Era a primeira reunião da coordenação pernambucana da campanha presidencial de Lula no 2º turno. Lideranças políticas de dez partidos debatiam o que poderia ser feito para uma virada inédita. Antes que começassem as falas, foi lida uma mensagem da campanha nacional com algumas orientações, entre elas a realização de dois grandes eventos de rua, em datas predeterminadas. Eu estava lá. Como ex-candidato a governador que fez campanha para Lula o tempo inteiro, representei o Psol junto com o nosso presidente Samuel Herculano.
Na primeira oportunidade, pedi a fala. Agradeci o convite, reafirmei meu compromisso, coloquei-me à disposição. Mas, sobre as mobilizações, não havia muito o que fazer. Elas já estavam marcadas. “Excelência, acho que nossa decisão é ir ou não ir, fortalecer ou não fortalecer. Independentemente de nós, os estudantes já marcaram uma manifestação na próxima semana. Na outra data, já tem o ato dos blocos de Carnaval em Olinda, que reúne mais de 100 agremiações”. Fomos, fortalecemos e participamos de alguns dos maiores atos de rua que nosso país já viu. Praticamente sem partidos à frente de nenhum deles.
E assim foi o 2º turno. Cada pessoa fez o seu (bença!) e garantiu uma virada histórica que manteve o Brasil no caminho de uma democracia mais forte e soberana. Uma campanha que deu certo depois que foi “tomada” das mãos de sua organização oficial e profissional. E foi lindo demais ver. Diferentemente de um 1º turno de campanha morna, institucionalizada e com pouquíssima participação popular, o que aconteceu depois vai ficar nos livros de história.
Não foi falta de organização: foi organização de outro tipo, feita de milhares de iniciativas que não precisaram esperar autorização de ninguém.
Não faltou a força digital, a partir de milhões de pessoas organizadas no Canal do Lula, que cumpriram tarefas, enlouqueceram os algoritmos e seus comparsas. Não faltaram mesinhas com bolo e café em lugares públicos, com gente carinhosa e boa de conversa topando o papo olho no olho e virando voto todos os dias. Não faltaram caminhadas nas periferias de várias cidades, convocadas e organizadas por lideranças locais e jovens que tomaram a tarefa nas próprias mãos e convenceram a vizinhança.
O interior bombou e eu vi com meus próprios olhos a cidade de Nazaré da Mata parar numa caminhada em que estudantes da universidade pública juntaram paredão de som e instrumentos de maracatu no mesmo chão.
A turma do audiovisual botou para quebrar e produziu vídeos inesquecíveis que circularam e seguem circulando. A galera da tecnologia criou ferramentas que ajudaram a mapear eleitores indecisos e ausentes no primeiro turno. Artistas artistaram, influenciadores influenciaram. Quem permaneceu em cima do muro ficou tão solitário que sente frio até agora.
O jornalismo independente meteu bronca. Desenterrou velhos esqueletos de Bolsonaro, das rachadinhas às denúncias de lavagem de dinheiro com chocolate, passando pela advocacia pro-bono para um assassino de criança. E descortinou outras broncas, com revelações e denúncias envolvendo Daniel Vorcaro, Willer Tomaz e até uma orgia em pleno lago Paranoá, supostamente paga por lobistas no auge da pandemia da Covid-19.
Na última semana, os fins de tarde ficaram marcados por bandeiras vermelhas em tudo quanto é esquina. Até materiais impressos de campanha, raros no primeiro turno, começaram a ser produzidos de forma frenética e descentralizada, se materializando em todos os cantos do país.
Não teve espaço para sommelier de manifestação nem para curador de militância. Cada pessoa fez o que pôde fazer, da forma que soube fazer, o tanto que conseguiu fazer.
A solidariedade não faltou em nenhum momento. Símbolo disso foi o que aconteceu no Recife, no dia da eleição, quando começou a circular nos grupos a notícia de que os ônibus estavam demorando muito no terminal da Macaxeira. Uma amiga que estava mergulhada no vira-voto imediatamente pegou a chave do possante e danou-se para lá. Chegando, encontrou dezenas de outros carros, de diversas pessoas que tinham recebido a mesma mensagem. Era gente disposta a ajudar os eleitores a chegar às urnas. E ninguém soltou a mão de ninguém.
Enquanto eu termino este texto, as redes sociais (que precisam ser reguladas!) bombam. São relatos de violência contra eleitores de esquerda, de desespero de quem acreditava numa vitória certa do fascismo. A esperada xenofobia contra o Nordeste vem acompanhada de sugestões de demissão em massa por parte de um empresariado frustrado e ignorante, além de suspeitas mal-intencionadas sobre a lisura de nossas eleições.
Já circulam notícias de que o candidato derrotado, investigado por um caminhão de tramoias e maracutaias, teria deixado o Brasil. No exterior, poderá se juntar a outros conspiradores e golpistas para jogar contra o país.
Enquanto boa parte de seus apoiadores mais fisiológicos tenta se descolar de sua podre imagem, é possível que alguns dodóis passem a se manifestar por uma intervenção estrangeira no país. Não duvidaria que as calçadas de embaixadas estadunidenses começassem a ver acampamentos de gente que reza para pneu.
Ainda que eu suponha que a leniência gringa para esse tipo de sem-vergonhice é menor do que a das nossas Forças Armadas, é possível que isso nos dê trabalho. Assim como certamente não serão anos fáceis diante de uma das piores legislaturas já eleitas no Congresso Nacional.
Ainda dá para comemorar e descansar. Só não dá para perder de vista a importância de se manter ativo na democracia. Separar meia horinha por dia para ver o que está acontecendo e se posicionar. Manter os grupos ativos na internet, pensar em se organizar num coletivo, num partido, tomar as rédeas da política e começar a construí-la de verdade. Esse, sim, seria um legado com um potencial danado de transformação. Otimista inveterado, eu celebro.


