História Pública & Narrativas Afro-Atlânticas

Coluna escrita por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e por colaboradores externos que lecionam e pesquisam sobre educação antirracista, relações raciais, classe e gênero.

Uma professora, muitas gerações!

Severina Madalena de Souza Gomes, a professora Madalena, em registro de sua trajetória de vida e dedicação à educação em Guarabira
Severina Madalena de Souza Gomes, a professora Madalena, em registro de sua trajetória de vida e dedicação à educação em Guarabira | Crédito: Acervo da família

Sua trajetória permite olhar para a história da educação de Guarabira a partir de uma personagem que não apenas participou dela, mas ajudou a construí-la.

Por Marcus Vinicius Gomes de Melo*

Em 27 de fevereiro de 1943, em Sapé, na Paraíba, nascia Severina Madalena de Souza Gomes, conhecida ao longo da vida como Dona Madalena ou professora Madalena. Sua história começa em uma família em que educação, trabalho e religiosidade faziam parte do cotidiano. Filha de uma professora da educação básica e catequista, e criada sob os cuidados de padrinhos profundamente devotos e prendados, Madalena cresceu no aprendizado.

Seu pai, Manoel Paulo de Souza, era marchante. Ainda jovem, ela acompanhava o pai às feiras aos finais de semana para ajudá-lo na venda de carne. Era uma responsabilidade que fazia parte da realidade familiar e que aproximou, desde cedo, trabalho e vida cotidiana. Antes dos livros e da universidade, vieram a feira, as obrigações familiares e a compreensão de que era preciso participar para que a casa continuasse funcionando.

A trajetória de Madalena também precisa ser compreendida a partir de sua condição de mulher negra. Nascida em 1943, em um Brasil marcado por profundas desigualdades raciais e de gênero, ela percorreu sua vida em um período no qual o acesso da população negra à educação e a espaços de reconhecimento profissional permanecia atravessado por barreiras históricas. Sua história, portanto, não se resume à conquista individual de uma formação: ela integra a trajetória de uma geração de mulheres negras que construiu possibilidades de estudo, trabalho e autonomia em meio a estruturas sociais que não distribuíam essas oportunidades de maneira igual.

Foi nesse contexto que a educação passou a ocupar um lugar cada vez mais importante em sua vida. Em 1963, aos 20 anos, casou-se em Sapé com Antônio Gomes, natural de Teixeira (PB) e funcionário do Departamento de Estradas de Rodagem. Vieram as responsabilidades familiares, duas filhas e, posteriormente, a adoção de uma criança com apenas oito dias de vida.

A família, contudo, não significou o abandono de seus estudos. Madalena chegou à Universidade Federal da Paraíba e formou-se em duas licenciaturas plenas: inglês e português. A universidade representava uma mudança importante em sua trajetória. A menina que acompanhava o pai na feira agora ocupava um espaço de formação superior e se preparava para exercer profissionalmente aquilo que já fazia parte de sua vida: ensinar.

Sua caminhada, entretanto, não foi linear. Aos 47 anos, perdeu o marido. A viuvez trouxe uma nova configuração para sua vida familiar e profissional, mas não interrompeu seu processo de formação. Madalena continuou estudando e concluiu sua formação e especialização em Inglês, em Campina Grande, além da especialização em Metodologia do Ensino Superior pela UFPB, também em Campina Grande.

Esse percurso ganha outra dimensão quando observado a partir da história das mulheres negras na educação brasileira. Não se trata apenas de registrar que uma professora fez duas graduações e posteriormente buscou especializações. Trata-se de reconhecer a permanência de uma mulher negra em espaços de formação e trabalho que, historicamente, foram marcados por desigualdades. Sua formação acadêmica tornou-se também uma forma de construir autonomia, reconhecimento e presença profissional.

Sua carreira começou no Colégio Estadual, em Sapé. Mais tarde, Madalena seguiu para Guarabira, cidade onde construiria parte significativa de sua trajetória profissional e de sua relação com a educação. Ali, passou a integrar a história educacional de uma cidade que, ao longo das décadas, viu gerações de estudantes passarem pelas instituições de ensino. Na UEPB, em Guarabira, exerceu a direção durante nove anos e dez meses. A função representava não apenas uma etapa de sua carreira, mas a ocupação de um espaço de responsabilidade institucional por uma mulher negra em uma época em que essa presença ainda estava longe de ser naturalizada.

Professora Madalena durante a cerimônia de sua nomeação como cidadão guarabirense | Crédito: Acervo da família

Ao longo dos anos, sua atuação ultrapassou a sala de aula. Professora, gestora, mãe e integrante ativa da comunidade, Madalena conciliou universidade, igreja e família sem abandonar as referências que haviam acompanhado sua formação. A educação não apareceu em sua vida como uma atividade isolada, mas como parte de uma trajetória construída entre diferentes responsabilidades e espaços sociais.

Em 2003, aposentou-se. Foi também o ano em que nasceu seu neto Marcus Vinicius. A aposentadoria, entretanto, não significou o desaparecimento de sua presença na vida pública. Ao contrário, sua atuação continuou por outros caminhos. Atualmente, Madalena é membro e presidente do Rotary Club de Guarabira, mantendo uma participação ativa na comunidade.

Sua presença também permanece na relação com antigos alunos. Décadas depois de ter deixado as salas de aula, ainda é reconhecida por pessoas que passaram por sua trajetória como professora. O encontro entre antigos estudantes e a professora que os acompanhou em outra fase da vida evidencia uma permanência que não depende mais de um cargo ou de uma sala de aula.

Madalena também mantém um cuidado particular com a casa onde vive em Guarabira, preservando características de sua identidade arquitetônica e histórica. A residência, assim como sua trajetória, carrega marcas de diferentes períodos de sua vida e da cidade com a qual construiu seus vínculos.

A história de Severina Madalena de Souza Gomes não está apenas nos cargos que ocupou, nos diplomas que conquistou ou nos anos dedicados à educação. Está também no caminho percorrido até cada uma dessas conquistas. Está na menina que acompanhava o pai à feira, na jovem que constituiu uma família, na estudante que chegou à universidade, na mulher negra que construiu autoridade profissional em espaços educacionais, na professora que atravessou gerações e na gestora que assumiu responsabilidades institucionais.

Sua trajetória permite olhar para a história da educação de Guarabira a partir de uma personagem que não apenas participou dela, mas ajudou a construí-la. E, ao contar a história de uma mulher negra que fez da educação parte de sua própria existência, também se registra uma parcela da história de tantas outras mulheres que encontraram no conhecimento, no trabalho e na permanência em seus espaços uma maneira de construir seus próprios caminhos.

Entre a feira e o giz, entre Sapé e Guarabira, entre a família, a universidade e a comunidade, Madalena construiu uma trajetória que continua sendo reconhecida por aqueles que, de alguma forma, passaram por sua sala de aula ou compartilharam com ela parte desse caminho.

Para saber mais

CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.

hooks, bell. Intelectuais negras. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 3, n. 2, p. 464–478, 1995.

RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

*Estudante de licenciatura em ciências biológicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e integrante do Projeto Prolicen, coordenado pela Prof.ª Ana Cristina Silva Daxenberger. Desenvolve atividades voltadas à formação docente, à educação das relações étnico-raciais e à valorização dos saberes ancestrais no ensino de Ciências e Biologia, com interesse nas áreas de Educação e Ecologia.

**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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