O Finapop nasceu em meio ao desmonte. Corria o ano de 2020, em pleno governo Jair Bolsonaro, quando as políticas públicas voltadas para a agricultura familiar sofriam uma asfixia profunda. Naquele momento, cooperativas e associações ligadas à reforma agrária viam-se diante de um abismo duplo: a barreira do crédito e a exclusão dos mercados institucionais.
A lição foi dura, mas pedagógica: sem escoamento, a produção sufoca. No campo, o suor de quem produz não caminha sozinho. Ele depende visceralmente de decisões políticas para abrir canais de financiamento, compras públicas e assistência técnica.
Diante desse cenário, nossa resposta foi articular a solidariedade financeira. Mobilizamos parceiros dispostos a oferecer capital paciente, a juros baixos, criando pontes onde o sistema bancário tradicional erguia muros. Foi assim que nasceu a Linha Capital Semente. No primeiro ano, aportamos 50 mil reais por projeto, a uma taxa de 4% ao ano, resgatando 20 organizações pelo país. Para a grande maioria, era o primeiro acesso ao crédito na vida. Longe de pretender substituir o Estado, aquela ação foi um torniquete para estancar uma urgência: sem recursos para sementes e insumos, o pequeno produtor sequer conseguiria iniciar a safra.
Essa engenharia financeira emergencial refletia o esvaziamento das estruturas oficiais. Embora o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) resistisse como uma boia de salvação para muitas famílias, o volume de recursos passava longe de cobrir a demanda real. Nas compras públicas, o cenário beirava o colapso. Entre 2020 e 2022, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) recebeu propostas de R$ 706 milhões para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mas a escassez orçamentária permitiu contratar míseros 43% desse montante. A asfixia foi tamanha que, no início de 2023, restavam apenas R$ 2,6 milhões em caixa na Conab para executar o programa em todo o Brasil.
A virada de chave a partir de 2023 foi, antes de tudo, institucional. A recriação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) devolveu à agricultura familiar e à reforma agrária o status de prioridade governamental. A Conab retomou o PAA e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) voltou ao seu papel de direito. Mais do que uma mudança de gestão, buscou-se a blindagem jurídica: em 2025, a Lei 15.223, sancionada pelo presidente Lula, transformou o Pronaf e o Plano Safra da Agricultura Familiar em políticas estáveis de Estado, protegendo-os de humores governamentais.
A reconstrução institucional materializou-se em números. Com o PAA reestruturado pela Lei 14.628/2023 e novos aportes, a Conab saltou para uma execução de R$ 716 milhões em 2023. No mesmo ritmo, os repasses federais do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) saíram de R$ 3,56 bilhões em 2022 para R$ 5,26 bilhões em 2023, alcançando a marca de R$ 5,5 bilhões em 2025. Ao reabrir as veias das compras públicas, o governo devolveu às cooperativas a previsibilidade necessária para planejar a terra.
Essa nova realidade redesenhou as demandas que batiam à porta do Finapop. Com a roda do mercado institucional voltando a girar, o foco das cooperativas migrou do socorro inicial para o crescimento. A urgência já não era o capital para começar, mas sim o capital de giro para estocar a produção, honrar contratos, comprar insumos em escala e remunerar o trabalhador em dia. Houve quem conseguisse acessar o Pronaf pela primeira vez. Os gargalos históricos, por óbvio, não sumiram por encanto. A burocracia do crédito convencional e as assimetrias regionais persistem, mas a retomada das políticas públicas reabriu portas que estavam lacradas.
O horizonte recente consolidou essa trajetória de expansão. O Pronaf saltou para R$ 78,2 bilhões na safra 2025/2026, com projeção de alcançar R$ 85,2 bilhões no ciclo 2026/2027. Já em 2026, o PNAE aplicou um reajuste médio de 14,35% nos valores per capita e operou uma mudança estrutural: elevou de 30% para 45% a cota mínima obrigatória de recursos federais destinados à compra direta da agricultura familiar. Esses anúncios não são meras planilhas; são a prova inequívoca de que escolhas políticas expandem ou encolhem as ferramentas de sobrevivência no campo.
É por isso que o debate eleitoral não é um tema alheio à mesa dos cidadãos. As urnas definem prioridades, desenham orçamentos e determinam a continuidade de projetos de vida. O impacto dessa escolha alcança diretamente centenas de milhares de famílias que dependem dessas diretrizes para produzir e existir.
Na disputa atual, esse abismo ideológico está registrado nos programas de governo depositados no Tribunal Superior Eleitoral. O plano de Flávio Bolsonaro orbita em torno do agronegócio de larga escala e de intervenções pontuais no campo, ignorando termos vitais como agricultura familiar, Pronaf, PAA ou PNAE. Em contrapartida, a plataforma de Lula reserva um eixo central para a segurança alimentar, propondo a expansão do Plano Safra da Agricultura Familiar, o fortalecimento de linhas de crédito agroecológicas, a perenização do PAA e o apoio técnico a estados e municípios para cumprir as metas da alimentação escolar.
A urgência climática adiciona gravidade a esse contraste. Secas prolongadas, enchentes devastadoras e anomalias térmicas castigam diretamente a produtividade e a renda rural. A agricultura familiar caminha na franja dessa vulnerabilidade, pois carece de colchão financeiro para absorver perdas catastróficas e custear a adaptação tecnológica. Quando o clima pune o campo, o reflexo é imediato nas cidades, manifestado no desabastecimento e na escalada dos preços dos alimentos.
Uma análise comparativa publicada pela Agência Brasil expõe a diferença de foco: o plano de Flávio Bolsonaro menciona a crise climática uma única vez, restringindo-a ao gerenciamento de eventos extremos por meio de obras hídricas e ações da Defesa Civil, sem estruturar uma agenda de resiliência para o pequeno produtor. Já no plano de Lula, o enfrentamento da emergência climática funciona como viga mestra das ações agrícolas, articulando mitigação e adaptação. Para quem depende do ciclo das chuvas para colher o sustento, essa prioridade é uma questão de sobrevivência.
A agenda de privatizações defendida pela campanha de Flávio Bolsonaro joga uma sombra de incerteza também sobre o Banco do Brasil. Sendo o BB a principal artéria de escoamento do Pronaf e o instrumento público essencial para a capilaridade do crédito rural, sua venda ou o enfraquecimento de sua função social colocariam sob risco de morte uma política que irriga cooperativas nos rincões mais isolados do país.
O FINAPOP provou sua capacidade de mobilizar recursos e desenhar soluções sob medida para a realidade do cooperativismo. Contudo, o capital privado, por mais paciente e engajado que seja, não tem o poder de substituir o Estado. Ele não garante compras públicas, não possui a escala de um subsídio nacional e não assegura direitos sociais. A nossa trajetória demonstra que a política macroeconômica molda o cotidiano da roça: quando o Estado funciona, o crédito potencializa quem produz e vende; quando ele recua, o campo fica isolado diante de riscos impossíveis de carregar sozinho.
Em última análise, o debate eleitoral sela o destino da segurança alimentar do país e a viabilidade econômica de quem vive da terra. O desmantelamento dos mecanismos de apoio estatal não penaliza apenas o agricultor que perde sua renda ou a cooperativa que vê seus contratos rompidos; ele deságua diretamente no bolso e no prato de quem vive nas cidades. Afinal, o voto que depositaremos no próximo domingo determinará o futuro que abastecerá a mesa dos brasileiros.
*Luis Costa é diretor-executivo do Finapop.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


