O tema da memória continua sendo essencial.
Na semana anterior me utilizei do Sankofa, aquele símbolo ancestral de matriz africana, para enfatizar a importância de não descuidarmos, no presente, dos ensinamentos que o passado oferece. Isso é relevante especialmente agora porque estamos precisando como nunca, de recuperar a memória nacional para impedir o retorno de ondas de destruição que ameaçam o futuro deste país.
Daí a importância daquela figura, onde um pássaro olha para trás enquanto avança, carregando um ovo. Aquele ovo, que é seu tesouro particular, e que também representa o futuro de todos os pássaros, é o nexo entre tudo o que foi e o que pode vir a ser.

Sankofa – Fonte imagens de sankofa – livres de direitos https://www.shutterstock.com/pt/search/sankofa
E creio que esta imagem se aplica àquela reunião do STF (15/9), onde a concepção de que ali operam regramentos orientados para a Justiça, foi barbarizada, com objetivos eleitorais golpistas que repercutirão sobre a instabilidade institucional.
Neste comentário resumido vou inserir links de embasamento que ficarão em paralelo ao texto, como registro, e aos quais recomendo acesso de interessados/as, em detalhamentos.
O ministro André Mendonça, escolhido pelo então presidente Jair Bolsonaro para a garantir proteção de seu filho Flavio Bolsonaro, acusado de crimes com fundamentação robusta (com destaque para a rachadinha super-documentada), foi nomeado em substituição a Sérgio Moro no Ministério da Justiça, e garantiu com isso sua indicação para o STF. Aprovado pelo Senado com base em sua condição de bolsonarista terrivelmente evangélico, ele fez o que fez (e faz o que faz) para demostrar fidelidade aos interesses que o levaram àquela condição, confiando na proteção que aquela toga pode lhe assegurar.
Então, valendo-se de acusações ao Procurador-geral da República e à Polícia Federal, que ele mesmo reconheceu como infundadas, e de vazamentos seletivos de indícios relacionados à possível corrupção do ministro Alexandre de Moraes, e apenas dele (escondendo o que soube a respeito do Flavio Bolsonaro e seus parças), Mendonça criou o caos que deverá impulsionar a candidatura do Flavio Bolsonaro e dos candidatos a governadores, senadores e deputados de seu campo de manobras.
A expectativa daquele grupo vai no rumo de que, controlando o congresso, o STF e o Planalto, além de alguns governos e assembleias legislativas, poderão garantir o esquecimento nacional e alcançar o perdão para todos os antigos e futuros golpistas.
Entretanto, as reações da parte do STF que mantém compromisso com a normalidade institucional, mostraram para a sociedade o nível a que Mendonça chegou. Apontaram atitude mafiosa, de comprometimento da justiça, orientada para provocar viés eleitoral, carregada de medo do trabalho da polícia federal, envolvendo agitação da sociedade e conluio com pressões internacionais geradoras de intimidação aos ministros Gilmar Mendes e Flavio Dino, com vistas a subordinar a autonomia da corte suprema brasileira a interesses externos.
As possíveis consequências das atitudes do ministro Mendonça, que obteve apoio dos ministros Fux e Fachin, e até mesmo da ministra Carmen Lucia, repercutirão sobre todos nós, sabe-se lá até quando. E o pior é que Flávio Bolsonaro, diretamente beneficiado por aquelas tramoias, nem é o mal maior. Isso porque agora, mesmo com a eleição de Lula, a noção de justiça está enxovalhada de uma forma tal que os esforços realizados pelos ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Zanin, dificilmente serão suficientes para conter movimento de destruição das instituições. Esta crise é especialmente útil para os avanços da corrupção, do neocolonialismo e do fascismo internacional.
Parece que – para bloquear esta onda- nos resta apenas o caminho do povo na rua e nas mídias, revelando a indignação da sociedade, reclamando amplo esclarecimento dos fatos e exigindo a punição dos criminosos.
Em qualquer situação, o STF já deixou de ser o que era e infelizmente será tarde quando os protagonistas vierem a ser desmascarados mostrando à sociedade quem são os principais agentes desta doença que fere o país e que deixará cicatrizes dolorosas na vida de todos.
O fato é que agora, doa a quem doer, como disse o Lula, todos precisam ser escrutinados. E isso levará à emergência/revelação de sujeiras que precisarão ser explicadas. Talvez por isso Mendonça, Kássio Nunes Marques e Fuchs, que segundo se lê nas mídias poderiam ter fortes motivos para temer a Polícia Federal, se empenhem em favor da eleição do filho do Jair, já que apenas isto poderá garantir o que eles pretendem em termos de mudança no perfil do STF e controle da PF, com o abafamento de seja lá o que for. Gilmar Mendes revelou que aquela votação na segunda turma, com poucos minutos de leitura para aprovar uma decisão de legalidade duvidosa é indicativa de até que ponto o trio violentamente bolsonarista do STF está disposto a avançar, contra a ética. O ministro Fux, que já havia absolvido Jair Bolsonaro do crime de tentativa de golpe de estado com voto de 14 horas, precisou de apenas 4 minutos para referendar aquele parecer de Mendonça que deu início à presente crise. A sessão começou às 10 h, Fuchs e Kassio Nunes Marques votaram as 10:04 e 10:06h, pela aprovação da Petição 16.662, que impunha o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues e que paralisaria as ações da PF. Como disse Gilmar Mendes, ou combinaram o voto antes da sessão, ou não precisam refletir sobre questões de tamanha relevância para o país.
O triste é que agora, mesmo com a eleição de Lula, crescem os riscos que ameaçam nosso já frágil o sistema democrático. Podemos temer convulsões sociais, com aceleração da corrupção escandalosa, com intervenção dos bolsonaristas no processo eleitoral, das milicias armadas onde elas operam espalhando terror, e do próprio Governo Norte Americano, referendando tudo isso.
Voltando à questão da memória e do protagonismo de Mendonça na crise que ameaça nosso futuro, há uma consideração que não devemos deixar escapar. Ele pode continuar contando com o apoio dos ministros Fux e Kássio, bem como com a tolerância do ministro Fachin, e com o lero lero diversionista da ministra Carmen Lúcia (que se dizendo alheia a pressões externas, e incomodada como isso, vota a favor dos interesses que fazem as pressões externas) ou ainda com os sinais de que estão com ele todas as forças comprometidas com interesses opostos ao desenvolvimento, à paz interna e à soberania deste pais.
Pode até envelhecer e morrer podre de rico em Miami ou onde quiser. Mas não vai escapar da história. Seus filhos serão os filhos do Pixuleco, seus netos serão os netos do Pixuleco eleitoral, e todas as menções a seu sobrenome serão piores do que aquelas reservadas ao traidor Temer e aos mafiosos da família Bolsonaro. Suponho que em algum momento tenha sido gigantesco o orgulho de seus familiares e amigos, quando ele ascendeu ao Ministério da Justiça e posteriormente ao STF. Lembro daquela comemoração da Michele B e outros fiéis do mesmo rebanho, e imagino, agora, a vergonha dos que cercam o Pixuleco. Sabem ou saberão que são cúmplices de alguém disposto a reincidir em papéis tão indignos de um magistrado que até o juiz parcial Sergio Moro, como toda sua gana por uma cadeira no STF, quando teve sua oportunidade de interferir na PF para livrar a cara do zero um, considerou inaceitável fazer tal coisa.
E onde isso vai parar?
Não há como saber. Vai depender de nossas mobilizações, nas ruas e nas mídias, todos e todas pedindo que as pedras do chão se unam a um grande esforço nacional para esclarecer aos desinformados, aos tolos e aos crentes, que estamos diante de gente do mal e disposta, em nome de Deus, a fazer muita patifaria.
E por isso, aproveitando para mudar de assunto, trago uma sugestão tudo a ver com a formatação da nova direita feminina, no Brasil e do avanço, contra elas, daquelas mulheres que se respeitam e se fazem respeitar, bem como de todes que as apoiam.
Dia 24 de setembro, em vários cinemas do Brasil, teremos a estreia do filme Virtuosas, dirigido por Cintia Dommit Bittar. Baita filme, produzido, dirigido e editado por uma mulher visionária, que o concebeu há 5 anos e do qual não vou dar maiores spoilers. Digamos só que é de suscitar ótimas discussões no atual momento do Brasil, inclusive no que diz respeito ao que comentei neste texto… Vejam o trailer, acompanhem o que estão falando as fanáticas de ultradireita a respeito deste grande filme nacional, ótima fotografia, carregado de inteligência, terror, humor e de um realismo apavorante.
Procurem nas mídias mais detalhes e não deixem de assistir no cinema mais próximo de suas casas, assim que estrear. Todo filme nacional, por incrível que pareça, tem somente uma semana garantida em cartaz nos cinemas brasileiros, assim, se você deixar para assistir na segunda semana, pode não conseguir. A arte, a estética e o protagonismo feminino decidirão estas eleições. E este filme vai ajudar a que as pessoas reflitam sobre isso. Aproveito para lembrar que existem 18 milhões de brasileiros/as com mais de 70 anos… precisamos leva-los/las a votar, eles/elas têm memória do que este país já foi, e não pode voltar a ser. Zezé Polessa comenta isso. Vale ver e divulgar.
Por fim.. Virtuosas, o trailer:
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


