Em Brasília, a segunda amanheceu fria e chuvosa, como não se via há muito tempo. No domingo de eleições, o início da apuração surpreendeu todos aqueles que observaram as pesquisas nas últimas semanas e, sobretudo, a movimentação das ruas: uma diferença de quase 10% dos votos favoráveis ao candidato Flávio Bolsonaro em relação ao presidente Lula. Ao fim, a diferença diminuiu para aproximadamente 2%, com Bolsonaro na dianteira.
A surpresa inicial é legítima, mas também pode ser a salvação para aqueles que veem Lula como a alternativa civilizatória necessária para os próximos anos. Por quê?
- A eleição de segundo turno foi antecipada no primeiro. Os outros candidatos de direita desidrataram e parte dos votos viabilizou a vitória bolsonarista em primeiro turno;
- Acabou o período de eleições em que bastava apresentar o resultado de políticas públicas para eleger alguém. É fundamental conversar com o povo, olho no olho, apresentar um diálogo franco, do quão prejudicial a vida poderá ser em um governo de Flávio Bolsonaro. Isso não é tão difícil, visto que houve um desastroso governo Bolsonaro, não reeleito quatro anos atrás. É necessário chegar ao povo nas igrejas e nas redes sociais, mesmo sem dominarmos as big techs ou acessarmos boa parte dos templos neopentecostais. É um terreno de necessária incidência permanente e diálogo aprofundado para além do segundo turno;
- Vivemos uma ascensão da extrema-direita no mundo, rompendo com as amarras de um liberalismo que nunca entregou o que prometeu: bem-estar geral para todos e todas. Isso gera uma apatia no povo, que se absteve de votar. Dessa vez, batendo recorde no Brasil. A ruptura está em andamento, mas não no sentido de revolucionar as relações sociais de produção existentes, mas de restaurá-las junto com alguns costumes. É ruptura antissistêmica, mas não é “Revolução”, é “Restauração”. O contra-ataque deve vir, se não na mesma proporção, no mesmo tom de radicalização. A maioria das candidaturas de esquerda vitoriosas no Parlamento são mais combativas e, até certo ponto, pragmáticas e assertivas na luta político-ideológica.
A classe política tradicional, de direita ou esquerda, tem dificuldade de lidar com essa nova forma de se legitimar na política, mais radicalizada, porém mais verdadeira, saindo dos padrões convencionais e reinventando a política. Os caminhos vão desde um enfrentamento direto ao senso comum medroso na afirmação da reforma agrária, por exemplo, ou da bandeira do socialismo como alternativa, aos moldes do que propõem Elias Jabbour, Marina do MST e Jones Manoel. Até o extremo oposto disso, que representa a forma mais perversa possível de se fazer política, passando por cima de quaisquer convenções, mesmo que se valendo, por vezes, de xenofobia, perseguição institucional, destruição de políticas sociais, como fazem figuras como Lucas Pavanato, Julia Zanatta, dentre outros e outras do clã bolsonarista.
Isso passa um recado necessário de ser ouvido: figuras preparadas, com componente de racionalização apurado, e decência ético-profissional como Fernando Haddad, não são mais os quadros políticos que o tempo histórico pede. Parece loucura, mas não podemos negar a realidade. Essa quadra histórica requer outro tipo de enfrentamento institucional e ressignificação da política tradicional. Não por acaso, os quadros políticos que estão substituindo figuras preparadas como ele são Derrite (retirado da Rota por excesso de mortes), Alfredo Gaspar (vice de Flávio acusado de pedofilia), Carol de Toni (personagem risível na CPI do MST), Douglas Ruas, Carlos Bolsonaro, etc. Pessoas que desafiam e estrangulam o sistema, não para derrotá-lo, mas para domá-lo e restaurá-lo sem as concessões liberais.
O que isso significa, ser antissistema com propósito restaurador?
- Essa restauração perpassa pela aceitação da doação milionária de Donald Trump e pela interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, ao financiar projetos que contestam a atuação do STF, sem falar nas sanções e no tarifaço;
- Restaurar a impunidade do Banco Master do Vorcaro, como grande vitorioso nas eleições de 2026, visto que envolve todos do clã bolsonarista, de Flávio a Nikolas, nas relações econômicas para salvá-lo. O maior escândalo financeiro da história do Brasil (50 bilhões de reais) não será mais sinônimo de corrupção, mas parte dessa impunidade do jeitinho político brasileiro;
- O fortalecimento dos grupos de milícias nos territórios, que atuam para além das forças de segurança do Estado. Casos como o de Marielle Franco tenderão a ser a praxe na perseguição de lideranças;
- A naturalização do processo golpista no Brasil, em que fica nítido como a democracia representativa pode ser ignorada quando não acatar o comando construído pelos representantes com maior força política. Vale a lei do mais forte, não a lei, e muito menos a Constituição de 1988, que valerá só como mera folha de papel. O impeachment de ministros do STF será só a cereja do bolo;
- A ausência de projeto nítido do campo da extrema-direita dá as pistas de que a linha será de desconstrução de políticas sociais e não de construção de um projeto próprio. A palavra de ordem é restauração de privilégios para um nicho político totalitário e antiliberal.
O que fazer? Não existe uma resposta clara sobre essa pergunta, e um artigo não tem pretensão de respondê-la, mas trazer elementos para essa reflexão.
No curtíssimo prazo, as mobilizações de ruas recentes foram muito importantes e, talvez, tenham evitado uma derrota de Lula no primeiro turno, mas há uma necessidade de mudança de rota na ação política.
Falar das políticas públicas entregues é pouco. Um novo governo Lula terá que romper com laços apodrecidos da institucionalidade, que precisam ser recriados, vide uma reforma profunda do Sistema de Justiça. Se ele não fizer isso, o governo Flávio Bolsonaro fará esse rompimento em breve, e da pior forma possível.
No curto e médio prazo, a democracia deve ser radicalizada. Não há mais outra opção. Pode parecer absurdo, mas o horizonte do socialismo é irremediável enquanto projeto e deve ser reverberado como alternativa política não envergonhada. A perspectiva institucional já não mais nos pertence; só nos resta a “utopia concreta”. Ela poderá nos levar à vitória eleitoral no primeiro momento e de sobrevida de um projeto político civilizatório e capaz de acolher as necessidades de um mundo carente de projeto.
A racionalidade dos quadros qualificados da esquerda tradicional é boa, mas não basta. A paixão é necessária, mas requer frieza no cálculo. Com a devida vênia ao técnico Abel Ferreira pelo uso do título, eis a nossa encruzilhada, que deve apontar para um horizonte que retiramos da vista, mas continua presente no projeto de sociedade, em que a ruptura antissistema não pode ser mais para a Restauração; ela deve nos oferecer o caminho da Revolução. Para isso, ela deve começar pisando no chão da conjuntura e das contradições. Que assim seja com a bênção de Nossa Senhora!
É inédito um presidente que ficou em segundo lugar no primeiro turno vencer a eleição. Nunca aconteceu. Pois bem, só uma figura do tamanho de Lula tem condições de, mais uma vez, fazer e construir essa história no nosso país. A vida é um risco. A hora é essa. Essa não é a luta de uma eleição. É a luta de uma vida. Nós vamos vencer.
*Gladstone Leonel Júnior é Professor Adjunto da Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense. Doutor e pós-doutor em Direito pela Universidade de Brasília. Realizou o estágio doutoral na Facultat de Dret, Universitat de Valencia, Espanha. Membro da Secretaria Nacional do IPDMS – Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais. Leia outros textos.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


