O agronegócio brasileiro tem razões de sobra para se preocupar com os rumos da política econômica e industrial do país. A dependência de fertilizantes importados é uma delas. O país, que figura entre os maiores produtores agrícolas do mundo, precisa comprar no exterior a maior parte dos insumos que utiliza para produzir. É uma contradição antiga, que custa caro aos agricultores e deixa o abastecimento nacional sujeito ao dólar, às guerras e às decisões de governos estrangeiros.
Para os produtores do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul – potências agrícolas – o assunto deveria ocupar um lugar de destaque no debate eleitoral. Afinal, pouco adianta um candidato demonstrar simpatia pelo agronegócio se as políticas que pretende adotar podem aumentar os custos de produção e comprometer a competitividade da agricultura brasileira.
O governo de Jair Bolsonaro oferece um exemplo bastante concreto desse problema. Em janeiro de 2020, a Petrobras decidiu fechar a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR), em Araucária. A unidade chegou a responder pela produção de até 30% do mercado nacional de ureia e amônia, insumos fundamentais para a agricultura. Foram 396 empregados diretos demitidos, além dos impactos sobre centenas de terceirizados. O Brasil perdeu parte de sua capacidade de produção de fertilizantes.
A justificativa apresentada pela Petrobras era financeira. A fábrica acumulava prejuízos, não havia interessados em comprá-la e a companhia pretendia concentrar seus investimentos em negócios mais rentáveis. A conta parecia fazer sentido quando observada exclusivamente do ponto de vista da empresa. Mas o que representava uma economia para a Petrobras significava, para o país, abrir mão de uma estrutura industrial importante em um setor no qual já dependíamos excessivamente das importações.
Dois anos depois, em fevereiro de 2022, com a iminência da guerra entre Rússia e Ucrânia, Jair Bolsonaro precisou viajar à Rússia para tentar negociar garantias de fornecimento de fertilizantes ao Brasil. As tensões que antecederam a invasão da Ucrânia ameaçavam o comércio internacional desses produtos. O governo que havia fechado uma fábrica brasileira precisava recorrer ao presidente Vladimir Putin para tentar assegurar o abastecimento de nossas lavouras.
É claro que a Fafen, sozinha, não resolveria o problema. Mas certamente faria mais sentido preservar e ampliar a produção nacional do que reduzir nossa capacidade industrial para depois depender da boa vontade de fornecedores estrangeiros.
A política mudou no governo Lula. A Petrobras voltou a investir no setor e, em abril de 2026, a fábrica de Araucária retomou a produção de ureia. A unidade tem capacidade instalada para produzir 720 mil toneladas por ano. Outras fábricas também passaram por processos de recuperação. Ainda estamos longe de superar a dependência externa, mas o país voltou a investir em sua própria capacidade de abastecimento.
A mudança de orientação não ficou restrita à reabertura das fábricas. Em setembro de 2026, Lula sancionou a lei que criou o Programa de Desenvolvimento da Indústria de
Fertilizantes (Profert), com incentivos para ampliar a produção nacional. A medida enfrenta um problema antigo: o Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes que consome. Não se trata de defender a presença do Estado em toda atividade econômica, mas de reconhecer que um país com a importância agrícola do Brasil não pode tratar a produção de fertilizantes como um negócio qualquer, indiferente às necessidades de sua própria agricultura.
É diante desse histórico e sob essas premissas que as propostas de Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas. O candidato defende a retomada das privatizações, embora afirme que não pretende vender a Petrobras. Seu coordenador político, Rogério Marinho, já admitiu a possibilidade de avaliar a venda de ativos e participações de empresas estatais.
Convém lembrar que Jair Bolsonaro também não privatizou a Petrobras. Nem precisou. Bastou alterar a orientação da companhia para que a Fafen fosse fechada. A decisão foi tomada em nome da eficiência econômica, sem que seus efeitos sobre a dependência brasileira de fertilizantes recebessem o mesmo peso.
O agronegócio deveria cobrar de Flávio uma explicação sobre o destino das fábricas recuperadas nos últimos anos. Pretende manter os investimentos? Ampliar a produção nacional? Ou voltará a tratar essas unidades apenas como ativos que precisam demonstrar rentabilidade individual?
São questões mais relevantes para a vida dos agricultores do que boa parte das disputas ideológicas que dominam o debate político. O produtor que precisa comprar fertilizantes para plantar soja, milho, trigo ou arroz não paga suas contas com discursos. Paga com o resultado da safra, do qual precisa descontar custos que muitas vezes são determinados a milhares de quilômetros de sua propriedade.
A defesa da eficiência das empresas públicas é legítima. Mas eficiência não pode significar simplesmente transferir para os agricultores e para o restante da economia os custos de decisões que melhoram o balanço de uma estatal.
Em 2020, fechar a Fafen parecia um bom negócio para a Petrobras. Em 2022, o governo brasileiro buscava fertilizantes na Rússia. Em 2026, o país trabalha para recuperar a capacidade produtiva que havia abandonado. Há uma clara diferença entre o modo como Lula e os Bolsonaro lidam com a soberania da nossa produção de alimentos.
O debate sobre o futuro do agronegócio brasileiro precisa considerar o que os governos efetivamente fazem, não apenas o que seus representantes dizem em encontros com produtores rurais.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.



