Jornal Bicicleta

Neste espaço, o jornalista Rogério Viduedo vai discutir o uso da bicicleta sob a perspectiva do trabalhador, da trabalhadora, pois é uma ferramenta de transformação social e de combate tanto das mudanças climáticas quanto de doenças do coração e diabetes. Cidades que incentivam o uso da bicicleta têm menores índices de poluição e as pessoas têm uma saúde melhor. No entanto, não se pode esquecer que um ciclista também é pedestre e usuário de transporte público, temas que também serão abordados aqui.

Pedalula: o comitê de ciclistas que peita o bolsonarismo nas ruas e nas redes

Fotografia de uma multidão de ciclistas trajados com roupas vermelhas e segurando bandeiras do PT e da campanha de Lula.
Ciclistas se reúnem para o Pedal da Democracia em São Paulo. | Crédito: Rogério Viduedo – 24/10/2026

Os pedalulas de todo o Brasil precisam manter a mobilização e continuar marcando encontros para discutir conjunturas e cenários.

Em abril de 2022, o companheiro George Queiroz me procurou com a seguinte proposta: “Vamos criar um grupo de ciclistas de esquerda para apoiar a eleição de Lula contra o Bozo?” Não pensei duas vezes e disse sim. E foi uma das decisões mais acertadas da minha vida, mesmo sabendo da exposição ao ódio a que seríamos submetidos. Surgiu então o Ciclo Comitê Popular de Luta Pedalula, e hoje fazemos parte da história da democracia brasileira, tendo sido inspirados pelo Pedal Lula Livre, criado em 2018 por petistas do Recife (PT) para se somar aos diversos comitês que surgiram como vozes contra a injustiça que levou o presidente Lula a ficar preso por 580 dias numa cela da Polícia Federal em Curitiba (PR).

No início, nosso comitê aqui de São Paulo era formado também por Adriana Marmo, Dani Louzada, Cira Malta, Renato Ribeiro, Ana Fediczko, Felipe Claros, Suzana Nogueira e Júlio César Pereira. Juntes, criamos as condições para nos organizarmos para as pedaladas, vestidos de vermelho e gritando “Lula Lá”. Começamos já em maio daquele 2022, quando ainda precisávamos usar máscaras e manter distanciamento social por causa da epidemia de Covid-19, que ainda não havia acabado.

O início foi tenso. A gente se reunia na Praça do Ciclista e partíamos para as pedaladas, empunhando bandeiras e vestindo camisetas vermelhas. No começo, sofremos represálias de grupos de extrema-direita, que produziram vídeos falsos para mostrar que não tínhamos força nos comparando às motociatas do Bozo. Nas ruas, eramos achincalhados por motoqueiros e motoristas que gritavam “ladrões”. Mas mantivemos uma frequência de encontros e a coisa foi ganhando corpo. Criamos um grupo de WhatsApp que lotou rapidamente e, com isso, fomos para as mídias sociais e chegamos ao fim do primeiro turno, atraindo integrantes de ciclistas progressistas de outros coletivos, como a parceira de primeira hora, a Monta Mona, gerida pelas compas Flora Sakata e Natália Nato.

Também tivemos apoio do diretório municipal do PT em São Paulo, que nos ajudou com divulgações na página e redes sociais, e não demorou para outros grupos de ciclistas de esquerda se somassem à causa em suas cidades. Com isso, no último dia de campanha do segundo turno, fizemos um Pedalula Nacional com a realização de bicicletadas em mais de 30 cidades. 

Vencida aquela eleição, mantivemos o comitê. Logo no começo de 2023, fomos para as ruas contra a anistia que se pedia para os golpistas do 8 de janeiro. E outros pedais foram realizados, com a participação de políticos como Eduardo Suplicy e Luna Zarattini. Com o tempo, o grupo inicial se dispersou, restando apenas George e eu nas articulações. Logo no ano seguinte, passamos a chamar novas pedaladas para a eleição à prefeitura. Apoiamos a chapa Boulos e Marta e demos nossa contribuição nos comícios e passeatas.

Incansável nas redes sociais, George manteve o perfil do Pedalula funcionando com postagens nos stories informando diariamente os feitos produzidos no governo do presidente Lula. A página no Instagram tinha 21 mil seguidores e ficou nesse número até que, neste ano, com a chegada das eleições novamente, ele atingiu históricos 50 mil e agora já ultrapassa os 63 mil seguidores. 

Mas não foi de uma hora para outra que se chegou nessa dimensão. Novamente, a gente começou a organizar as pedaladas antes de começar a campanha eleitoral. O início foi tímido, com 15, 20 ciclistas, não mais que isso. O povo achava que seria uma eleição fácil e estava desmobilizado, dormindo em berço esplêndido. A gente não. Sabíamos que não seria fácil. 

George começou a provocar os grupos de outros estados. Pelo menos cinco já estavam ativos. O de Recife, com as compas Tércia Lemos e Klaubão, o de Natal, liderado pelo incansável Russo, e o de Belém, com a querida Ruth Costa, e destaco a criação recente, dos núcleos do Pedalula do Rio de Janeiro e de Fortaleza, que se engajaram em atividades semanais rapidamente. Outros que estavam adormecidos retomaram. O de Curitiba, por exemplo, juntou-se com o MST do Paraná e produziu grandes manifestações durante a campanha. 

Ao mesmo tempo, pressentindo que os fascistas tinham reais chances de vitória, George começou a chamar os grupos de bicicleteiros progressistas para aumentarem a massa do Pedalula desde antes do primeiro turno. Somaram a Monta Mona, Pedal Fofo, Surubikers, Pedal Hidrográfico, BALC, Giro Preto, Bike Anjo, Vespas, Giro Sustentável, BZS, BZO, BZN e outros tantos que a gente agradece muito por assumirem para si essa responsabilidade conjunta pela democracia. Valeu gente jovem que pedala pela diversidade! 

No segundo turno, mais grupos de pedal procuraram a gente para somar e fizemos duas grandes bicicletadas com mais de 500 ciclistas até que, no sábado que precedeu a eleição, a vereadora Renata Falzoni (hoje no PSB), que sempre preferiu ficar na moita em relação a apoios ao Lula e Boulos nas eleições passadas para não melindrar seus eleitores bolsominions, resolveu aderir ao grupo, o que fortaleceu as condições para realizarmos a maior pedalada de esquerda da história das eleições brasileiras: o Pedal da Democracia. 

Ele aconteceu no sábado dia 24 de outubro e reuniu quase 1.500 pessoas. Saímos da Praça dos Arcos, ali onde já houve um bicicletário do Itaú e Tembici na esquina com a Avenida Angélica e Paulista, passamos por Doutor Arnaldo, Paulista, rua Pamplona, avenida Nove de Julho, Rua 25 de Março e terminamos no privatizado Vale do Anhangabaú. Dali, a maioria se dirigiu ao grande ato na avenida Paulista que atraiu uns 2 milhões de apoiadores do presidente Lula.  

A melhor pedalada, no entanto, foi a que aconteceu no último sábado: a Pedalada da Vitória. Estávamos em pouco mais de 100 ciclistas, sem a presença de políticos, personalidades ou coisa que o valha. E era de se esperar, uma vez que o feriado de Finados leva muita gente a deixar a cidade. Para mim foi o encontro mais legal, pois festejamos nas ruas com alegria e recebemos o apoio de quem passava pelo local. Deve ser muito legal ser turista e estar na Avenida Paulista quando a gente passa, o que faz aquela visita ser marcante, por ter a oportunidade de ver o povo de bicicleta em festa e tendo apoio de motoristas, motoqueiros e pedestres.

Só que a luta não acabou, companheiras e companheiros. O bolsonarismo perdeu a eleição, mas não perdeu a força, e a gente vai precisar continuar apoiando o governo Lula por mais quatro anos. Os pedalulas de todo o Brasil precisam manter a mobilização e continuar marcando encontros para discutir conjunturas e cenários e influenciar nas eleições municipais de 2028. Para nós que nos transportamos em bicicletas, elas são fundamentais para podermos ter algum espaço nas discussões sobre o futuro das cidades. É preciso dar um basta aos prefeitos bolsonaristas! Queremos ser ciclistas e não ter medo de sermos atropelados nas ruas de onde moramos.

*Rogério Viduedo é jornalista de São Paulo e integrante do Programa de Jornalismo de Segurança Viária da Organização Mundial da Saúde. Cobre as áreas de segurança viária e mobilidade sustentável desde 2016. Em 2018, criou o site Jornal Bicicleta para cobrar autoridades por soluções eficientes para o deslocamento da população. Recebeu o Prêmio Abraciclo em 2021 com a reportagem “Cultura da bicicleta se aprende na escola”.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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