No início da semana, um canal do YouTube chamado “Revelando” publicou uma reportagem de 30 minutos, apresentada pelo humorista Fabio Porchat, abordando os laços entre a Igreja Batista da Lagoinha e o Banco Master. Expondo uma rede de família, fé, dinheiro e poder. A reportagem tem um objetivo nítido: investigar o que une uma das maiores igrejas do país ao maior escândalo bancário da história recente.
Segundo o próprio perfil que publicou o conteúdo, “Revelando é uma série de reportagens especiais sobre histórias incômodas, explicadas de um jeito que nunca te contaram.” A proposta de produzir um conteúdo explicativo e direto é do programa Calma Urgente, em parceria com um coletivo de jornalistas e profissionais da comunicação, com apoio de distribuição do ICL, do Mídia Ninja e da 342 Artes.
Agora começa o “fogo no parquinho”. O vídeo, com tom informativo e humorístico, constrói uma linha de raciocínio cronológica, conectando diretamente políticos e autoridades, criminosos como o “sicário” Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, e a família Valadão. Não é um grande furo, mas o formato da reportagem, que mistura narração, comentários, vídeos e áudios da investigação, constrói talvez uma das peças mais bem elaboradas de disputa de imaginário no atual cenário da conjuntura brasileira.
O documentário parte do casamento que uniu membros da família Vorcaro e da família ligada à Igreja da Lagoinha, utilizando esse episódio como ponto de partida para explorar quase três décadas de relações entre o grupo empresarial e a instituição religiosa.
Mas a Lagoinha não é apenas uma igreja. Ela é basicamente um império que utiliza a fé e o discurso de prosperidade como mercadoria. Toda criança que nasceu em um lar evangélico (eu incluso) teve a experiência de ouvir os álbuns da banda Diante do Trono, cujos vocalistas eram André e Ana Paula Valadão, herdeiros do fundador da Igreja da Lagoinha.
O arco de ascensão e domínio do mercado gospel fonográfico se deu por volta dos anos 2000, mas o que estava oculto, agora já não está mais. Todo discurso de mérito, as mais de 600 filiais espalhadas pelo mundo, o luxo e até os espaços VIPs dentro das igrejas estão agora compilados e conectados com a fraude do Banco Master de forma coerente e nítida.
A relação de irmandade entre a Lagoinha dos Valadão e o Banco Master dos Vorcaro é o exemplo cabal da “ética protestante e do espírito do capitalismo”. Trocadilhos à parte, não há ética, assim como é impossível evocar algum espírito de quem rouba fundo de aposentadoria de servidor público.
Me lembro nitidamente de um trecho da música do grupo Diante do Trono, lançada em 2001, chamada “Preciso de Ti”. A letra diz:
“Por maiores que sejam as minhas necessidades
O que eu mais preciso é de Ti, Senhor
não são de carros
Ou de mansões
Muito dinheiro
Fama, não
Não é nada disso que eu preciso
Tanto vazio e solidão tenho vivido
Distante de Ti
Do que adianta
Ser conhecido
Ter uma saúde e uma beleza exterior
Ter vida cheia de aparências
Religiosidade e tradições
Me afastam tanto de Ti Senhor
Ó Deus
Pra que tanta mentira e falsidade
Mascaras no meu rosto me fazem morrer
Por dentro estou vazio
Fedendo como um sepulcro caiado
Vem mudar o meu interior
Arrancar a sujeira
O vazio, Senhor
Preenche a minha vida”
Corta para o pastor, empresário e operador financeiro de Vorcaro, Fabiano Zettel, atualmente preso e citado nas investigações da Polícia Federal (PF). Zettel tinha 50 milhões em relógios de luxo, isso só em relógios. Imagine a contradição de pregar o contrário do que se faz.
O estelionato da fé se mistura com o financiamento de políticos da extrema-direita, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a família Bolsonaro. Entre doações diretas feitas por Zettel a viagens de jatinho bancadas por Vorcaro, essa turma se encontrava no cercadinho VIP da Lagoinha em Orlando, nos Estados Unidos – o próprio Daniel tinha um programa de TV na emissora da Lagoinha, em que ele falava sobre os desafios de empreender no Brasil.
Tudo isso já era sabido, mas agora temos uma reportagem bem elaborada, com o objetivo de deixar explícito o tamanho da fraude e perguntar ao brasileiro médio: você vai mesmo confiar nessa gente?
Após a repercussão do episódio, o perfil oficial do projeto Revelando foi retirado do Instagram pela Meta. A justificativa inicial apresentada aos responsáveis foi apenas que o conteúdo “não seguia os padrões” da plataforma, sem indicação específica de qual regra teria sido violada. Poucas horas depois, diante da repercussão pública, a empresa restaurou a conta e informou que a remoção havia sido revertida após uma “revisão interna”, chegando a pedir desculpas pelo ocorrido.
Antes de ser retirado do ar, o teaser do episódio já havia chegado a 6 milhões de visualizações. O vídeo original chegou ao topo do ranking do YouTube e o caso de censura ainda gerou questionamentos públicos sobre transparência na moderação de conteúdo por grandes plataformas digitais.
Uma reportagem, um humorista e a produção bem-posicionada de quatro veículos independentes conseguiram o impossível: massificar uma mensagem complexa, com reflexão crítica e com uma das perguntas mais bem feitas para esse momento.
Os efeitos – em dois dias – já são sentidos. Está ampliado o debate público sobre as relações entre religião, finanças e política e, de quebra, a legitimidade da atuação das plataformas digitais está sendo questionada. A afinação temporal pode não mudar substancialmente a corrida eleitoral, mas com certeza nos dá um exemplo prático e efetivo de incidência política através da comunicação. Se você ainda não assistiu, então vá ver! Faz dois dias que o Brasil só fala disso.



