Leitura Crítica da Mídia

A coluna tem o objetivo de realizar uma análise precisa por uma mídia ética, humanizada e sem violações dos direitos humanos.

Autora: Mabel Dias é jornalista, associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, observadora credenciada do Observatório Paraibano de Jornalismo, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE e autora do livro “A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do programa Alerta Nacional”, da editora Arribaçã e selo Anayde Beiriz.

Combater a violência contra as mulheres é também ter uma mídia que não viole seus direitos

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"É preciso enfatizar que a cobertura midiática dos casos de violência contra as mulheres e de feminicídio não deve reforçar preconceitos", salienta Mabel Dias
“É preciso enfatizar que a cobertura midiática dos casos de violência contra as mulheres e de feminicídio não deve reforçar preconceitos”, salienta Mabel Dias | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

O jornalismo e os meios de comunicação precisam estar ao lado das mulheres

Mais uma vez, o jornalismo declaratório da Paraíba culpabiliza uma mulher pelo seu assassinato. Tatiana Clementino dos Santos foi assassinada na quarta-feira, dia 9 de setembro, em Mamanguape (PB), com vários tiros. Outro agravante do crime é que Tatiana estava grávida! O portal WSCOM publicou a notícia do assassinato de Tatiana no dia 10 de setembro, e o repórter que redigiu a notícia usou o jornalismo declaratório, reforçando estereótipos e preconceitos contra a vítima. Tatiana pedia a prisão das pessoas suspeitas de terem matado o seu marido, no mês de agosto deste ano. Seus gritos por justiça não foram ouvidos e, agora, ela está morta junto com seu filho, assassinado ainda em seu ventre.

O jornalismo declaratório prejudica a compreensão da sociedade de crimes como esse, que retirou a vida de Tatiana de maneira tão brutal. Ele acontece quando a imprensa dá voz às fontes oficiais, nesse caso a polícia, repetindo ipsis literis, o que é dito pela fonte, sem realizar uma checagem mais apurada dos fatos e sem questionar o porquê de tais colocações.

Dessa forma, a notícia reforçou estereótipos contra Tatiana, ao dizer que ela “tinha distúrbios psíquicos” e referir-se a ela de maneira pejorativa, como “Tati quebra barraco”, buscando atribuir a ela a culpa por ter sido morta. O caso torna-se ainda mais grave porque Tatiana estava grávida, e isso não foi reforçado na notícia, para que o caso seja apurado com mais rigor. Se Tatiana tivesse feito um aborto, pedras seriam jogadas contra ela e o título de “assassina” seria atribuído rapidamente a ela pelos conservadores/as de plantão; mas, nesse caso, não houve por parte do repórter e do portal, durante a construção e publicação da notícia, uma ênfase sobre a condição de gestante de Tatiana, que não intimidou os assassinos, provocando o assassinato de mais uma mulher na Paraíba.

Os “distúrbios psíquicos” atribuídos a Tatiana Clementino podem ter surgido após o assassinato de seu marido e o seu desespero, ao procurar a imprensa para cobrar apuração e prisão dos culpados pelo crime, é totalmente compreensível. A imprensa não pode jogar isso contra ela, como se Tatiana fosse uma “louca, descontrolada”, que procurou a própria morte, mas sim cobrar da polícia a apuração eficiente dos acontecimentos e a prisão de quem a matou e matou seu esposo. Fazer jornalismo é atuar para o interesse público.

Em 2024, a Secretaria das Mulheres e da Diversidade Humana, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, o Observatório Paraibano de Jornalismo e a Rede Estadual de Atenção às Mulheres e Meninas Vítimas da Violência (Reamcav) lançaram o Guia de Enfrentamento da Violência contra a Mulher: diretrizes para uma cobertura responsável, com o objetivo de auxiliar jornalistas e comunicadoras/es para cobrir, de maneira ética e qualificada, os casos de violência contra as mulheres e de feminicídio na Paraíba. Infelizmente, esse tipo de cobertura que viola os direitos humanos das mulheres continua acontecendo na mídia paraibana, seja em TVs, sites, portais, blogs, rádio, que reforça o machismo, a misoginia e o sexismo, estruturas perversas responsáveis pela morte de milhares de mulheres na Paraíba e no Brasil.

Entendemos que a mídia é um ator fundamental para divulgar e esclarecer crimes como esse, que tirou a vida de mais uma paraibana, jovem, grávida, de maneira brutal e covarde. Porém, é preciso enfatizar que a cobertura midiática dos casos de violência contra as mulheres e de feminicídio não deve reforçar preconceitos, estereótipos, culpabilizar e revitimizar as mulheres pela violência que sofreram.

Tatiana tinha família, amigos, amigas, que perderam mais um ente querido e estão sofrendo neste momento. Além disso, a mídia não pode se guiar por recortes racistas nem classistas, tratando feminicídios e violências contra mulheres pobres e negras como algo sem importância. O jornalismo e os meios de comunicação precisam estar ao lado das mulheres, seja de qual classe, cor, orientação sexual e identidade de gênero pertençam. É necessário fazer um jornalismo em prol dos direitos humanos e que combata o machismo, a misoginia e o sexismo para erradicar a violência de gênero na Paraíba.

*Mabel Dias é jornalista, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE, associada ao Coletivo Intervozes, observadora credenciada no Observatório Paraibano de Jornalismo e conselheira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos. Autora do livro A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do Alerta Nacional (editora Arribaçã).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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