Alguns veículos jornalísticos, majoritariamente digitais e de alinhamento progressista, divulgaram o encontro entre o presidente Lula da Silva e o senador Hamilton Mourão — General de Exército na reserva — no dia 25 de agosto, em solenidade pelo Dia do Soldado, no Quartel-General do Exército, em Brasília. As cercanias daquele local foram ocupadas por reacionários, neofascistas, desocupados, milicianos e agentes infiltrados de Operações Especiais deste mesmo Exército Brasileiro entre novembro de 2022 e janeiro de 2023 para alimentar a intentona golpista de Bolsonaro.
A importância do encontro foi soterrada pela avalanche de informações e contrainformações alimentadas pelos vazamentos seletivos sobre as investigações do Caso Master, envolvendo Daniel Vorcaro, Bolsonaro e a luta política exposta no STF. As poucas matérias que trataram do tema afirmam que a rápida conversa abordou a declaração de apoio do senador ao projeto de lei dos minerais críticos, que já foi aprovado pela Câmara dos Deputados em maio e aguarda análise dos senadores. A proposta cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos. A iniciativa projeta um aumento da capacidade brasileira de proteção do país sobre recursos de caráter estratégico para a economia e a tecnologia nas próximas décadas.
De forma imediata, a cena chama a atenção menos pela postura de cooperação de um senador de oposição — que repercutiu mais entre os círculos de extrema direita do que em outros — e mais pela singularidade deste personagem. Trata-se de um General de Exército que, além de tudo, foi vice-presidente de Bolsonaro. Seria, afinal, a confirmação da existência do tão esperado caráter nacionalista das Forças Armadas brasileiras?
Essa pergunta é uma constante na análise sobre as relações políticas no interior das Forças Armadas. Encontraremos tanto hipóteses e argumentos para afirmá-la quanto para detratá-la. Na tradição “pecebista”, em especial a partir da marcante trajetória de Luís Carlos Prestes, sempre se afirmou a existência de setores progressistas e nacionalistas. Já outras tradições defendem que o que ocorre é uma relação mais pragmática e dependente da situação, com o crescimento de um sentido mais legalista ou o oposto. Contudo, majoritariamente, há o entendimento de que, de 1964 em diante, o processo de perseguição e repressão sobre militares progressistas e de esquerda reduziu o espaço para a organização de alas progressistas, em especial entre os oficiais de alto escalão.
Já no período democrático, ao menos até a ascensão do bolsonarismo, as movimentações dos diferentes setores dos oficiais superiores foram marcadas por um recuo defensivo. As Forças Armadas saíram malvistas do desastroso período da ditadura militar, entrando em uma fase de ocultação de posições — o que José Murilo de Carvalho chama de “o grande mudo”.
Contudo, eles nunca deixaram de “fazer política” e produzir ideologia — e, acrescento, uma ideologia reacionária. Dessa posição de ocultação adotada nas décadas de 1980 a 2000, as lideranças militares moveram-se no sentido de uma postura falante e declaratória a partir do processo de impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Com maior presença no cotidiano da sociedade e na dinâmica do Estado, os líderes militares deslocaram-se do silêncio e da subordinação pública à Constituição Federal para posições de interferência direta na política. Essa postura convergiu com os setores de extrema direita em movimentação no país, alimentando-os com o respaldo institucional e fático dos militares. O efeito foi reavivar o “espírito” do regime autoritário, do anticomunismo e da restauração da ordem e do passado, que são as bases do reacionarismo no Brasil.
Nesse período, multiplicaram-se as manifestações de oficiais-generais, notadamente do Exército, sobre a política e as relações com o governo. Muitos desses oficiais em postos de comando designados pela Presidência da República — como Eduardo Villas Bôas, Sergio Etchegoyen e Hamilton Mourão (sim, este mesmo Senador que agora aceitou conversar com o governo) — passaram a expressar projetos de poder de forte impacto autoritário e conservador, em convergência com a ascensão da direita reacionária no país. Para além de uma simples convergência, as posições novamente ativas da cúpula militar — defendendo a imagem da ditadura, aderindo a um programa econômico neoliberal de políticas pró-mercado, encampando o discurso lavajatista de combate à corrupção e confrontando abertamente a esquerda — legitimaram e fortaleceram a emergência da extrema direita reacionária.
Após o julgamento da Ação Penal 2668 — que condenou 29 réus, incluindo, pela primeira vez na história brasileira, um ex-presidente da República militar, oficiais-generais e agentes policiais — e a posse do governo Lula, houve um novo processo de recuo dos militares no que diz respeito às suas manifestações públicas. Por todos esses aspectos, podemos convergir com Maria Celina D’Araújo quando afirma que os militares defendem interesses da corporação, querem tratamento diferenciado nas políticas sociais e salariais e silêncio sobre o passado, e não um projeto de país.
É neste contexto de novo desgaste da imagem dos militares que podemos entender o movimento de Hamilton Mourão, dublê de general e senador. Ele age frente aos movimentos que o candidato bolsonarista faz em direção a um eventual Governo Trump e aos riscos que isto traz para os militares brasileiros, que poderiam ser reduzidos a uma guarda nacional para contenção de traficantes e de manifestações populares. A preocupação com a delimitação de uma linha de bloqueio para a intervenção pretendida por Trump tem dois sentidos: recuperar a imagem dos militares perante a sociedade brasileira e proteger o espaço de prestígio, inclusive salarial, das Forças Armadas.
Obviamente, Lula deve aproveitar este terreno de aproximação para aprovar o PL que trata da proteção das “terras raras” brasileiras, desde que, logicamente, saiba entender até onde vai esse apoio.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


