Poucos meses antes de os colombianos escolherem seu novo presidente, Donald Trump foi perguntado se consideraria realizar na Colômbia uma operação militar semelhante à que os Estados Unidos haviam acabado de executar contra a Venezuela. A resposta do presidente estadunidense foi curta: a ideia “soa bem”.
Quatro anos antes, Gustavo Petro havia se tornado o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia, uma vitória que representava uma importante mudança na relação do país com os EUA. Já que, durante décadas, o país esteve no centro da política regional com alinhamento automático da política externa colombiana aos Estados Unidos, se tornando extremamente dependente da assistência militar estadunidense.
O mandato foi marcado pela criação de montagens de imagens, por parte da oposição, em que Petro aparecia falsamente ao lado de Pablo Escobar, notícias falsas de que tomaria apartamentos e até de que sua filha adolescente teria morrido de overdose. Além disso, Petro enfrentou intenso bloqueio por parte do Congresso, sofrendo derrotas em seu plano de governo.
Ainda assim, a pobreza caiu de 31,8% em 2024 para 28% em 2025, o que significou cerca de 1,8 milhão de pessoas deixando a pobreza. O salário mínimo acumulou aumentos expressivos, enquanto o índice de Gini caiu, indicando redução da desigualdade. Mesmo enfrentando fortes resistências no Congresso, o governo conseguiu avançar em pautas trabalhistas e tributárias.
A direita, portanto, não enfrentava simplesmente um governo de esquerda em meio a uma crise social profunda ou marcado pela deterioração generalizada das condições de vida. Precisava disputar a interpretação sobre um governo que, apesar dos bloqueios políticos e das dificuldades enfrentadas ao longo do mandato, apresentava melhora em indicadores sociais importantes.
Narcotráfico e eleições
E foi justamente nesse contexto que uma das maiores chagas da história colombiana voltou ao centro da disputa: o narcotráfico. Mas, dessa vez, essa velha ferida seria explorada dentro de um ambiente político novo. A associação entre a esquerda, o Pacto Histórico e o tráfico de drogas passou a circular intensamente pelas redes sociais. Montagens, vídeos, acusações sem provas e pessoas diante de uma câmera alegando possuir informações que “a mídia não mostrava” ajudavam a construir uma narrativa que, pela repetição, adquire aparência de verdade.
A desigualdade daquela disputa, porém, não estava apenas no conteúdo produzido. Estava também na capacidade de fazer esse conteúdo chegar às pessoas. Nos últimos anos, a Meta modificou progressivamente as regras de comunicação em massa pelo WhatsApp, restringindo disparos e ampliando a cobrança sobre mensagens enviadas por empresas e organizações através de suas ferramentas profissionais. A partir de julho de 2025, a empresa passou a adotar um modelo de cobrança por mensagem entregue em determinadas categorias do WhatsApp Business Platform.
Na prática, alcançar grandes bases de contatos de maneira profissional passou a exigir uma estrutura financeira cada vez maior. Para uma campanha com poucos recursos, falar diretamente com centenas de milhares de pessoas pode se tornar caro; para grupos capazes de mobilizar grandes financiadores, empresas especializadas, influenciadores e estruturas digitais robustas, esse custo se torna parte do orçamento eleitoral.
Ao mesmo tempo, nas plataformas abertas da Meta, dinheiro comprava aquilo que o WhatsApp tornava mais difícil conseguir organicamente: alcance. Vídeos políticos produzidos por influenciadores e páginas de direita podiam ser impulsionados para públicos específicos, repetidos durante dias e apresentados entre conteúdos cotidianos de usuários que sequer acompanhavam oficialmente a campanha.
Essa diferença é fundamental. Uma publicação não viraliza necessariamente porque representa aquilo que a maioria da sociedade pensa. Ela pode aparecer milhares ou milhões de vezes porque alguém pagou para que aparecesse. E, quando a publicidade política se mistura à linguagem dos influenciadores, essa fronteira fica ainda menos evidente para quem recebe o conteúdo. Tudo isso potencializado por inteligência artificial.
Agressão imperialista
A inteligência artificial potencializou esse mecanismo ao tornar mais rápida, barata e sofisticada a produção de desinformação. Ferramentas de IA generativa passaram a ser utilizadas para criar imagens hiper-realistas de políticos de esquerda falando sobre a criação de um “estado ateu”, “corromper crianças”. Circularam também, conteúdos vozes produzidas artificialmente para dar aparência de autenticidade a acusações de que dirigentes do Pacto Histórico recebiam financiamento ilegal de organizações criminosas internacionais ou de governos estrangeiros.
Na rede social X, o próprio presidente estadunidense acusou Petro de envolvimento com o narcotráfico. A acusação vinda da Casa Branca oferecia uma espécie de chancela internacional para a mesma narrativa que circulava pelas redes colombianas. Não era mais apenas um influenciador ou uma página de direita associando a esquerda ao tráfico. O presidente dos Estados Unidos fazia a mesma associação contra o presidente colombiano.
Foi nesse ambiente que a campanha da direita elevou ainda mais o tom. Circularam cartazes e montagens em que Cepada pisava no pescoço de Abelardo De La Espriella, além de vídeos produzidos com inteligência artificial que exploravam a figura de tigres, símbolo incorporado à comunicação de Espriella, mastigando pessoas com símbolos e características de lideranças de esquerda.
A violência deixava de aparecer apenas como linguagem e passava a ser transformada em imagem, meme e entretenimento. Quanto mais chocante o conteúdo, maior sua capacidade de provocar comentários, compartilhamentos e indignação. Apesar de denúncias massivas nas plataformas, os conteúdos só foram retirados do ar após o segundo turno.
Essa ofensiva não acontecia isoladamente. Os Estados Unidos já vinham aumentando a pressão sobre o governo Petro. Trump chegou a anunciar tarifas de 25% contra produtos colombianos durante um confronto diplomático com Bogotá e, posteriormente, as medidas de pressão passaram a atingir diretamente Petro, pessoas próximas a ele e integrantes de seu governo.
O que a experiência colombiana revela é a combinação da velha e da nova tática de intervenção da Casa Branca na política larino americana: instrumentos tradicionais de coerção, tarifas, sanções, ameaças militares, pressões diplomáticas, começaram a operar ao lado de políticas de plataformas, big tecs e inteligência artificial.
Isso é especialmente relevante em um país no qual, no final de 2025, cerca de 41,7 milhões de pessoas utilizavam a internet e aproximadamente 37,7 milhões de identidades estavam presentes nas redes sociais, mais de 70% da população. O alcance publicitário estimado do Facebook chegava a 36,4 milhões de usuários, o YouTube alcançava cerca de 31 milhões e o Instagram, 21,6 milhões. O TikTok informava um alcance potencial de 37,7 milhões de usuários adultos.
A disputa política eleitoral colombiana, portanto, ocorreu em uma sociedade na qual as redes deixaram de ser uma dimensão periférica da comunicação e passaram a constituir um de seus principais espaços.
Essa é a primeira diferença importante entre a intervenção política clássica e aquilo que começa a se consolidar agora.
Cuba como ensaio
Essa transformação não nasceu no governo Trump. Os próprios Estados Unidos experimentaram muito antes o potencial das redes digitais como instrumento de política externa. O caso mais revelador talvez seja o ZunZuneo.
Em 2014, uma investigação da Associated Press revelou que a USAID havia financiado secretamente uma espécie de “Twitter cubano”. A rede, criada alguns anos antes, chegou a reunir cerca de 40 mil usuários em Cuba. Documentos obtidos pela investigação mostraram que o projeto pretendia inicialmente atrair jovens através de mensagens aparentemente banais e conteúdos de entretenimento. Depois de consolidar uma audiência suficientemente grande, a estratégia previa introduzir conteúdos políticos e estimular mobilizações contra o governo cubano. Para esconder a participação norte-americana, foram utilizadas empresas intermediárias, servidores em diferentes países e estruturas financeiras externas.
O mais importante no ZunZuneo não é a dimensão que a plataforma alcançou. É a lógica. O governo estadunidense compreendeu que uma rede aparentemente neutra podia primeiro construir confiança, depois organizar audiência e finalmente transformar essa audiência em capacidade de mobilização política.
Há mais de uma década, portanto, Washington já tratava de infraestrutura digital e política externa como partes de um mesmo problema. Nesse meio tempo, as próprias redes sociais se transformaram na infraestrutura dominante de comunicação política de grande parte do planeta. E aqui surge uma concentração de poder que costuma ser subestimada.
Facebook, Instagram e WhatsApp pertencem à Meta. O YouTube pertence ao Google. O X pertence a Elon Musk. As principais infraestruturas através das quais centenas de milhões de latino-americanos recebem informação política são controladas por um pequeno grupo de corporações. No caso de boa parte delas, são corporações com sedes nos Estados Unidos. As plataformas decidem quais mecanismos determinarão a circulação da informação. Seus sistemas de recomendação definem o que será apresentado a cada usuário, em qual sequência, repetido quantas vezes e acompanhado de quais outros conteúdos.
O eleitor não recebe simplesmente “a internet”. Recebe uma internet previamente organizada por sistemas de recomendação cuja arquitetura pertence às próprias empresas. Empresas com donos, com interesses economicos que coincidem com a politica das figuras de direita latino americanas. Os donos de todas essas plataformas estavam na posse de Trump, alguns como Elon Musk atacam diretamente lideranças de esquerda como o próprio Petro e o presidente Lula.
Um estudo chamado How Social Media Creators Shape Mass Politics: A Field Experiment during the 2024 US Elections, de Kirill Chmel, Eunji Kim, John Marshall, Tiffany Fisher-Love e Nathaniel Lubin, conduzido durante as eleições norte-americanas de 2024, mostrou que a exposição sistemática a criadores de conteúdo político nas redes produziu mudanças mensuráveis nas posições políticas, na avaliação partidária e até nas preferências eleitorais dos participantes. Os autores encontraram efeitos que, em determinadas condições, superaram os obtidos por formas tradicionais de campanha e mídia partidária.
Droga, terrorismo e intervenção
Não é casual que as categorias “droga”, “crime”, “terrorismo” e “esquerda” apareçam tantas vezes juntas. Elas também estão no centro da política externa de Trump para a América Latina.
Antes da eleição, o presidente estadunidense havia acusado Petro de envolvimento com o tráfico de drogas. Seu governo voltou a enquadrar a relação com a Colômbia por meio da guerra às drogas. Após a vitória de De La Espriella, a aproximação tornou-se imediata. Em agosto, Washington anunciou a intenção de destinar cerca de US$ 1 bilhão em assistência de segurança ao novo governo colombiano. Petro, antes apresentado como parte do problema do narcotráfico, dava lugar a um governo tratado como aliado no combate a ele.
No México, a presidenta Claudia Sheinbaum também foi alvo de insinuações de Trump envolvendo o narcotráfico. O presidente estadunidense chegou a declarar que os Estados Unidos poderiam realizar operações e ataques terrestres contra estruturas dos cartéis em território mexicano. Mais uma vez, um problema interno de um país latino-americano passa a ser apresentado como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos e, a partir disso, como justificativa para que Washington reivindique o direito de agir para além de suas próprias fronteiras.
No Brasil, o governo dos Estados Unidos também vem utilizando o narcotráfico como demonstração da suposta incapacidade da esquerda de garantir a segurança, chegando a defender o enquadramento de facções criminosas brasileiras como organizações “terroristas”.
A mudança não é apenas de vocabulário: transformar organizações criminosas em organizações terroristas amplia os instrumentos que Washington pode reivindicar para combatê-las e abre precedentes para sanções, bloqueios econômicos e até para a defesa de operações em território estrangeiro.
Uma eleição não deixa de sofrer interferência estrangeira simplesmente porque também existem razões domésticas para determinado resultado. Quando o presidente da maior potência do continente ameaça o governo de um país, utiliza seu peso econômico contra ele, questiona decisões de sua Justiça, sugere a possibilidade de uma intervenção militar e, na sequência, declara publicamente apoio a um dos candidatos que disputam a sucessão daquele mesmo governo, já existe uma intervenção sobre a conjuntura política.
Ela informa quais consequências podem acompanhar determinadas escolhas políticas. Um governo que confronte Washington pode enfrentar tarifas, sanções, isolamento ou pressão diplomática. Um governo alinhado pode receber recursos, apoio político e cooperação. A interferência contemporânea não precisa consistir em falsificar uma urna. Pode consistir em alterar o ambiente de incentivos no qual a urna será utilizada.
Os Estados Unidos continuam dispondo de um poder militar incomparavelmente superior ao de qualquer país latino-americano. Continuam controlando uma moeda central ao sistema financeiro internacional. Continuam capazes de impor sanções, tarifas e restrições comerciais.
Mas agora existe uma camada adicional de poder. Grande parte da infraestrutura através da qual os latino-americanos interpretam essas próprias ações está também localizada em empresas vinculadas ao ecossistema econômico e político norte-americano.
O problema é que continuamos procurando a interferência dos Estados Unidos com os instrumentos do século XX enquanto eles operam no século XXI.
Laura Sabino é historiadora pela UFMG, pós-graduada em Economia, comunicadora e colunista do Brasil de Fato. Militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e produtora de conteúdo sobre política nas redes sociais.
—
Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

