Após a reeleição de Lula da Silva, surgiu uma onda articulada de retaliação liderada por apoiadores do candidato de extrema direita, Flávio Bolsonaro. Esse movimento nas redes digitais e em aplicativos de mensagens incentiva demissões, boicotes a serviços e comércios, além de perseguição profissional contra eleitores que declararam apoio ao candidato do campo democrático. A engrenagem foi difundida por parlamentares extremistas e empresários com dificuldade de absorver a derrota.
O Ministério Público do Trabalho (MPT) passou a monitorar os discursos e ações, registrando um número inédito de denúncias de assédio eleitoral pós-votação. Em resposta, o governo federal estruturou canais de denúncia e anunciou restrições de crédito para empresas que praticarem o crime. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por meio de diversas subseções, emitiu notas de repúdio, alertando para a responsabilização civil e criminal dos envolvidos. Paralelamente, passaram a circular listas de boicote e exclusão do mercado contendo nomes e endereços de estabelecimentos de apoiadores do PT, bem como de profissionais autônomos, como médicos e advogados, que não deveriam mais ser contratados. Até mesmo a proposta de identificar, com uma estrela, estabelecimentos comerciais cujos donos apoiaram Lula da Silva ganhou a adesão de militantes.
Há relatos nas redes sobre assédios que atingem, inclusive, crianças e adolescentes em ambientes escolares. Depoimentos de pais, jornalistas e autoridades revelam a reprodução do discurso de ódio dos adultos no cotidiano infantojuvenil, configurando atos de violência emocional e moral. Termos como “petista nojento”, ameaças de morte direcionadas ao presidente eleito e a necessidade de transferências escolares para proteção contra hostilidades abundam na imprensa e nas plataformas digitais.
O governo brasileiro confirmou o acontecimento de 10 mortes violentas por motivação política ligadas somente no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. As informações foram divulgadas em coletiva de imprensa no dia 28 de outubro de 2026.
Ao todo foram 45 episódios de violência política, a grande maioria ocorrendo como reação à proclamação do resultado eleitoral que definiu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva contra Flávio Bolsonaro.
Esta situação expressa algo bem mais profundo e impactante do que um mero fenômeno circunstancial. Ameaças e boicotes são mecanismos recorrentes da extrema direita. As demissões, os assédios violentos e a estigmatização representam a face mais radicalizada dessa estratégia, utilizada também com fins de agitação e propaganda, cuja inspiração está assentada no nazi-fascismo.
A Noite dos Cristais, ocorrida entre 9 e 10 de novembro de 1938, foi uma ação violenta organizada pelos nazistas contra os judeus na Alemanha, na Áustria e na região dos Sudetos, na Checoslováquia. Aquela trágica noite marcou a escalada da violência física e da perseguição sistemática massiva ao povo judeu, sendo considerada o prelúdio do Holocausto. A expressão “Noite dos Cristais” refere-se às toneladas de vidro partido das vitrines das lojas que cobriram as ruas das cidades, além de mais de 267 sinagogas incendiadas e totalmente destruídas, cerca de 7.500 estabelecimentos saqueados e centenas de residências invadidas.
A extrema direita brasileira, a despeito da derrota político-eleitoral sofrida neste último dia 25 de outubro de 2026, vem aprofundando sua própria escalada, consolidando uma adesão progressiva ao caráter fascista e neofascista. Isso se manifesta na centralização do movimento na figura de um líder carismático inquestionável, cuja autoridade é colocada acima das instituições tradicionais.
Manifesta-se, também, na divisão permanente da sociedade entre cidadãos “de bem” (patriotas) e “inimigos da pátria” (esquerdistas, minorias ativistas ou instituições liberais), buscando desumanizar ou deslegitimar a oposição política para transformar o debate democrático em uma guerra existencial. Há, ainda, a apropriação de símbolos nacionais (como a bandeira nacional e a camisa da seleção brasileira) fundida a discursos de exaltação militar, ordem rígida, armamentismo e slogans que remetem a lemas de regimes autoritários do passado, como a tríade “Deus, Pátria, Família”.
Somam-se a isso os ataques sistemáticos às instituições democráticas, como o questionamento público e repetido da legitimidade do sistema eleitoral e do Poder Judiciário (especialmente o STF e o TSE), além de táticas fascistas de desestabilização institucional para a tomada do poder, a exemplo do 8 de janeiro de 2023. A perseguição atua como método permanente de terror, alimentada por campanhas focadas na existência de “inimigos internos” que supostamente estariam destruindo os valores morais da sociedade. Essa dinâmica se reflete na perseguição a professores (por meio de movimentos como o “Escola sem Partido“), artistas e intelectuais, bem como na hostilidade explícita contra os direitos de populações vulneráveis e minorias — agora reforçada por esta “noite dos cristais” reinventada pelo bolsonarismo.
A derrota nas urnas pode não significar o recuo do reacionarismo no Brasil, mas talvez leve à sua radicalização e reorientação. Ainda assistiremos a muitos episódios antes de concluirmos exatamente a extensão e a natureza desse processo. A ver.


