Por Cecília Laís* e Thiago Lima**
No século passado, o geógrafo brasileiro Milton Santos já denunciava que a globalização que supostamente criava uma “aldeia global” era a mesma que aprofundava sistemas de desigualdades e fraturas sociais. Em 2026, ano de centenário de Milton, o relatório anual produzido pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em conjunto com outras agências da Organização das Nações Unidas (ONU) para análise do Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no mundo (State of food security and Nutrition in the world), SOFI, na sigla em inglês, é uma demonstração clara do que o geógrafo denunciava por “globalização perversa”.
O tema central escolhido para o SOFI 2026, lançado em 21 de julho, é o custo para uma dieta saudável ao redor do mundo. E os números do relatório convergem para um já conhecido problema: as desigualdades estruturais do sistema. US$ 4,28 é a média global calculada pelo relatório como custo mínimo por pessoa por dia para arcar com uma dieta saudável. Isso equivale a cerca de R$ 21,75 ao câmbio de hoje. Baseado em um sofisticado sistema de métrica de preços ao redor do mundo e padronizado em dólar PPP (Purchase Power Parity, Paridade de Poder de Compra), o custo final de US$ 4,28 representa um aumento em relação ao ano de 2021 (US$ 3,44 ou R$ 17,50 ao câmbio de hoje), mas vem acompanhado também de boas notícias: o número de pessoas sem condições de comprar uma dieta saudável, bem como o número total de famintos ao redor do mundo, diminuiu.
Em 2021, 37,4% do mundo (2,97 bilhões de pessoas) não possuía condições de pagar o valor necessário para alimentar-se de maneira minimamente saudável; hoje, são estimados que 32,7% (2,69 bilhões) não possuem essa condição. Ao mesmo passo, a parcela de famintos no mundo mostrou uma queda contínua por cinco anos, demonstrando, inclusive, uma aceleração nesse progresso de 2024 para 2025, impulsionado por avanços na América Latina, Ásia e África.
No que diz respeito aos números da prevalência de subnutridos (pessoas sem acesso à energia alimentar suficiente para uma vida saudável e ativa – não confundir com dieta saudável), os resultados animam indicando uma queda global de 8,1% em 2024 para 7,8% em 2025, no entanto, ainda há um longo caminho pela frente. A África, mesmo com seus avanços, ainda desponta como região com maior número absoluto de subnutridos, totalizando 309,2 milhões de pessoas sob a denominação (20% da população). A região com maior avanço foi a América Latina e Caribe, que de 2020 para 2025 saiu de 6,1% para 4,8%, sendo a América do Sul a sub-região com maior e mais significativo progresso: o número de subnutridos diminuiu de um pico de 5,5% em 2020 para 3,5% em 2025, uma diferença de mais de 8 milhões de pessoas (23,5 milhões em 2020 para 15,4 milhões em 2025). Na Ásia o progresso também foi nítido, totalizando mais de 80 milhões que saíram da classificação de subnutridos desde 2021, quando a proporção chegava a 7,9% da população, hoje, totalizam 6%.
No entanto, os números não mentem e mostram ainda um claro e árduo desafio pela frente se quisermos atingir a meta de erradicar a fome até 2030 (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2 da ONU). A parcela mundial da população que enfrenta insegurança alimentar severa (ausência de alimento por um dia ou mais) é de 645 milhões de pessoas (7,8%), que, somada à parcela total que enfrenta insegurança alimentar moderada (incerteza de obtenção de alimento e/ou queda na quantidade e/ou qualidade de alimento) totaliza o assombroso e revoltante número de 2,1 bilhões de pessoas. Em outras palavras, 25,8% da população mundial, ou um a cada quatro seres humanos.
Ainda, o relatório detalha a segurança alimentar e nutricional ao redor do mundo dividindo as métricas por Ásia, África, América Latina e Caribe, Oceania e América do Norte e Europa. Do aproximadamente um terço da população mundial que não possui condição financeira suficiente para bancar uma dieta saudável, em nível de porcentagem, a mais alta ainda encontra-se no continente africano, onde a estimativa é de 66,6% de sua população – isto é, mais de 1 bilhão de pessoas – sem condições de ter acesso a uma alimentação saudável.
Na Ásia, a porcentagem é menor (28,9%), mas o número absoluto é maior, são 1 bilhão e 399 milhões de pessoas sem acesso. Na América Latina, são 153,6 milhões (24,6%), número alto, mas consideravelmente menor até mesmo que os níveis pré-pandemia da Covid-19; em 2017, esse mesmo índice atingia o número de 179 milhões de pessoas. Na Oceania, o índice atinge 2,3 milhões de pessoas (5%) e na América do Norte e Europa o número alcança 77,5 milhões, equivalente a 6,8% da população dessas duas regiões. Importante ressaltar também que o custo apontado pelo relatório como média global (de USD 4,28 por pessoa por dia) é um valor de referência, ou seja, desigualdades entre regiões e países podem ser mascaradas por esse número, seja exemplo o próprio caso da América Latina e Caribe, onde é estimado que o custo atinja USD 4,91 (R$25,01), maior taxa registrada dentre as regiões.
O principal vilão não está na produção, mas sim no meio do caminho
Outro ponto também importante é avaliar os fatores que compõem o cálculo desse custo. De forma breve, a FAO e o Banco Mundial são responsáveis por fazer essa estimativa, calculando com base nos preços dos itens alimentares e na paridade do poder de compra (PPC) os custos que cada determinada população possui com a compra de alimentos para uma dieta saudável. Merece atenção o que a FAO considera por dieta saudável: aquela que é balanceada; diversa; moderada e adequada (isto é, uma dieta que satisfaz sem exceder necessidades nutricionais e previne deficiências); e considera para o cálculo o custo da combinação de alimentos disponíveis localmente que atendem às necessidades mínimas energéticas e de nutrientes. Ou seja, por ser um índice geral de custo, não estão especificadas as necessidades nutricionais de grupos especiais, como crianças pequenas e mulheres grávidas, nem custos para preparo e consumo dos alimentos. É também necessário frisar que existem diferenças de preço nos alimentos considerados no cálculo entre uma região e outra. Exemplo disso são os alimentos de origem animal, que correspondem a 35% do custo calculado para a África, enquanto na América Latina, o mesmo item corresponde a 23%.
Talvez o elemento mais inovador para a discussão seja a estimativa de que até 40% do custo final do alimento é resultante do acumulado do processo intermediário, da logística e do atacado, sendo o fluxo operacional da cadeia de valor (após o alimento sair do campo) o que de fato encarece o alimento: 70% a 75% do que os consumidores pagam sai desse intermédio, na média global. Por isso, a necessidade de focar em soluções que intervenham de forma integrada nas cadeias, não apenas com medidas isoladas.
Apesar disso, o conjunto de políticas de proteção social e de agricultura implementadas pela Ásia e pela América do Sul é, de acordo com o relatório, responsável pela melhoria nos números da segurança alimentar e nutricional dessas regiões.
Anemia cresce entre mulheres
Os custos de uma alimentação saudável, embora centrais para a discussão sobre segurança alimentar, precisam vir acompanhados de outras importantes pautas para alimentar uma visão holística e completa do assunto e, portanto, traçar uma solução também completa. Uma das lentes que a FAO aplica no relatório é o recorte de gênero, e há muito não é segredo que mulheres, especialmente as que residem nas zonas rurais, passam mais fome do que homens. Esse cenário é especialmente mais forte na América Latina e Caribe: em 2025, 24,4% das mulheres da região passaram por insegurança alimentar severa ou moderada. Na população masculina, a porcentagem foi de 20,7%. A diferença mais discrepante é vista em nossa região, mas é factual em todas as demais, o que leva à necessidade de avaliar com mais cautela o recorte de gênero dentro de políticas de erradicação da fome, especialmente quando soma-se à equação o fato de mulheres gestarem e serem as cuidadoras primeiras de bebês e crianças da primeira infância.
Um dos índices que chama atenção no relatório é o de anemia entre mulheres entre os 15 e os 49 anos. Quase todas as regiões estão registrando um aumento da anemia por deficiência de ferro entre a população feminina e aumentando a discrepância entre os números projetados e os números alvo do Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 2. É preciso lembrar que a saúde das mulheres possui um peso maior no cálculo por estar diretamente atrelada à saúde daqueles em seus primeiros anos de vida. Dentre as Metas Globais que os países firmaram para atingir até 2030, 6 delas são dependentes do avanço na nutrição feminina e\ou materna: Redução no número de crianças (menores de 5 anos) com atraso no crescimento; redução na anemia em mulheres em idade reprodutiva; redução no baixo peso ao nascer; redução da desnutrição aguda em crianças com menos de 5 anos; redução do sobrepeso em crianças com menos de 5 anos e exclusivamente aleitamento materno para bebês de até seis meses. A relação dessas metas com o tópico não é à toa, visto que as metas se retroalimentam. A anemia em mulheres que gestam, assim como a não exclusividade de amamentação durante os seis primeiros meses de vida, são fatores decisivos para a saúde e desenvolvimento da criança, afetando desde o peso ao nascer do bebê até uma maior chance de ocasionamento de desnutrição infantil, atraso no crescimento e também sobrepeso.
Superar a fome, superar a desigualdade global
O caminho até um mundo globalizado de forma não perversa, como defendia Milton Santos, parece distante, mas não é impossível, e o relatório faz questão de frisar esse fato ao tratar das oportunidades e trilhas que devem ser buscadas para o aceleramento de transformações que nos aproximam do objetivo global de erradicação da fome. Dentre essas, destacamos aquelas que são, basicamente, políticas: aumento da oferta de alimentos ricos em nutrientes; fortalecimento de cadeias de valor e eficiência do mercado; integração de mercados; implementação direcionada de medidas de proteção social voltadas para a demanda; redirecionamento do apoio público e fortalecimento da coerência das políticas e da governança.
O relatório afirma que essas ações não apenas viriam a reduzir o custo de uma dieta saudável, mas também aprimorariam a segurança alimentar por reduzirem o custo, num geral, da alimentação, defendendo veementemente sistemas agroalimentares sustentáveis como chave para isso, mas também para outros fatores de um bem-viver coletivo, como resiliência climática e redução (no longo prazo) de impactos ambientais e de saúde. Para tanto, é necessário também o elemento da vontade dos que fazem e regem a política, elemento defendido pelo relatório, ainda que não nessas palavras, mas anterior e longamente defendido por aqueles que entendiam as raízes do problema da fom
*Cecília Laís é graduanda em relações internacionais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e membra do FomeRI
**Thiago Lima é professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e coordenador licenciado do FomeRI
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

