Em um dos meus últimos artigos, citei Gonzaguinha: “Eu acredito é na rapaziada”. Retomo a canção pensando na juventude que saiu da Universidade Federal Fluminense (UFF) e encontrou eco nas ruas do Brasil, em defesa da democracia, contra o fascismo e a política ultraliberal que explora os pobres e destrói a natureza.
Acredito também na rapaziada de cabelos brancos, que foi votar apoiada numa bengala ou no braço de alguém. Há beleza nesse encontro: o jovem pensando na aposentadoria da avó; a avó, na universidade do neto.
A esperança das urnas precisa chegar à mesa, ao trabalho, à saúde, à educação, à moradia e à segurança pública. Precisa criar raízes na reforma agrária, na agricultura familiar e no cuidado com a Casa Comum. Justiça social e ambiental caminham juntas.
Esse cuidado exige órgãos ambientais fortalecidos e um Ministério dos Direitos Humanos robusto na promoção, proteção e reparação de direitos, especialmente de crianças e adolescentes, mulheres, pessoas LGBT, pessoas com deficiência e idosos.
Num Congresso marcado pela direita e pela extrema direita, o governo será pressionado para a centro-direita. O diálogo institucional e, principalmente, a participação e a pressão popular, sem descanso, serão decisivos para sustentar os compromissos das urnas. Os movimentos sociais terão papel fundamental.

Lula conhece a arte de negociar. Mas precisa descer do salto alto. Tão alto era o salto que acreditava vencer no 1º turno. Em que mundo vivia? Que colírio usava que não enxergava a realidade? A vitória pede humildade para ouvir quem apoiou e deseja que o governo acerte.
Passei quatro anos convidando-o aos memoriais de Dom Hélder Câmara e Frei Damião. Veio várias vezes ao Recife e nunca encontrou tempo. Estou dizendo isso hoje com franqueza. Dom Hélder tornou-se herói da Pátria e Lula não deu visibilidade a um reconhecimento de alcance internacional para Pernambuco e para a Igreja. Para mim, foi uma bobeira: comeu mosca.
Reconheço as qualidades e a sensibilidade social de Janja. Mas que fique claro como o sol do meio-dia no verão: sua atuação deve fortalecer o governo, sem encastelar o presidente nem dificultar o acesso a ele. Facilitar a escuta e construir entendimentos contribui para o êxito do governo. Ou seja, é para ajudar e não atrapalhar.
É preciso também cuidar da comunicação. Em alguns momentos, Lula parecia olhar as redes sociais com certa petulância, como se sua história bastasse para alcançar as novas gerações. É preciso escutar, conversar e aprender a linguagem de quem está ali. Para se balançar nessa rede, é necessário compreender seu ritmo, sem perder a autenticidade nem a profundidade do que se tem a dizer.
Reconheço os avanços que tivemos nos governos Lula 1, 2 e 3 e o que significaram para a vida do povo brasileiro. É com esse reconhecimento e com muita confiança no futuro que faço minhas as palavras de Milton Nascimento e Fernando Brant, na voz de Elis Regina: “Se muito vale o já feito, mais vale o que será”.


