Por Jeff Xiong*
Em 19 de outubro de 2026, o Departamento de Segurança Interna dos EUA ordenou que as agências civis federais removessem o DeepSeek de seus sistemas, indo além dos próprios produtos da empresa: tudo o que tiver sido construído com sua tecnologia também deve ser eliminado. O critério é a origem da tecnologia, e vale para todas as agências civis do governo federal.
Vinte e quatro horas depois, em 20 de outubro, DeepSeek anunciou ter aberto integralmente o código do DeepInfer, o framework interno de inferência por trás da oferta de seus modelos de baixo custo, junto com o codec, componente de codificação que garante que uma instalação própria funcione igual ao serviço oficial. Assim, comunidades de todo o mundo podem rodar o modelo de forma tão barata quanto a própria empresa. Profissionais do setor reagiram espantados, pois a empresa havia “dado de presente ao mundo, de graça, sua máquina de imprimir dinheiro”.
No mesmo dia, Chen Deli, pesquisador sênior da DeepSeek, escreveu no X: “Código aberto contra código fechado, luz contra trevas. Uma batalha decisiva entre dois futuros, dois destinos para a humanidade. Por quanto tempo quiserem lutar, nós lutaremos, até conquistarmos a vitória completa.” O South China Morning Post e a Bloomberg repercutiram a publicação. A frase tem mais de setenta anos: Mao Zedong a pronunciou em 7 de fevereiro de 1953, na sessão de encerramento da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, no terceiro ano da Guerra da Coreia, a guerra que o bloco imperialista levou até a fronteira da China socialista recém fundada, na tentativa de estrangulá-la.

Para ler corretamente a batalha atual, vamos olhar primeiro para as trevas. O plano sombrio está escrito nos próprios documentos dos monopolistas. Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI, afirmou que a superinteligência “é possível… em alguns milhares de dias”. A carta de princípios de sua empresa define a inteligência artificial geral como sistemas que “superam os humanos na maior parte do trabalho economicamente valioso”. Quem chegar primeiro será dono da inteligência avançada e, com ela, da direção da ciência e do conhecimento — e a mais ninguém será permitido chegar.
O conteúdo desse plano foi revelado pelo próprio Altman: sem infraestrutura suficiente, escreveu ele, a IA “será um recurso muito limitado, pelo qual se travarão guerras e que se tornará sobretudo uma ferramenta para os ricos”. Um produto de luxo para usuários, um armamento para Estados. Os dados são a outra metade do esquema: a vida social é extraída para treinar os modelos, e os modelos prontos são vendidos de volta às sociedades das quais foram tirados.
Os balanços mostram quanto custa o esquema. As contas auditadas da OpenAI de 2025, verificadas pelo Financial Times, registram US$ 13,07 bilhões de receita contra US$ 34 bilhões em custos e despesas, um prejuízo operacional de US$ 20,92 bilhões e um prejuízo líquido de US$ 38,53 bilhões, quase oito vezes o do ano anterior. Os responsáveis por essas contas reconhecem o que está acontecendo. “Estamos numa fase em que os investidores, como um todo, estão excessivamente empolgados com a IA? Minha opinião é que sim”, disse Altman sobre o mercado; Bezos, numa conferência de tecnologia em Turim, chamou isso de “uma espécie de bolha industrial”.
Prejuízos desse tamanho deixam de ser privados. O financiamento da IA migrou do fluxo de caixa operacional para o mercado da dívida, por meio da emissão de títulos, com cerca de US$ 3 trilhões em compromissos fora do balanço. Em maio de 2026 o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) alertou que uma correção brusca “poderia levar a perdas de crédito consideráveis”. Dirigentes do banco central dos EUA começaram a se perguntar se o ecossistema da IA é “grande demais para quebrar”. O índice P/L de Shiller, que mede se as ações estão caras em relação aos lucros, passou de 40 pela primeira vez desde o estouro da bolha das pontocom; o KOSPI, da Coreia do Sul, arrastado pela venda das ações de memória para IA, caiu 44% em quarenta dias. A onda de choque já atravessou fronteiras.
A exclusão se cristalizou em política. A lista de países atendidos pela OpenAI deixa de fora Cuba, Irã, a República Popular Democrática da Coreia, Síria e Rússia. O uso fora da lista, adverte a empresa, pode resultar em bloqueio de conta. A ordem que abriu este artigo é a mesma lógica levada à máquina do Estado: agências federais expurgando de seus sistemas um modelo e todos os produtos construídos com ele. O que esse projeto defende não é a segurança, mas o monopólio. Ele ataca um ecossistema que coloca ferramentas poderosas nas mãos de todo mundo.
Ainda assim, a luz já está rompendo as trevas, e seu avanço é de conhecimento público. Em janeiro de 2025, a DeepSeek publicou o R1, com seus pesos sob a licença MIT, livres para uso comercial, modificação e destilação. O aplicativo chegou ao primeiro lugar em 140 mercados em dezoito dias, e a Nvidia, no pânico que se seguiu, perdeu US$ 589 bilhões em valor de mercado num único pregão, a maior perda em um dia da história do mercado estadunidense. Pesos, diferentemente de serviços, podem ser copiados por qualquer pessoa no planeta.
Em 13 de agosto de 2026, a empresa abriu o código do DeepSeek Harness sob a licença MIT, um ambiente de execução de agentes construído sobre o lema “tudo é um plugin”: modelo, ferramentas, sessões, armazenamento, agendamento e interface são peças intercambiáveis. Em poucas horas, desenvolvedores deram 33 mil estrelas para o DeepSeek Harness no GitHub, 169 mil em uma semana. Em setembro, a empresa lançou seis componentes centrais para os chips Ascend, da Huawei, cada um equivalente a uma de suas ferramentas para Nvidia. Com apoio incondicional da Huawei, as duas empresas desenvolveram juntas um supernó de 128 chips. Assim, o chip de treinamento deixou de ser refém de um único fornecedor. Em outubro veio o DeepInfer, o sistema de produção por trás da oferta de baixo custo da empresa, que foi entregue por inteiro e é compatível tanto com Nvidia quanto com Ascend. A DeepSeek não está sozinha nessa história: Zhipu, Kimi e StepFun lançaram seus principais modelos com pesos abertos.
A adoção veio rápido. No OpenRouter, plataforma que agrega o tráfego de modelos de desenvolvedores do mundo todo, os modelos chineses responderam por 57% a 67% dos tokens na semana de 14 de setembro, frente a 6% a 13% em fevereiro, segundo os números da própria plataforma. Entre empresas dos 82 países que o OpenRouter classifica como Sul Global, a fatia é ainda maior: mais de dois terços dos tokens do Sul hoje rodam em modelos chineses. Essa tendência chega ao próprio Império. Um relatório da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China ao Congresso cita a estimativa de um sócio de fundo de capital de risco do Vale do Silício segundo a qual 80% das startups estadunidenses constroem seus produtos sobre modelos de base chineses. Até o Airbnb usa o Qwen, da Alibaba, nos chats de atendimento ao cliente.
A tecnologia é aberta, mas sua finalidade não fica entregue ao mercado: o Estado a orienta para o bem-estar do povo, e não para o lucro do capital. O Conselho de Estado da China, em suas Orientações de 2025 sobre a ação “IA+”, compromete o programa com “garantir que todo o povo partilhe das conquistas do desenvolvimento da inteligência artificial”, fixa metas de adoção de mais de 70% para terminais e agentes inteligentes até 2027 e de 90% até 2030, e acrescenta uma cláusula sobre ajudar os países do Sul Global a desenvolver capacidades e “superar o fosso global da inteligência”. A abertura é o meio; o compartilhamento é o fim declarado.
Esse espírito pode ser visto na realidade concreta. Em povoados do interior da China, vans-clínicas equipadas com diagnóstico assistido por IA percorrem mensalmente as estradas montanhosas até povoados sem médico residente. A consulta, do exame à receita, acontece dentro do veículo. Agricultores fazem cursos intensivos curtos de anotação de dados para treinamento de modelos e de uso de IA, e saem com certificados profissionais emitidos pelas autoridades do trabalho. Nos canteiros de obras, robôs assumiram as tarefas mais perigosas de soldagem e acabamento, e os trabalhadores que antes as executavam agora operam e treinam as máquinas.
Ao passo que a adoção da IA se espalha, a governança se afirma. Na China, nenhum serviço de IA generativa pode chegar legalmente ao público antes de passar por uma avaliação de segurança e ser registrado junto à Administração do Ciberespaço da China. Até 31 de agosto de 2026 o cadastro público reunia 1.112 serviços e 731 aplicações. O registro não é a única forma de fiscalização. Nas campanhas “Qinglang” contra o uso indevido da IA, os órgãos reguladores identificaram e tomaram medidas contra mais de 14 mil produtos de IA irregulares, como aplicativos, miniprogramas e agentes. Mais de seis milhões de itens de conteúdo ilegal foram removidos e, em abril, o órgão regulador citou publicamente o Jianying (versão chinesa do CapCut) por violações de rotulagem. A resposta da população aparece nas pesquisas: entre os 26 países pesquisados pela Ipsos, 83% dos entrevistados chineses dizem que os benefícios da IA superam os danos, contra 39% nos Estados Unidos. Os benefícios chegam até as pessoas e os riscos tem responsáveis identificados que respondem por eles.
Voltemos à frase de Chen Deli. Os combatentes não são dois países, mas duas formas de organizar a inteligência. Os pesos abertos dos modelos são decisivos para a decisão de que lado estará a maior parte do mundo: qualquer governo, cooperativa, escola ou empresa pode baixar os pesos, implantá-los em suas próprias máquinas e adaptá-los à sua própria língua e às suas próprias leis. A equipe do DeepSeek Harness diz o mesmo sem palavras de ordem: quer que mais empresas e organizações do mundo todo implantem seus modelos e lucrem com isso.
Esta coluna começou, há um ano, com uma pergunta feita por Tica Moreno: a inteligência artificial pode servir ao povo? Um ano depois, a meu ver, a pergunta começou a encontrar sua resposta: pesos, frameworks, chips e sistemas de inferência que qualquer um pode tomar para si, ganharam uma batalha e estão abertos a todos. Há mais de setenta anos, quando Mao Zedong disse “por quanto tempo quiserem lutar, nós lutaremos”, o “nós” era uma nação sob bloqueio. Hoje esse “nós” é maior do que o laboratório de Hangzhou que provocou a ordem dos Estados Unidos de eliminação de seu sistema: é cada movimento, cooperativa, escola e aldeia que se recusa a aceitar o cercamento da inteligência. Por quanto tempo quiserem lutar, nós lutaremos, até conquistarmos a vitória completa.
*Jeff Xiong é secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.


