Muita coisa a ser dita e repetida a partir da vitória espetacular de Lula neste segundo turno, e do que se seguiu a ela. Ao longo do texto, deixo links de acesso para pessoas eventualmente interessadas nos detalhes.
De resultado, como previsto e imediatamente após a festa, começou uma nova fase da atual luta dos brasileiros pela soberania deste país e pela democracia, como sistema político viável para toda a América Latina. Felizmente, como temos um líder da estatura do Lula e contamos com a solidariedade da maior parte dos governos e habitantes deste planeta, é certo que venceremos.
Mas precisamos encarar as dificuldades inesperadas. A fuga do Flávio, embora anunciada com antecedência, precedida daquela visita de despedida ao papai, e rodeada de novas mentiras, chocou o país e reabriu a torneira das preocupações.
De um lado, aquele aprendiz de golpista se apequenou ainda mais desmoralizando seus apoiadores e baratinando a direita. O sofrimento expresso nas declarações de Valdemar da Costa Neto, presidente do PL e do senador Rogerio Marinho, coordenador de campanha, traídos pelo Flavio, dariam pena se eles não merecessem algo pior. E o que dizer então daqueles outros a caminho da cadeia ou já presos (como o Vorcaro), enquanto seus amigões estão livres, leves, soltos e ricos, nos EUA?
Bom, eles sabiam com quem estavam lidando. Mas ainda existem milhões de iludidos, para quem uma breve resenha das últimas e mais relevantes lorotas do Flavio, podem ser úteis. Elas incluem contradições inconciliáveis prometidas ao mesmo tempo em suas peças de campanha, as falas no debate com Lula, as exigências para aceitação da promessa de abrir as contas, de comprovar sua inocência nas relações com Vorcaro, Willer Tomas e milícias e, antes de fugir, aquela declaração de intenção de assumir o papel de líder das bancadas de oposição que são maioria no congresso e em algumas regiões do país. Largou todos na deriva, com aquela afirmativa de que nunca pensou em fugir, e ainda tirou sarro com aquela carta discurso na chegada nos EUA. Aliás, depois de distribuir o documento, recolheu, corrigiu alguns erros, retirou a afirmativa de que seria o presidente eleito, passou se intitular líder da oposição. Havia escrito Estados Unidos do BraZil, com Z, e corrigiu para República Federativa do Brasil. Isso, que já seria ridículo, ainda é pouco para o papel assumido por um aspirante a Guaidó disposto a arrastar o sobrenome de suas filhas, que já estava sujo, para a vergonha absoluta.
Hoje até a Rede Globo reconhece que a fuga do Pinóchio é um caso policial simples sem justificação política: roubou (muito), fugiu para não ser preso, e talvez acredite que com o apoio do Marco Rubio, isso pode ficar assim.
Não vai. E agora, até mesmo seus 59 milhões de eleitores passam a ter nova oportunidade para entender quem é o Flávio rachadinha.
Um fugitivo que, sendo pior do que o pai presidiário, insiste em reanimar aquelas ameaças à nossos aquíferos, riquezas minerais e à biodiversidade nativa, colocados como moedas de troca por favores do governo Trump, contra o Brasil.
Como disse Lula: o que o Flávio fez não é coisa de brasileiro, a pátria dele é outra. Ele é alguém disposto a lamber as botas do Trump. Aliás, não há de ser por nada que Trump “aprovou” sua fuga, que também contou com apoio de autoridades do governo Millei. E isso merece reflexão urgente: Lula pode ir à reunião da ONU, nos EUA? Será seguro? E o governo brasileiro deve manter relações normais com o governo argentino?
Penso que não. E acredito que nosso povo deve exigir posicionamentos em relação a isso.
A ONU precisa ser instada a se manifestar sobre estes conluios para proteção de criminosos que prestam serviços de lesa pátria em favor do Império. Os cidadãos da Argentina e dos EUA devem saber que serão prejudicados por sanções deflagradas contra outros países, a partir das atitudes de seus governos. Os BRICS precisam assumir a defesa do multilateralismo e criar protocolos de defesa mútua, cooperativa.
Neste sentido, se faz urgente o escrutínio e uma ampla divulgação internacional dos feitos de Flavio rachadinha. O mundo precisa saber de ilegalidades relacionadas à sua evolução patrimonial, a seu comprometimento com interesses de criminosos e sobre o comportamento de pessoas “da turma dele”, envolvidas com o escritório do crime e com a distribuição de ameaças, chantagens, presentes, grana e mulheres, como base para obtenção de favores de servidores públicos estabelecidos em postos chaves da República.
De outro lado, e considerando a aliança explícita que a fuga de Flavio pode estreitar, entre aqueles grupos criminosos e as necessidades do Império, se desenha uma situação perigosa e extremamente delicada. A carta da infâmia mostra isso.
Felizmente somos um país gigante, que conta (para além das forças democráticas) com nacionalistas que atuam no exército, na marinha, na aeronáutica e entre os grupos legalistas de extrema direita. Além disso, o que farão agora aqueles aspirantes a herdeiros do bolsonarismo desmoralizado? Tarcísio de Freitas, Nikolas, Jorginho Melo, Caiado, Sérgio Moro e tantos outros (pelo menos entre aqueles que não estão ameaçados de prisão) que sabem inexistirem possibilidades de reversão do resultado eleitoral, ou de ação militar positiva por parte dos EUA, no Brasil, vão se solidarizar na fuga e aguentar o deboche?
Duvido. Eles não vão se atrever a apoiar quem deseja entregar o país, provocando revoltas, desordens e mortes, com o sangramento e a degradação do futuro de todos. Claro que não. Eles não rezam para pneus nem chamam ET com celular na testa. Eles sabem o que fazem e como nós, estão cientes do inevitável: Lula vai indicar quatro ministros legalistas e nos próximos anos, inclusive aqueles golpistas já estabelecidos naquela instância de poder, recuarão de seu apoio ao golpe e se enquadrarão no regime democrático.
No legislativo vão imperar negociações influenciadas pelo povo na rua. E ao final de quatro anos, todos sabemos que o antipetismo tende a refluir. A partir deste último governo Lula as disputas democráticas se resolverão com base nos parâmetros legais, onde qualquer agrupamento terá oportunidade de resultar vitorioso a partir de 2030. Os extremistas vão espernear, os investidores internacionais vão aliciar quem puderem, mas há esperança de que a direita racional trabalhe em paralelo com a esquerda, para que isso se concretize. O bolsonarismo, reunido nas prisões, terá o fim que merece. Ou isso, ou a volta da ditadura com o Brasil no bolso do Trump, apoiando o Escudo das Américas, governado por algum ditador.
Particularmente, se mantivermos a população atenta, confio em nós. E acredito que, superadas as ameaças que virão com Trump, com as grandes mídias controladas haverá paz interna e respeito à Constituição Federal. O povo nas ruas e a aproximação do governo Lula com os congressistas de centro, com o desmascaramento e a prisão dos criminosos ali amoitados, vão assegurar a governabilidade. As PECs que degradariam a Constituição, a venda de estatais, a dilapidação de riquezas e os impeachments prometidos por Flávio, não acontecerão. Os parlamentares que insistirem nisso vão acabar se aquietando ou serão penalizados por seus crimes, onde houver.
Acredito inclusive que outros países serão estimulados no mesmo rumo e teremos ampla onda de pressão social em favor da democracia.

Aqui, todos sabemos que a virada nas eleições brasileiras ocorreu quando a juventude veio para as ruas, seguida pelos idosos, com apoio da ação organizada nas mídias democráticas e especialmente através do exército de Lula, orientado pelo general Janones.
Este é o caminho que justifica o “L” e o “bora Lula”, como símbolos internacionais da esquerda e da democracia, que recolocaram a aliança plurigeracional como caminho para enfrentar e derrotar o império, seus capachos e até mesmo a ganância cega do individualismo que os apoia.

Agora, é momento de estimular essa energia vital, e aqui no Brasil, cobrar plebiscitos que reduzam as amarras do arcabouço fiscal, dos juros do Banco Central (BC) e do poder exercido pelos grupos mafiosos entrincheirados na câmara, no senado e na Faria Lima.
Sabemos que apenas assim vamos evitar a repetição das experiencias abortadas em tantos países da América, pela gula do Império e com apoio de entreguistas locais.
Não queremos voltar a ser colônia, nem ver a pátria dividida. Cabemos todos aqui, todas as crenças, todos os sonhos, todas as esperanças. Aqui estamos, e ficaremos aqui.
Quanto aos que não compartilham deste projeto, como cantou Victor Jara, que fujam, que partam para Miami com seus parentes, seus cúmplices e seus pseudo-amigos.
A música da semana? Aquí me quedo, de Victor Jara.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


