O Estado de S. Paulo publicou no dia 8 de outubro de 2018, antes do segundo turno das eleições presidenciais daquele ano, um editorial intitulado “Uma escolha muito difícil”. O texto é um modelo perfeito da desfaçatez. Para aderir ao candidato de extrema direita e reacionário, o Estadão, assim como outros conservadores de direita, criou uma insustentável equiparação entre os dois candidatos, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, para enfim chegar ao ponto de onde gostariam de ter partido e não sabiam como: apoiar o candidato que, transformado insensatamente em Presidente da República, anos depois jogou o Brasil na crise da covid-19, devolveu o país ao mapa da fome, fugiu com joias e tentou um golpe de Estado.
A crueza do reacionarismo não tardou a se demonstrar. Em um jantar com empresários e amigos em Miami, nos Estados Unidos, em março de 2019, Bolsonaro declarou: “Prezado Olavo de Carvalho, o Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos que desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa, para depois começar a fazer”. Bolsonaro tinha duas missões em mente: destruir políticas e direitos sociais para garantir recursos para os rentistas e empresários, e desconstituir valores que foram fundamentais para a construção da democracia e base para a força da esquerda e do progressismo no país. Destruir ambos os conteúdos, simultaneamente, consistiam em algo fundamental para o projeto da extrema direita em associação com seus fornecedores logísticos, os super-ricos.
O projeto do reacionarismo no mundo e no Brasil não se restringe, por evidente, a um programa econômico e a uma plataforma de assalto, quando no governo. Trata-se de uma luta pela cultura, pela visão de mundo e por valores. Trata-se do que Benjamin Teitelbaum chamou de “guerra pela eternidade”. Uma guerra cultural, onde a política se torna sua consequência. Isso explica tamanha resiliência da extrema direita brasileira. Fora do governo — após causar um genocídio por desídia durante a pandemia, gerar fome, envolver-se em corrupção e com o crime organizado, afundar-se em notícias falsas, ser rejeitada por metade da população e organizar uma tentativa de golpe de Estado —, ela ainda disputa cabeça-a-cabeça o voto dos brasileiros contra a candidatura vinculada à democracia, ao combate à fome e líder do campo pacifista e multilateralista nas relações internacionais. Uma candidatura que, por qualquer critério de avaliação, mostra-se muito mais virtuosa que a outra, para governar o país.
Novamente este embate — entre passado e futuro, entre democracia e autoritarismo, entre destruição e construção, entre barbárie e civilização — se apresenta para, de forma dramática, encaminhar as próximas décadas do Brasil e, por arrasto, da América Latina.
Se o Estadão teve que agredir o bom senso para apoiar Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad, chamando sua opção de “escolha difícil”, agora em 2026 a escolha entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro não é nada difícil, ao menos para aqueles que se colocam no campo do iluminismo, da igualdade e do mundo moderno. Bolsonaro representa as trevas, a negação do desenvolvimento e do processo civilizatório. Isso implica a extinção do Estado laico — única forma de garantir a liberdade religiosa —, a desdemocratização acelerada, a ampliação de barreiras para a luta por direitos e a implosão dos elementos soberanos, o que coloca em risco a existência da nação. Lula da Silva é o oposto disso tudo.
Nada difícil, portanto, senão escolhê-lo para construir mais tempo. Tempo que precisamos obter para acumular forças na batalha pelos ideais, a batalha pela manutenção das grandes conquistas civilizatórias da era dos superlativos, como proclamou Eric Hobsbawm. Era contraditória e incompleta e que, agora, se vê às voltas com a contrarrevolução do reacionarismo.
Uma escolha nada difícil, como se vê.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


