Marcos Vinícius Almeida

Textos críticos sobre literatura, cinema e cultura.

Sem checagem, debate é megafone que amplia alcance das mentiras da extrema-direita

Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva and Senator Flavio Bolsonaro, presidential candidates, participate in a televised presidential debate hosted by Band TV in Sao Paulo, Brazil, on October 18, 2026, ahead of the presidential runoff election. (Photo by Allison Sales/NurPhoto) (Photo by Allison Sales / NurPhoto via AFP)
Flávio Bolsonaro e o presidente Lula participam de debate em encontro inédito na campanha | Crédito: Allison Sales/Nurphoto via AFP

Um jornalismo neutro diante da mentira não é um jornalismo sério. É jornalismo que trabalha para o novo fascismo.

A tática da extrema-direita é a mesma em todo o lugar do mundo: mentira e caos. O comportamento do candidato Flávio Bolsonaro no debate na rede Bandeirantes incomodou até os próprios seguidores. Imitação barata de Donald Trump, ele não respondeu a nenhuma pergunta, chamou fatos comprovados de fake news e, sob ordens de Pablo Marçal, ficou assombrando o presidente Lula enquanto ele falava.

Um dos momentos mais baixos da história da República Brasileira.

Enquanto a Polícia Federal encontra fuzis e máquinas de contar dinheiro em quartos secretos dos seus amigos, Flávio desdenha da inteligência do povo brasileiro. Com uma mão, promete um corte de R$ 250 bilhões no investimento público ao mercado financeiro. Com a outra, enganar seus eleitores dizendo que vai criar programas sociais que já existem, aumentando os gastos públicos.    

O episódio mostrou que o modelo de neutralidade do jornalismo não funciona diante dos novos tempos. Deixar um extremista, com fortes indícios de ligação com crime organizado, dizer o que quer sem contestação em rede nacional é se curvar às táticas do fascismo: cada mentira é válida pelo espaço institucional da televisão. E depois redistribuídas nas redes de ódio da extrema direita nas redes sociais, lubrificadas com o fascismo. 

Os jornalistas Bill Kovach e Tom Rosenstiel, autores de “Os elementos do jornalismo”, estabeleceram dois princípios fundamentais da profissão: sua primeira obrigação é com a verdade e verificação exaustiva. Não se trata, portanto, de exigir que jornalistas tomem partido de um candidato. Trata-se de exigir que tomem partido dos fatos.

Uma emissora que organiza um debate presidencial não pode se comportar como simples locadora de microfones. Quando um candidato apresenta uma informação comprovadamente falsa, o silêncio não representa imparcialidade. Representa a transferência da responsabilidade de verificar os fatos para milhões de espectadores sem condições de se defender. 

A mentira pronunciada diante das câmeras ganha a aparência de uma declaração legítima. Recortada em vídeos curtos, passa a circular pelas redes sociais sem contexto, sem contraditório e sem qualquer compromisso com a realidade. A estrutura de emissora, sob concessão pública, serve de mera munição para a propaganda difamatória distribuída em escala industrial.

A democracia pressupõe o confronto de projetos, ideias e interpretações diferentes da sociedade. Mas não existe debate democrático quando uma das partes reivindica o direito de inventar os próprios fatos. A liberdade de expressão não obriga o jornalismo a oferecer à mentira o mesmo estatuto da verdade.

Basta ver o que aconteceu nos Estados Unidos. Depois de perder as eleições de 2020, Donald Trump passou a repetir que tinha sido vítima de uma fraude eleitoral. A Fox News, maior rede de televisão do país, deu enorme espaço às acusações, sem contestar as aspas do presente. Não havia provas. Em 2023, depois de uma batalha judicial, a emissora aceitou pagar US$ 787,5 milhões para encerrar o processo por difamação e reconheceu que a Justiça havia considerado falsas determinadas alegações transmitidas por sua programação.

O estrago já estava feito. A mentira de que as eleições tinham sido roubadas estimulou a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Funcionários eleitorais foram perseguidos e ameaçados. Duas trabalhadoras da Geórgia, falsamente acusadas de fraude por Rudy Giuliani, tiveram suas vidas devastadas por uma campanha de difamação.

Sem checagem, um debate trabalha para a destruição da própria democracia.

Diante das táticas da extrema-direita, a neutralidade deixa de ser uma virtude e se transforma em cumplicidade com o novo fascismo.

*Marcos Vinícius Almeida é escritor e jornalista. Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, colaborou com Folha, O Globo, Piauí e Suplemento Pernambuco. É autor do romance “Pesadelo tropical” (Aboio, 2023). Atualmente, prepara “Tempo Fantasma”, seu segundo romance. www.marcosviniciusalmeida.com

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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