O futebol brasileiro é frequentemente apresentado como um território natural da masculinidade. Nas arquibancadas, nas transmissões esportivas e nas narrativas que cercam o esporte, a presença masculina aparece como norma – enquanto mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ costumam surgir como exceção, evidenciadas com especificidades, muitas vezes toleradas de forma precária ou empurradas para as margens da experiência torcedora.
Essa percepção encontra respaldo em diversos estudos sobre a cultura torcedora, que identificam no futebol um espaço de produção e reafirmação de códigos de masculinidade. O pesquisador Gustavo Andrada Bandeira utiliza a expressão “currículo de masculinidades” (2009) para descrever como a experiência torcedora ensina e reforça valores associados à virilidade – coragem, agressividade, resistência física e domínio simbólico do espaço público.
Nas arquibancadas, esse currículo se manifesta de forma explícita. Nos cantos das torcidas, nas provocações dirigidas ao adversário e nas disputas de honra entre torcedores, ofender o rival costuma passar por feminilizá-lo ou homossexualizá-lo. Termos como “viado”, “gay”, “barbie” e “fdp”, entre outros semelhantes, aparecem com frequência nas músicas e provocações que circulam na cultura torcedora.
Esses enunciados operam como dispositivos de regulação simbólica: reafirmam hierarquias de gênero e sexualidade e delimitam quem pode ocupar legitimamente o espaço da arquibancada e quem está atrelado a uma masculinidade subalterna – o rival, odiado e, portanto, construído a partir de uma feminização.
Minha pesquisa O ‘V’ É DE ‘VIADO’… E O ‘M’ É DE ‘MULHER’: Cartografias de Corpos, Gêneros e Sexualidades na Cultura Torcedora da Arquibancada do Futebol parte desse diagnóstico, mas propõe um deslocamento analítico. Em vez de observar apenas como as masculinidades são produzidas e reiteradas na arquibancada, o trabalho busca compreender o que acontece quando outros corpos passam a ocupar esse espaço de forma organizada e persistente.
O estudo articula dois anos de investigação acadêmica com uma bagagem anterior de 10 anos de atuação como liderança do Movimento Coralinas, coletivo feminista de torcedoras do Santa Cruz Futebol Clube. Essa trajetória permitiu acompanhar, a partir da própria experiência na cultura torcedora, transformações importantes na forma como mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ têm ocupado as arquibancadas e produzido novas formas de pertencimento no futebol.
A partir dessa investigação, o trabalho propõe o conceito de “currículo de mulheridades-torcedoras”. Trata-se de um conjunto de práticas, experiências e alianças que vêm reorganizando a presença feminina na cultura torcedora do futebol. Esse currículo se estrutura em quatro eixos, organizados abaixo.
Cuidado e Permanência. O primeiro é o cuidado, culturalmente socializado como atributo do gênero feminino, mas aqui entendido como prática coletiva de proteção, acolhimento e produção de pertencimento entre torcedoras. Em um espaço historicamente marcado por violências de gênero, assédio e hostilidade, torcedoras têm desenvolvido estratégias próprias para garantir segurança e permanência na arquibancada.
Linguagem torcedora feminizada. O segundo eixo trata da linguagem, que aparece na disputa direta com os códigos discursivos do futebol. Mulheres têm questionado cantos misóginos e homofóbicos, corrigido termos e proposto novas formas de provocação que deslocam o foco dos insultos tradicionalmente associados ao feminino. Ao mesmo tempo, criam novos significados para termos antes utilizados de forma vexatória.
Aparição política. O terceiro eixo é o que evidenciou a aparição política. Trata-se do momento em que corpos historicamente deslocados da experiência torcedora – mulheres, mães e pessoas LGBTQIAPN+ – passam a aparecer de forma coletiva e visível na arquibancada, organizadas e reivindicadoras. Esse aparecimento não é apenas simbólico: ele altera relações de poder, reconfigura expectativas e amplia as possibilidades de pertencimento no futebol.
Corpos em Liberdade. O quarto eixo diz respeito aos corpos em liberdade, especialmente quando maternidade e prática torcedora deixam de ser tratadas como experiências incompatíveis. Além disso, percebe-se mulheres cada vez mais ocupando o espaço utilizando de seus prazeres, não mais do medo ou da necessidade constante de defesa – agora, inseridas em um corpo coletivo e organizado, conseguem acessar outro tipo de experiência.
Essas transformações podem ser observadas em experiências concretas como o Movimento Coralinas. Ao longo dos últimos anos, o grupo passou a atuar muito além da arquibancada, se fazendo presente também na articulação de debates públicos, campanhas educativas e iniciativas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero no contexto do futebol e com incidência em políticas públicas.
Ao entender a arquibancada como um espaço pedagógico não formal, onde práticas, discursos e símbolos são ensinados e perpetuados, o grupo passa a propor uma nova forma de torcer – uma forma que não seja estruturada na misoginia que tanto violenta e mata mulheres.
Um dos desdobramentos desse processo foi a inclusão dos estádios de futebol no Protocolo Violeta, política municipal do Recife voltada ao acolhimento de mulheres vítimas de violência em espaços de lazer (bares, restaurantes) e que agora passa a contemplar estádios e outros espaços esportivos. A proposta surgiu a partir de articulações entre torcedoras do Santa Cruz, Náutico e Sport, em evento anual organizado pelo coletivo feminista.
Esses movimentos revelam algo que muitas vezes passa despercebido: a arquibancada é também um espaço de produção política. Um laboratório social onde valores, identidades e relações de poder são constantemente disputados. O que se aprende ali sobre masculinidade, violência e pertencimento reverbera muito além dos 90 minutos de uma partida.
O futebol brasileiro ainda carrega marcas profundas de machismo, racismo e LGBTfobia. Mulheres continuam enfrentando violências simbólicas e físicas nos estádios e os corpos dissidentes seguem sendo alvo de hostilidade. Ao mesmo tempo, políticas públicas frequentemente tratam a cultura torcedora apenas como problema de segurança, ignorando as complexidades sociais que atravessam esse universo.
Mas também seria um erro olhar para o futebol apenas como espaço de violência. A cada grupo de mulheres que organiza uma caravana para acompanhar seu time, a cada mãe que decide não abandonar a arquibancada após a maternidade, a cada torcedora que questiona um canto misógino ou homofóbico, algo na cultura torcedora se transforma.
Elas tensionam normas antigas, provocam reações e expõem disputas profundas sobre quem tem direito de ocupar o espaço público e como – a exemplo do mais recente embate nas redes sociais, protagonizado pelo Movimento Coralinas ao questionar os símbolos atrelados ao clássico da final do Campeonato Pernambucano.
O que a pesquisa evidencia é que essas mudanças já estão em curso.
A arquibancada talvez nunca tenha sido exclusivamente masculina. O que está acontecendo agora é que outras presenças estão deixando de ser invisíveis ou subalternizadas.
E quando novos corpos, corpos diversos e dissidentes da heteronormatividade, aparecem no estádio, a cultura do futebol inevitavelmente começa a mudar.


