. A fé transcende governos. Mas faço meu discernimento também à luz da Doutrina Social da Igreja: dignidade humana, bem comum, solidariedade, justiça social, dignidade do trabalho, opção preferencial pelos pobres e cuidado com a nossa Casa Comum.
O desafio é unir desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e sustentabilidade: comida para quem tem fome; emprego e direitos para o trabalhador; oportunidades para a classe média; condições para o agricultor produzir; indústria forte; comércio e serviços dinâmicos; investimentos e respeito à natureza.
Isso não elimina a necessária avaliação crítica. O governo Lula tem seus erros, suas contradições e seus paradoxos. Há promessas não cumpridas, políticas que precisam avançar e decisões que podem e devem ser criticadas. Governo não é objeto de devoção: deve ser fiscalizado e prestar contas à cidadania.
Volto, então, à criança que saiu de Pernambuco e à frase de Carolina Maria de Jesus. O Brasil ainda tem desigualdades a enfrentar, direitos a assegurar, democracia a preservar e uma Casa Comum a cuidar. E concluo com Bituca, Milton Nascimento, na canção dele e Fernando Brant, eternizada também na voz de Elis Regina: “Se muito vale o já feito, mais vale o que será.”


