Se as eleições de 2026 colherem os frutos do trabalho social, comunitário e político das mulheres e negras das maiorias urbanas, teremos um resultado favorável ao campo democrático. Nas eleições presidenciais de 2022, o voto das mulheres — com destaque expressivo para as mulheres negras — comportou-se como o principal fator de contenção ao projeto conservador, consolidando-se como o reduto decisivo que garantiu a vitória de Lula no segundo turno.
Os institutos de pesquisa e os mapeamentos pós-pleito demonstraram que o eleitorado feminino, sobretudo no Nordeste, nas periferias urbanas e nas faixas de menor renda, manifestou rejeição acentuada às propostas e à retórica da extrema-direita, convertendo pautas de proteção social, direitos civis e defesa da democracia em prioridades das urnas. Desse modo, o comportamento desse segmento em 2022 reafirmou a tendência histórica de que a base demográfica mais vulnerável às crises econômicas e sociais lidera o vetor de defesa da soberania popular e da reconstrução institucional do país.
Se em 2018 o travamento das forças progressistas operou por intermédio de desvios institucionais e lawfare judicial, no cenário de 2026 tem apostado na coerção externa direta, na contaminação do debate público via redes digitais, ingerência externa e novas ofensivas de ataque às instituições republicanas. Diante disso, o campo trabalhista tem demonstrado que sua vitória é a possibilidade de assegurar um futuro próximo viável para o Brasil.
É exatamente neste ponto que reside a grande janela estratégica para a reta final do pleito. Rompendo o imobilismo das pesquisas e engajando os milhões de abstencionistas e pessoas indecisas, a campanha democrática precisa operar uma virada no eixo da disputa. O presidente Lula tem conduzido pessoalmente a narrativa pública para definir a eleição, retirando setores decisivos do campo de rejeição à política para um claro referendo sobre a soberania nacional versus a subserviência neocolonial aos Estados Unidos.
Frente às pressões tarifárias, aos arroubos imperialistas externos contra as instituições brasileiras, ao jogo pesado das big techs e à jogatina das bets, posiciona-se a defesa intransigente da soberania — de apelo popular transversal —, respondendo afirmativamente onde a comunicação sobre os ganhos em políticas sociais e econômicas não foi suficiente para o eleitorado definir um voto trabalhista.
A máquina federal produziu trunfos programáticos de importante impacto redistributivo e popular, tais como: isenção do imposto de renda para faixas salariais até R$ 5 mil; incidência regulatória sobre os preços dos alimentos e o abrandamento do desemprego; incremento substantivo no valor e na capilaridade do Bolsa Família; amplificação do debate estrutural sobre o redimensionamento da jornada laboral (escala 6×1); e o investimento renovado em programas sociais.
Tais iniciativas recolocam os extratos empobrecidos no orçamento público, oferecendo novas bases para a confiança política. É o que comprova com clareza a recente pesquisa Quaest: o levantamento aponta o presidente Lula na liderança isolada da corrida presidencial com 39% das intenções de voto no primeiro turno (contra 34% de seu maior opositor), além de registrar um empate técnico dinâmico de 42% a 42% no segundo turno. Mais do que os números nominais, a sondagem revela que o saldo de aprovação do governo ganhou fôlego (subindo para 46%), impulsionado pela altíssima adesão popular a medidas de forte apelo social — como a regulação das bets (aprovada por 62%) e o reajuste do Bolsa Família (59%). O “gap de gênero” se amplia exatamente onde a vida real pulsa: entre as beneficiárias do programa e o eleitorado feminino, a repulsa ao retorno do retrocesso consolida o dique de contenção democrática.
Assegurar a vitória do presidente Lula e pavimentar a renovação altiva do Congresso Nacional pela presença feminina e negra é a tarefa intransigível do nosso tempo.
Nota pelo Futuro: Sobrevivemos aos abismos institucionais porque o pacto civilizatório brasileiro possui raízes profundas fincadas na coragem da gente trabalhadora. A democracia no Brasil não é concessão de gabinetes; ela é o fruto vivo da marcha obstinada das mulheres, das periferias e da classe trabalhadora que ousa, cotidianamente, sonhar e construir um futuro soberano, livre e popular. E deve avançar.
*Janira Sodré é coordenadora Executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB).
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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