História Pública & Narrativas Afro-Atlânticas

Coluna escrita por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e por colaboradores externos que lecionam e pesquisam sobre educação antirracista, relações raciais, classe e gênero.

‘Eu sou o sonho dos meus ancestrais’: um perfil em memória de Éfu Nyaki para o Julho das Pretas

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Ilustração de Éfu Nyaki no centro de um rio, com imagem do Monte Kilimanjaro ao fundo | Crédito: Luz Santos

Éfu conectava e segue conectando o amor profundo, a compaixão, a solidariedade e a harmonia

Por Luz Santos*

Um rio-vida chamada Éfu Nyaki. As águas desse rio-vida seguem sendo sentidas todas as vezes que sentimos a força da gargalhada da nossa querida Éfu, ao participar de uma prática terapêutica: uma roda de Constelação Familiar, formação em Experiência Somática, falando em público ou dançando uma das suas músicas preferidas. Um rio-vida de voz macia e firme, mas que rugia se necessário em meio ao silêncio da sabedoria.

Na força da vibração musical que canta e encanta, na elegância de seus vestidos e turbantes como um girassol, o rio-vida Éfu conectava e segue conectando o amor profundo, a compaixão, a solidariedade e a harmonia desde uma consciência de que os nossos ancestrais nos deram tudo o que podiam. Em seu leito, o rio-vida Éfu fez fluir as águas em prol do autoconhecimento de centenas de milhares de pessoas, e da elevação de autoestima de inúmeras mulheres e homens em situação de vulnerabilidade no Brasil e ao redor do mundo, fazendo a todos e todas que estiveram ao seu redor perceberem a importância de assumir a nossa parcela de responsabilidade pela felicidade e seguir para a vida, refazendo caminhos e ressignificando crenças limitantes.

No Julho das Pretas 2025, por ocasião de uma comunicação estratégica em prol da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, enquanto ação coletiva, fiz o convite à Éfu para escrever sobre o protagonismo de mulheres negras na Paraíba pela luta por direitos e políticas públicas, antes mesmo do intervalo de dez anos entre uma marcha e outra. O seu depoimento foi publicado no jornal A União, no dia 24 do mesmo mês. Eu nunca imaginaria que um ano depois, de forma repentina, o rio-vida Éfu daria vazão a uma das frases sistêmicas que ela usava com tanta intensidade: “Honre a morte com a vida!”.

Dentre as centenas de homenagens póstumas, na Afya – Centro Holístico da Mulher, ONG que a Éfu foi cofundadora, foi uníssono por dezenas de pessoas ao depositarem girassóis e flores amarelas, como o seu sorriso de gargalhadas largas vibravam (e continua vibrando) amor profundo, sabedoria e harmonia. Foi nessa vibração que dançamos para celebrar a vida e o legado de Éfu Nyaki.

Importa destacar que o Julho das Pretas trata-se de uma agenda conjunta de incidências políticas criada em 2013 pelo Instituto da Mulher Negra – Odara. A agenda soleniza o Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latina-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra celebrado em 25 de julho, conforme sancionado pela Lei Nº 12.987 de 2 de Julho de 2014, pela então presidenta Dilma Rousseff.

O rio-vida Éfu sabia e praticou a importância da luta por políticas públicas e direitos de diferentes formas. Uniu os saberes do seu povo – a aldeia de Nganjoni-Marangu, no sopé do Monte Kilimanjaro, Tanzânia, África, à valorização da experiência e sabedoria de todas as pessoas que chegaram à Afya, como o terapeuta holístico Israel Noberto que fala um pouco da sua história com o rio-vida Éfu Nyaki: “Eu a conheci em 2016 através da Constelação Familiar aqui no espaço Afya, onde hoje sou terapeuta e também colaborador. E quando conheci a história desse trabalho que ela vinha desenvolvendo com as mulheres da comunidade, me senti bastante inspirado e tocado […] por sua sabedoria e a sabedoria do seu povo. Isso me inspira bastante. Para mim isso foi um presente ter a sua pessoa, no tempo em que foi possível e da maneira que foi: intenso e profundo. Agradeço bastante a Éfu por ter contribuído com o Espaço Afya e com o mundo, com a sua sabedoria”. Israel relembra sorrindo: “Lembro que ela sempre partilhava em seu trabalho que metade do mundo são as mulheres e a outra metade, [são] os filhos delas”.

Hoje, o Centro Afya conta com cerca de 20 profissionais extraordinários de terapia holística e atende centenas de pessoas, inclusive da comunidade do Alto do Mateus, em João Pessoa. Aliás, uma prioridade nos atendimentos. A Afya teve em sua trajetória com o Rio-vida Éfu, a presença de uma professora internacional da Terapia Sistêmica de Constelação Familiar, uma pioneira global na cura de traumas e membro sênior docente Somatic Experiencing International, mas também de uma grande amiga que enquanto missionária fazia fluir águas de autoconhecimento no Nordeste do Brasil e pelo mundo. Assim, enquanto margeava continentes e países, o rio-vida fazia confluir sabedorias e experiências das pessoas de cada lugar. Foi uma mulher negra que decidiu se movimentar por estruturas globais, desembocando água semelhante a uma Grande Mãe, como diz a letra da canção ‘Eu e Água’ (interpretada por Maria Bethânia e composta por Caetano Veloso, 1988) que ela gostava, e me faz lembrar os amarelos Oxum da maioria dos seus vestidos:

A grande mãe me viu num quarto cheio d’água
Num enorme quarto lindo e cheio d’água
E eu nunca me afogava
O mar total e eu dentro do eterno ventre
E voz de meu pai, voz de muitas águas
Depois o rio passa
Eu e água, eu e água
Eu…

Dona Maria de Lourdes Souza da Silva conviveu com as águas desse rio-vida Éfu desde 1996, quando se conheceram no curso de Medicina Alternativa, no Jardim Veneza, comunidade São Francisco de Assis, Bairro das Indústrias, na capital paraibana. A convite da Éfu, Dona Maria de Lourdes chegou na Afya em 1998, inicialmente para tomar conta do espaço físico quando recentemente adquirido. Dona Lourdes lembra desses primeiros momentos sobre como aprendeu sobre a importância do cuidado: “Eu me lembro bem que eu fiz o treinamento de um mês […] em Petrolina (PE) para começar o trabalho. […] O primeiro desafio que ela fez comigo foi me entregar uma pessoa que estava desenganada pelos médicos e viajou para Tanzânia, que ela foi tirar três meses de férias. Eu falei pra ela: Éfu, como é que você vai me deixar uma pessoa desenganada do médico!? Ela riu. Ela tinha àquela risada dela e ela disse: quando eu chegar eu quero ela boa, com a graça de Deus. Se Deus permitir, assim vai ser. […] Quando ela chegou a Maria da Guia estava boa”.

Éfu Nyaki e Dona Maria de Lourdes, em frente à Afya, em 2002 | Crédito: Arquivo pessoal/Dona Maria de Lourdes da Silva

Em outro momento, Dona Maria de Lourdes descreve como a presença da comunidade do Alto do Mateus sempre foi prioridade para a Éfu: “Outro dia a gente tava lá no portão. Muitos carros, muita gente de fora. A rua do lado, de um lado e de outro, cheia. Ela disse: Dona Lourdes, cadê a comunidade? Eu disse: eu não sei, Éfu. Ela disse: a gente tem que dá um jeito. Vamos tentar [trazer a comunidade pra cá], que a comunidade tem que vir. Isso aqui é pra todo mundo, mas a comunidade participando pra mim, será um prazer. Logo no início, a gente tinha várias terapeutas que trabalhavam com a Bioenergética. Aí chegou um seminarista. Ele era de uma família pobre e tava doente. [Quando] ele chegou eu recebi ele. Uma [das terapeutas] fez a avaliação dele e ele precisa de muito coisa. Ele disse: eu não posso pagar de jeito nenhum. Mas a Éfu já tinha orientado a gente […]: ninguém deixa de atender ninguém aqui e ninguém deixa de fazer o tratamento porque não tem dinheiro. Então [no caso do seminarista] ela lembrou [disso] e disse: Dona Lourdes venha cá. Você e Maria da Guia, justamente essa que tinha ficado boa! Ele tá precisando de várias terapias, mas ele disse que não tem dinheiro. Como é que a gente vai fazer? Então eu disse: vamos fazer o trabalho. Vamos lembrar do que Éfu falou – Ninguém sai daqui sem tratamento porque não tem dinheiro! Oh, Luz, isso foi a solução pra comunidade. Ele fez o tratamento todinho e depois ele se ordenou. Aí depois, Deus mandou ele para o Alto do Mateus. [Tempos mais tarde], pedimos a uma senhora da comunidade, que era Dona Rosa pra falar com ele, pra ele incentivar a comunidade a participar da Afya. Isso no tempo da Via Sacra. De repente, ele falou com a comunidade para passar com a Via Sacra e dá uma parada em frente a Afya. E foi ali, com muita gente que tava participando, [o agora Padre] tava com o microfone e falou bem alto. Contou a história dele todinha e que ali era o lugar onde a pessoa recebia cura tanto da alma, quanto fisicamente. E foi assim que a comunidade começou a participar”.

Como a água que não espera um caminho pronto, mas faz o seu percurso, o rio-vida Éfu mentorou mulheres em situação de vulnerabilidade no lugar-caminho Afya para desenvolverem metodologias integrativas com inclusão de ervas medicinais, alimentação saudável, massoterapia, reflexologia, cuidados com a terra e com o corpo, e autogestão da própria Áfya.

A convivência com o rio-vida Éfu na formação de Constelação Familiar fazia (e ainda faz) transbordar o sentimento de acolhimento profundo, de uma mulher negra cuja gargalhada de sorriso alto foi (e continua sendo) marca de doação e entrega à sua tarefa como missionária da congregação das Irmãs Maryknoll de São Domingos. Eu, como ativista no Movimento de Mulheres Negras, só soube que ela era missionária próximo ao término da formação de constelação. Fui levada para o curso pela querida Tutu Carvalho!

Seus estudos confluíram com práticas políticas de mulheres negras na Paraíba. Práticas rememoradas como legado de “generosidade e partilha” do rio-vida Éfu, como diz Solange Rocha: “[Éfu é] uma mulher africana da Tanzânia que escolheu viver em João Pessoa (PB) e atuar em ações sociais, sempre junto às mulheres, urbanas e rurais/quilombolas. Mas, em razão da sua expertise no uso de terapias integrativas, atendia pessoas de diversas idades e também os homens. Sempre considerei Éfu uma pessoa iluminada, cuja presença irradiava uma boa energia nos espaços por onde ela passava. […] No dia da despedida coletiva, foi um momento de relembrar a minha convivência com Éfu, iniciada nos anos finais da década de 1990, quando me integrei a dupla formada por Éfu e Maria José/Mazé para a realização de trabalho conjunto na Comunidade Quilombola de Caiana dos Crioulos e também da formação do Grupo de Mulheres Negras na Paraíba, depois formalizado como Bamidelê, Organização de Mulheres Negras na Paraíba (2001-2021). No mesmo período Éfu iniciava a organização da Afya”.

Éfu Nyaki na Fundação da Bamidelê, em março de 2001 | Crédito: Arquivo pessoal/Antônio Baruty

A talentosa Euphasia “Éfu” Joseph Nyaki trouxe toda a sabedoria ancestral dos Caracóis do seu clã Nyaki. Nascida e criada aos pés do “Teto da África” também conhecido por Montanha da Grandeza – o Monte Kilimanjaro, na Tanzânia, o rio-vida Éfu estudou pedagogia para o ensino de ciências e matemática. Foi na época dos seus estudos como professora que o rio-vida Éfu conheceu a teoria de Paulo Freire, ficando fascinada pela teoria da Pedagogia do Oprimido, cujo sistema foi implantado em sua terra natal, conforme ela mesma relatou. Depois que passou a lecionar, ia às aldeias para “organizar grupos de mulheres e conversar sobre o direito à educação formal para todos e o lugar da mulher na sociedade patriarcal”. Ela também fez especialização em diversas áreas do trauma, incluindo memória, desenvolvimento, apego, sexualidade, vergonha, vício, trauma médico, trauma cirúrgico e síndromes, além de explorar a expertise na interseção entre trauma e espiritualidade e trauma geracional. E foi dessa forma que Éfu ecoou a força da medicina tradicional de seu clã familiar (Clã Nyaki) ao seu trabalho de cura de traumas por meio da Constelação Familiar e da Experiência Somática, tornando-se uma docente internacional.

Sua escolha em fixar residência na cidade de João Pessoa, no Nordeste brasileiro, teve como critério as condições de vulnerabilidade socioeconômicos que percebeu sobre as crianças brasileiras. Chegando aqui, seu trabalho tomou o caminho em prol das mulheres, muitas delas mães de crianças. Enquanto docente internacional e integrante da comunidade religiosa Irmãs Maryknoll, o rio-vida Éfu desaguou a sabedoria do clã Nyaki por meio de cursos e serviços em todo o Brasil e em países como:  Haiti, Uruguai, Bolívia, Peru, Egito, Índia, Filipinas, Hong Kong, Japão, China, Espanha, Estados Unidos e Coréia do Sul, seu último trabalho.

Das tantas e inúmeras sabedorias dos caracóis propagadas pelo rio-vida Éfu Nyaki, destaco como fiquei encantada ao saber de um projeto na Afya para que os filhos e filhas das terapeuras-mães pudessem estar juntos/as com as suas mamães, no ambiente de trabalho. Eu, filha de uma empregada doméstica que foi tentar a sorte no Sudeste do Brasil, sorri por àquelas crianças que teriam acesso às suas mães a um “passo de um choro”, sem tempo de sentirem saudade ou trauma da ausência. Quanta delicadeza e cuidado desde a cosmopercepção no leito do curso do rio-vida Éfu!

Minhas lágrimas jorraram em abundância como uma pororoca. Mas quando lembro e te sinto, minha tão querida Éfu, meu rosto se ilumina com um sorriso encontrando as tuas gargalhadas engraçadas. Risos desde o Clã Nyaki que dentre os vários legados deixaram a obra Trauma Healing Using Family Constellation System Therapy and Somatic Experiencing (Cura de Traumas com Terapia do Sistema de Constelação Familiar e Experiência Somática) de sua autoria.

Como um bem coletivo, o rio-vida Éfu deixa centenas de afluentes entre seus alunos e alunas, Irmãs Maryknoll, amigos/as e terapeutas ao redor do mundo e na comunidade do Alto do Mateus, em João Pessoa, Brasil, que seguem desembocando em rios permanentes ao transbordar o amor em cada prática aprendida com a Grande Mestra Ancestral Éfu. Esse transbordar se transforma em equilíbrio entre o dar e receber, faz derramar dos pés do Kilimanjaro onde também estás, uma imensa “torre de água” em cada lugar do mundo em que o rio-vida Éfu levou os seus ensinamentos. Éfu dizia: “Eu sou o sonho dos meus Ancestrais”. Por isso, agora, todos e todas as afluentes do rio-vida Éfu são os sonhos da Mestra Ancestral.

Seguimos dançando contigo. E nessa dança entremundos você segue sendo maior do que era antes. Você está ainda melhor do que era ontem. Segues sendo filha do mistério e do silêncio. E o tempo já revelou quem você é!

Salve, Tereza de Benguela! Salve as Mulheres Negras! Éfu Nyaki, presente!

Gratidão, minha irmã!

Para saber mais

Disponibilizamos a playlist da Éfu Nyaki com autorização de Eliane Santos, da Afya. Acesse aqui.

Escola Internacional de Experiência Somática.

Na língua Swahilli da Tanzânia, África, Afya significa “Saúde”. Site da ONG.

Livro Curando Traumas – uma abordagem da Constelação Familiar Sistêmica e da Experiência Somática, baseado na sabedoria ancestral do clã do caracol, da Tanzânia’ traduzido em português e está disponível na sede da Afya. A obra também pode ser adquirida por este site.

*Luz Santos é uma das afluentes do rio-vida Éfu, na Constelação Familiar. Também é ativista no Movimento de Mulheres Negras e professora universitária.

**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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