É auditor fiscal, vice-presidente da Associação dos Funcionários Fiscais do Estado de Minas Gerais (AFFEMG) e ex-presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de Minas Gerais (SINDIFISCO-MG). Bacharel em Direito, economista, especialista em Direito Tributário, especialista em Inovação, mestre em Administração Pública. Atua em análises de políticas públicas e finanças públicas, com foco na redução de desigualdades, promoção de justiça social e fiscal.

Depois das urnas: o assédio político e o custo invisível da intolerância

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Depois do segundo turno das eleições, foram inúmeras as denúncias de assédio eleitoral | Crédito: TSE/divulgação

É fundamental impedir que a divergência se transforme em dominação

As eleições de 2026 deixaram um alerta. Segundo balanço divulgado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), foram recebidas 1.937 denúncias de assédio eleitoral até 26 de outubro. O número cresceu expressivamente em relação a 2022. Os registros não equivalem a casos comprovados e o aumento também pode refletir maior conscientização e acesso aos canais de denúncia. Ainda assim, os números disparam um sinal.

O assédio eleitoral ocorre quando o poder é usado para constranger escolhas políticas: ameaças de demissão, exigência de apoio a candidatos ou intimidação de trabalhadores por suas convicções. Para quem depende do salário para sustentar a família, a ameaça de perder o emprego compromete a saúde mental e até física. O voto deixa de ser plenamente livre quando precisa conviver com o medo.

A democracia que termina na porta da empresa é uma democracia incompleta. A Constituição protege a liberdade de consciência e de convicção política. Divergências são legítimas; perseguições, não. Nenhum resultado eleitoral autoriza perseguições, nem transforma qualquer eleitor em profissional menos capaz.

Há, ainda, a falta de solidariedade. Ela aparece quando colegas que dividem responsabilidades, dificuldades e interesses profissionais tornam-se adversários incapazes de ter empatia e reconhecer direitos trabalhistas comuns.

Émile Durkheim ao analisar a solidariedade social ajuda a compreender essa contradição ao apontar como crescente a baixa consciência coletiva. A cooperação depende de vínculos sociais. Quando a polarização rompe esses vínculos, instala-se uma crise, perde-se confiança e colaboração.

A solidariedade exige reconhecer que ninguém deve perder a dignidade ou o sustento por pensar diferente. E não se manifesta apenas em quem enfrenta a perseguição, mas também na capacidade coletiva de solidariedade com o colega perseguido. O medo de ser o próximo alvo pode explicar o silêncio, mas também revela a urgência de instituições que protejam quem denuncia abusos, como o MPT.

Custo ignorado

Também podemos citar um custo frequentemente ignorado. Demitir por ressentimento político pode parecer uma demonstração de força, mas decisões dessa natureza podem produzir prejuízos que ultrapassam as verbas rescisórias.

A empresa perde conhecimento e experiência acumulados. Precisa selecionar e treinar substitutos, enfrenta períodos de adaptação e pode comprometer a produtividade. Além disso, a percepção de insegurança afeta quem permanece: trabalhadores passam a evitar opiniões e iniciativas por medo de retaliação.

Para além do capital humano, os estudos de Amy Edmondson sobre segurança psicológica mostram a importância de ambientes nos quais as pessoas possam apontar problemas e ideias sem medo.

Esses custos ocultos constituem riscos reais para a eficiência organizacional. A intolerância política pode destruir justamente os recursos de que uma instituição necessita para funcionar bem: conhecimentos, habilidades, atitudes, confiança e cooperação.

Teste de maturidade

O pós-eleição é, portanto, um teste de maturidade democrática. Empresas precisam prevenir a discriminação política, assegurar canais confiáveis de denúncia e proteger trabalhadores contra represálias. Sindicatos e instituições públicas devem contribuir para que a liberdade eleitoral não seja apenas garantia formal.

Depois das urnas, é fundamental impedir que a divergência se transforme em dominação. A democracia exige respeito às escolhas individuais; a solidariedade, o reconhecimento de direitos comuns; e a boa gestão, decisões racionais, orientadas por critérios profissionais.

A democracia tem um momento especial na urna, mas continua no direito de discordar, na liberdade de trabalhar e na solidariedade de não abandonar alguém à perseguição por pensar diferente.

Marco Túlio da Silva é auditor fiscal, vice-presidente da Associação dos Funcionários Fiscais do Estado de Minas Gerais (AFFEMG) e ex-presidente do SINDIFISCO-MG. Bacharel em Direito, economista, especialista em direito tributário, especialista em inovação, mestre em Administração Pública. Atua em análises de políticas públicas e finanças públicas, com foco na redução de desigualdades, promoção de justiça social e fiscal.

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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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