Larissa Melo é doutora em Ciência Política e pesquisadora com foco em políticas públicas. Professora, militante feminista e dirigente sindical.

Doutora em Ciência Política e pesquisadora com foco em políticas públicas. Professora, militante feminista e dirigente sindical.

Os servos da nuvem e o feudo algorítmico da Meta nas eleições brasileiras de 2026

O deputado federal André Janones (Rede) e o presidente Lula (PT) conseguiram multiplicar engajamento nas redes, apesar de tratamento desigual reconhecido pela Meta
O deputado federal André Janones (Rede) e o presidente Lula (PT) conseguiram multiplicar engajamento nas redes, apesar de tratamento desigual reconhecido pela Meta | Crédito: Redes sociais do deputado André Janones

Após o dia 25, temos que enfrentar o problema que está evidente: não há soberania quando a infraestrutura de comunicação pertence a conglomerados estrangeiros

Nos anos 1980, quando a militância queria virar voto na reta final da eleição, pegava uma pilha de panfletos no sindicato, ia para a porta da fábrica ou para a fila do ônibus e conversava com o trabalhador. Se a polícia do regime militar não aparecesse para confiscar o material no meio do caminho, a mensagem chegava ao destinatário. Em 2026, o eleitor que tenta reeleger Lula percebeu que a porta da fábrica agora tem outro tipo de dono, cobra em dólar e, por uma dessas coincidências tecnológicas que só acontecem para um lado, essa porta vive fechando na cara da esquerda.

Para sobreviver na campanha deste segundo turno, os eleitores precisam cumprir o ritual completo exigido pela lógica algorítmica: curtir o vídeo nos primeiros segundos, deixar um comentário com mais de quatro palavras para provar que não é um robô, compartilhar no story, repostar e clicar para salvar a publicação. Há aqui os dois lados da moeda: ao mesmo tempo em que o militante faz o esforço de levar o debate público de forma democrática para as redes sociais, ele também é forçado, na prática, a trabalhar gratuitamente treinando uma rede neural no Vale do Silício.

No livro “Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo”, o economista Yanis Varoufakis oferece um ótimo enquadramento para essa tragédia que estamos vivenciando. A tese apresentada é a de que o capitalismo tradicional, baseado no lucro e nos mercados competitivos, foi assassinado pelo próprio sucesso do capital financeiro somado à ascensão das big techs. E, no lugar de um mercado livre, surgiram ‘feudos na nuvem’. Mark Zuckerberg e Elon Musk, nesse entendimento, são senhores feudais digitais que controlam o terreno onde a vida pública acontece e extraem uma renda da nossa atenção.

Ao passar o dia inteiro salvando e comentando postagens para tentar furar a bolha e fazer o vídeo de Lula, ou de conteúdos voltados para o campo da esquerda, chegar ao eleitor indeciso, o eleitor atua como o que Varoufakis chama de cloud serf, ou seja, um servo da nuvem. Na Idade Média, o servo trabalhava de graça na terra do senhor feudal para garantir sua sobrevivência; hoje, nós trabalhamos gratuitamente na plataforma para tentar fazer com que a mensagem capte a atenção do público, mas, ao mesmo tempo, isso também produz dados, engajamento e retenção de tela que valorizam as ações da Meta.

O problema é que o senhor feudal dono do Instagram e do WhatsApp pesou mais em um dos lados. Enquanto a campanha de Lula tinha restrições na sua conta de anúncios, deixando de entregar conteúdos pagos para cerca de 1,3 milhão de pessoas e chegando à bizarrice matemática de um vídeo oficial do presidente registrar mais curtidas do que visualizações, o perfil de Flávio Bolsonaro recebia recomendações automáticas de seguir nas duas plataformas. Só depois que ações foram levadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e documentos internos vieram à tona na imprensa é que a Meta admitiu “falhas técnicas” que, curiosamente, operaram em mão única.

Em uma das reportagens foi revelado que, no dia 14 de outubro, a inteligência artificial da plataforma, a Meta AI, bloqueava pedidos para gerar cartazes de campanha para Lula, mas gerava prontamente material para Flávio. A empresa desculpou-se, falou em “lacunas nas proteções” e em neutralidade. Foi preciso que o ministro Marco Aurélio Bellizze, acompanhado pela maioria do TSE, desse um ultimato de 24 horas sob pena de multa diária de R$ 500 mil para que a corporação se apressasse em repor os impulsionamentos engolidos pelo “erro”.

Enquanto o alcance de conteúdos espontâneos dos apoiadores de Lula e os anúncios pagos pela própria campanha esbarravam nos bloqueios da plataforma, a candidatura do PL usou o poder econômico para dominar o ambiente digital. Na última semana do 1º turno, Flávio despejou mais de R$ 6 milhões de uma só vez em impulsionamento, pagos diretamente à Meta para espalhar crises fabricadas e pânicos morais produzidos pela sua campanha. Quando o volume de dinheiro de um candidato se soma aos privilégios concedidos pelo próprio sistema, a competição eleitoral deixa de ser justa.

Para entender como isso deforma nossa frágil democracia, temos as contribuições dos pesquisadores Ricardo F. Mendonça, Fernando Filgueiras e Virgílio Almeida no livro “Política dos Algoritmos: instituições e as transformações da vida social”, em que apresentam um conceito fundamental para 2026: o “institucionalismo algorítmico”. A tese dos autores é a de que os algoritmos não são ferramentas neutras que organizam o que já existe, mas “instituições”.

Assim como leis eleitorais, partidos ou o Congresso, os sistemas algorítmicos estabelecem regras, distribuem incentivos, punem comportamentos e moldam a maneira como os cidadãos interagem e enxergam o mundo. Se uma plataforma decide o que é visível e o que é invisível, ela está desenhando as balizas institucionais do regime político.

Esse conceito também ajuda a explicar a disputa de votos nas redes por meio de curtidas, comentários e salvamentos. Ao impor suas regras de engajamento como única via de visibilidade, a instituição algorítmica condiciona a ação política. Discussões estruturais perdem espaço por precisarem de mais tempo de explicação e não se encaixarem na lógica dos vídeos curtos de três segundos. Para conseguir ter alcance suficiente e manter visibilidade nas redes sociais, comunicadores e militantes progressistas passaram a adaptar sua linguagem a cortes e à indignação instantânea, na tentativa de reter a atenção naquele conteúdo.

Além disso, mesmo quando uma pauta da vida real ganha força popular nas ruas e nas redes, o sistema de distribuição das plataformas atua para desviar o foco. Basta olhar para a mobilização pelo fim da escala 6×1. O tema cresceu tanto que obrigou Flávio Bolsonaro a mudar de posição na última hora e votar a favor da PEC, ainda que tentando embutir a proposta de pagamento por hora trabalhada, sob o falso argumento de que o trabalhador poderia optar por fazer mais horas para ganhar mais.

Deveríamos, então, nos perguntar: a quem interessaria que debates como esse saiam de cena? Ao favorecer o impulsionamento de determinados candidatos em detrimento de outros, a Meta protege aqueles que buscam esconder decisões impopulares capazes de impactar a vida do eleitor e o resultado das urnas.

Todo esse processo gera uma profunda transformação comportamental, na qual a cidadania ativa vai sendo substituída por um ativismo individual, ansioso e gamificado, onde o sujeito mede sua contribuição pela barra de visualizações do próprio celular. Nós interiorizamos as regras da máquina a tal ponto que passamos a culpar a nossa própria falta de engajamento quando, na verdade, o alcance das postagens estava sendo restringido pelas diretrizes comerciais e pelas travas técnicas da própria plataforma.

Nas semanas que antecedem o segundo turno, o esforço dos militantes e comunicadores progressistas para ocupar as redes sociais, engajar conteúdos e dialogar com os eleitores indecisos, mostra-se legítimo e indispensável para a defesa da democracia. Como o debate público hoje passa inevitavelmente por essas plataformas, combinar a mobilização digital e nas ruas tem sido o caminho para impedir que o bolsonarismo e seus milhões de reais em impulsionamento monopolizem a campanha eleitoral.

Passado o dia 25 de outubro, porém, precisaremos enfrentar o problema revelado pela campanha de 2026: o fato de que não existe soberania plena quando a infraestrutura da comunicação pertence a conglomerados estrangeiros que operam sem qualquer transparência e apenas pedem desculpas depois que o prejuízo eleitoral já foi causado.

Ou a democracia brasileira enquadra o tecnofeudalismo com regulação severa, transparência algorítmica e responsabilização das plataformas, ou continuaremos reduzidos a servos da nuvem, trabalhando gratuitamente para Zuckerberg enquanto esperamos que o algoritmo deixe nosso conteúdo aparecer (e talvez permanecer) no feed.

Editado por: Vinícius Sobreira

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