Janira Sodré é coordenadora Executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB)

Brasil no centro da atenção política: a presença popular nas ruas se conecta com a tela 

Manifestação a favor de Lula reuniu milhares de participantes nesta terça-feira, 13 de outubro, na Esplanda
Manifestação a favor de Lula reuniu milhares de participantes no dia 13 de outubro, na Esplanda | Crédito: Camila Araujo/Brasil de Fato DF

O ambiente atual revela uma inflexão histórica: o campo progressista modificou a correlação de forças ao romper bolhas antes monopolizadas pela extrema direita

Com o Brasil no centro da disputa política na arena global, a ocupação do espaço público por jovens, estudantes e cidadãos comuns reacendeu o papel das ruas como o verdadeiro espaço de ação política. Estas manifestações surgem como uma resposta mobilizada de forma orgânica e popular em defesa do ambiente de diálogo livre, da soberania nacional e da justiça social, impondo um freio às investidas autoritárias. Ao resgatar a ação presencial e comunitária, a incidência direta nas praças e ruas refunda as bases do engajamento político ativo, conectando o calor da convivência cívica ao poder de transformação social. 

Essa reconquista das ruas ganha contornos ainda mais decisivos quando observada em perspectiva histórica. A transformação no uso das redes sociais e dos ecossistemas digitais pela direita global representa uma das maiores reconfigurações da comunicação política no século 21. Se no início dos anos 2010 a efervescência digital despontou como ferramenta libertária durante a Primavera Árabe, não tardou para que o campo conservador compreendesse a arquitetura algorítmica. A direita transicionou rapidamente da simples convocação de rua para uma engenharia baseada em microdirecionamento comportamental, guerras culturais, mensageria privada e uma sólida rede de influenciadores. 

Essa dinâmica teve seu divisor de águas em 2016, com o referendo do Brexit no Reino Unido e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. No Brasil, o ciclo eleitoral de 2018 consolidou a estratégia via WhatsApp — utilizado por mais de 120 milhões de brasileiros em um país em que 60% do eleitorado se informava pelas redes —, ambiente em que pesquisas acadêmicas revelaram que mais de 50% das imagens virais carregavam dados falsos. A partir de 2019, partidos europeus de extrema direita, como o Vox na Espanha e a AfD na Alemanha, aperfeiçoaram a linguagem em plataformas visuais como TikTok e Instagram.

Nas eleições de 2026 no Brasil, a direita atingiu a “plataformização da influência”, controlando mais de 75% dos perfis de maior alcance no Instagram. 

Contudo, o ambiente atual revela uma inflexão histórica: o campo progressista modificou a correlação de forças ao romper bolhas antes monopolizadas pela extrema direita. Diante da ingerência algorítmica de grandes corporações e do tensionamento institucional, a resposta da esquerda se deu pela articulação entre a guerrilha digital e a presença massiva nas ruas. O estopim foram mobilizações estudantis em polos como USP, PUC-SP e UFMG, reunindo dezenas de milhares de jovens em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, que votaram na liderança da jovem deputada Ana Elisa, de 21 anos, negra, oriunda de Divinópolis (MG), a mais jovem eleita ao parlamento no Brasil. A articulação desdobrou-se em atos na Avenida Paulista, em mais de 11 capitais e em cidades no exterior, como Berlim e Frankfurt, combinada a centenas de ações descentralizadas pelo interior que dispensaram a presença física do candidato. 

O diferencial dessa engrenagem foi a retroalimentação contínua: os registros dos atos nas ruas eram transformados em Reels e cortes de alto impacto, irrigando os algoritmos com alcance orgânico. Os dados confirmam essa virada: análises da agência Bites na reta final de outubro de 2026 apontaram que a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alcançou 110,7 milhões de interações nas principais redes em apenas 12 dias, contra 31,3 milhões da oposição. Além disso, no ecossistema progressista, a média de seguidores por perfil superou a do grupo adversário (25 mil contra 11,3 mil). Até em segurança pública — pauta historicamente conservadora —, o Instituto Democracia em Xeque registrou 5,99 milhões de interações para o ecossistema governista, contra 3,61 milhões da oposição. 

O aspecto determinante é que o fenômeno digital não se encerra na passividade das telas.

As redes e canais de mensageria deixaram de ser meros fóruns virtuais para se consolidarem como catalisadores da ação presencial. A defesa do pacto civilizacional, contra o projeto autoritário, armamentista e perverso da extrema direita, alimentado pelo interesse das big techs e conivência de um judiciário contaminado pela conexão com lideranças do escândalo do Banco Master, encontra-se em cenário aberto.

E apontam para a construção  da vitória do Brasil de Lula nas urnas. O que exigirá, continuamente, a sustentação vibrante da presença popular nas redes e ruas.

*Janira Sodré é coordenadora Executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB).

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


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Editado por: Clivia Mesquita

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