Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Só articulações de Lula e povo na rua podem barrar maldades da direita no Congresso

Lula na Paulista
Lula foi recebido por centenas de milhares de pessoas na Avenida Pualista neste domingo, após vencer as eleições | Crédito: Elineudo Meira/@fotografia.75

A direita, no Congresso Nacional, tem maioria para fazer o que quiser

O alívio que sobreveio com a vitória do Lula, aquelas comemorações, a ridicularização do bolsonarismo após a fuga do Flávio e agora, as mobilizações globais pela democracia, usando o Lula e o “nosso” L como símbolos universais de Luta pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade, alavancadas pela derrota do time do Trump, nas eleições para governadores, senadores e deputados norte-americanos, são elementos ótimos, que nos colocam diante de um novo padrão de realidade. 

Mas não podemos nos enganar em relação ao potencial disso. Ainda que o pior pareça ter sido adiado, precisamos olhar para frente – a luz no túnel pode ser trem. De um lado, é verdade que os bolsonaristas estão desmoralizados e que o Trump terá que se dedicar a seus problemas internos, coisas que tendem a facilitar as lutas pela retomada da democracia, na América Latina e talvez no planeta. Com certeza isso é bom. Mas nem por isso devemos relaxar. Antes o contrário, afinal, os ratos acossados atacam. E os interesses das transnacionais, bem como a disposição golpista de seus agentes instalados em espaços privilegiados, de poder, em nossos países, permanecem reais,  e poderosos., Aquela  tentativa (frustrada) do Ministro Fux, no sentido de melar a proibição das bets, a manutenção dos juros do BC em 13,5%, e inclusive os primeiros anúncios do governador  eleito no RS são apenas alguns dos sinais de que  entramos na segunda fase de uma guerra de posições onde estamos fragilizados.

A direita, no Congresso Nacional, tem maioria para fazer o que quiser: pode derrubar o presidente, cassar ministros, alterar a Constituição, e com certeza fará o seu pior, caso não seja impedida. E os bloqueios que podem ser obtidos vão depender das negociações articuladas por Lula, e das pressões do povo nas ruas.

Contamos com a habilidade de Lula, que afinal das contas, jamais governou com maioria no congresso. As recentes vitórias no caso das bets e da PEC da Segurança alimentam algum otimismo neste sentido. Mas também sabemos que o ano está por terminar e que em 2027 o quadro parlamentar será ruim como nunca, sinalizando para um governo dificultado pela escassa margem de manobras, e que se verá pressionado a estabelecer negociações desvantajosas, forçadas no sentido de desmotivar suas bases de apoio social. Portanto, restará a pressão da sociedade, para intimidar os inimigos do povo e fortalecer as posições do governo Lula, que sem isso vivenciará rápida erosão do capital político acumulado em sua história de vida.

A energia das redes sociais, do Janones, da juventude, dos idosos e do exército do Lula, nas ruas, com que esperamos contar, serão fundamentais. Mas talvez não bastem. Até porque surgirão disputas de protagonismo em relações de difícil sustentação harmoniosa, ao logo do tempo. Portanto, tende a ser necessária alguma agregação de novos tipos de ativismo, que mantendo suas demandas especificas, descentralizadas e autônomas, formem pareamentos capazes de induzir articulações entre aquelas suas lutas particulares em uma agenda global que as fortaleça, uma vez que orientada por avanços na democracia participativa e em defesa da constituição cidadã. 

Me refiro a uma retomada do protagonismo local, em abordagem territorial que aproveitando a onda de renovação acima mencionada, opere desde agora com vistas às eleições de 2028. Algo como o estímulo à aproximação dos diferentes grupos já atuantes em cada ecossistema urbano, para potencialização dos enfrentamentos a problemas localmente alimentados pelo imperialismo global e seus agentes, naqueles espaços. 

As pautas são muitas. Existem por exemplo municípios, como aqueles da região do Alto Uruguai (RS), onde as taxas de perdas de gestação, de alterações genéticas, de índices de câncer em crianças, jovens e adultos, entre outras afecções relacionadas a desequilíbrios hormonais associados ao uso de agrotóxicos, superam largamente as médias estaduais e nacionais. Ali, onde para muitas famílias o sofrimento se aproxima da certeza estatística, se configuram zonas de sacrifício que demarcam campo para expansão das lutas pelo estabelecimento de áreas livres de agrotóxicos. A hipótese aqui é de que uma vez disseminadas informações que apontem causas de dramas reais que poderiam ser evitados (mas que são estimulados) por meio de políticas públicas, as populações ameaçadas tenderão a se mobilizar no sentido da autodefesa, o que poderá levar à acumulação de forças para o enfrentamento de pautas nacionais pela correção de distorções como aquelas criminosamente incorporadas à nova lei dos agrotóxicos. De forma similar, os impactos socioeconômicos das enchentes no vale do Taquari e na região metropolitana de Porto Alegre se percebem consequentes à combinação de interesses da especulação imobiliária que distorce funcionalidades dos planos diretores municipais, com (somando-se a) desequilíbrios impostos pela destruição da legislação ambiental gaúcha oportunizada (pelo governo do estado e também de vários municípios) em favorecimento a interesses do agronegócio empresarial.

O fato é conhecemos ampla variedade de problemas interligados que, olhados isoladamente, não arrebanham capacidades geradoras de qualificação nas normas legais e políticas públicas que os provocaram e que, trabalhadas adequadamente, poderiam corrigi-los. O pior é que o distanciamento da população em relação às suas responsabilidades no trato de dramas locais, acaba esvaziando espaços capazes de unir energias dispersadas em pautas especificas, dificultando a agregação de capacidades necessárias ao enfrentamento coletivo daqueles interesses que por pouco, com Flávio B. não nos subordinaram à condição de colônia dos EUA. 

E é neste sentido que quero trazer aqui comentário sobre atividades propostas pelo Coletivo a Cidade Que Queremos, nesta 72ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Antes, uma introdução. 

Como é sabido, em Porto Alegre temos muitas organizações que trabalham pelo enfrentamento de questões relacionadas ao meio ambiente. Dentre as mais destacadas incluem-se a AGAPAN, o INGÁ e a Redes Amigas da Terra Brasil. O fato é que embora compartilhando objetivos comuns e acumulando forças em determinadas ações, estas e outras organizações priorizam suas pautas singulares que assim, isoladamente, resultam de menor impacto do que seria possível alcançar no coletivo. 

Pois bem, em 2015 e focalizando o ecossistema urbano de Porto Alegre, alguns participantes daquelas e outras organizações (como o Coletivo Catarse, o Movimento Ciência Cidadã, o Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, o IAB/RS, AGB/RS, ABA, ALICE, …) criaram o Coletivo a Cidade Que Queremos (CCQQ), como espaço público para articulação e debate da cidadania. De caráter plural, sem vinculação partidária e objetivando estimular proposições e ações de interesse comum orientadas pelos princípios de gestão democrática (notadamente em respeito ao ambiente natural e à democracia participativa), o CCQQ realizou (6 agosto de 2016) a 1ª Conferência Popular da Cidade de Porto Alegre. Ali, a partir de pré-conferências territoriais, mais de uma centena de organizações, movimentos e lideranças sociais,  definiram prioridades comuns e elaboraram uma carta compromisso apresentada aos então candidatos a prefeito de Porto Alegre, em debate (de candidatos) promovido pelo CCQQ, onde apenas os representantes de esquerda compareceram. 

A cidade que queremos
Atividade durante a pandemia de covid-19 – Arquivo pessoal | Crédito: Arquivo pessoal

Passados dez anos, nesta 72ª Feira do Livro de Porto Alegre o CCQQ volta a promover discussão sobre os mesmos temas. Inicialmente, em debate com participação de AGAPAN, INGÁ, Amigas da Terra, pretende-se identificar pautas que permitam ações integradas para enfrentamento da degradação do ecossistema urbano da capital gaúcha. Trata-se de, a partir deste primeiro passo, buscar a construção de agendas para a reivindicação de políticas públicas que agreguem outras forças sociais na luta em defesa do ambiente e da qualidade de vida urbana, acumulando energia para enfrentamento das forças destrutivas que aqui atuam.

Esta articulação busca responder a processo de enfraquecimento do poder de influência popular nos espaços de decisão municipal, priorizando temas relacionados à desarticulação da cidadania, aos impactos do aquecimento global e à degradação do ecossistema urbano da capital. Objetivamente o CCQQ propõe retomar atividades que levem à elaboração coletiva de propostas de políticas públicas de âmbito local, que se somem a movimentos de escala regional e nacional, de maneira a ampliar a sustentação do governo Lula e impactar sobre as eleições municipais de 2028.

Neste sentido o CCQQ convida as pessoas interessadas a participarem debate intitulado A CIDADE QUE QUEREMOS: Como está e para onde vai o Ecossistema Urbano de Porto Alegre? O que podemos fazer, juntos, pela Cidade que Queremos? 

A atividade é aberta e acontecerá este sábado (7) no Clube do Comércio, auditório Alfredo Augusto Escobar Santos, Rua dos Andradas 1085, 2ºandar, das 14h30 às 15h20.

A música de hoje é forte, é de luta, é linda. É da permanência dos recomeços. Somos todxs filhos de reis.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.




Editado por: Vivian Virissimo

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