Saímos todos transformados desta eleição. As mobilizações populares, ao mesmo tempo coletivas e espontâneas, produziram uma experiência transformadora que vai muito além das urnas. Entre os muitos legados, está a consciência da necessidade de conquistarmos a soberania digital.
Experimentamos na prática a suspeita de que, além de não serem neutras, as plataformas são uma ameaça à democracia.
Plataformas ameaçam cognição e saúde mental
É uma conversa que vem de longe e que se expande por outras áreas. O campo de toxicidade de um mundo mediado por plataformas é amplo. Trabalhos como o de Jonathan Haidt, em “A geração ansiosa”, já alertaram para os efeitos das redes sociais e do uso intensivo de smartphones sobre a saúde mental e o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.
Na área da saúde, os dados são igualmente alarmantes. Uma pesquisa da Agência Lupa, publicada em outubro deste ano, revelou que 87,3% das 764 alegações sobre saúde analisadas em checagens realizadas ao longo de quase uma década eram falsas.
Outra pesquisa, realizada pela Fundação Getulio Vargas em 2024, mostrou que publicações desinformativas sobre justiça reprodutiva receberam, proporcionalmente, cerca de 200 vezes mais interações do que conteúdos informativos no Facebook. No Instagram, a diferença foi de 6,7 vezes. Em outras palavras, no universo analisado, conteúdos enganosos conseguiram mobilizar muito mais reações, comentários e compartilhamentos do que publicações informativas.
O ambiente digital é a correia de transmissão perfeita para tudo que existe de pior na nossa sociedade. E parece premiar justamente essa parte mais podre. E é justamente nesse ambiente que parte do mercado editorial vem depositando suas esperanças de revitalização da cultura literária e formação de leitores. Parece uma certa euforia ingênua.
É contraditório achar que as plataformas vão salvar a leitura
A contradição é evidente. Se os mecanismos de funcionamento das plataformas favorecem a circulação de desinformação, discursos de ódio e conteúdos sensacionalistas, por que acreditar que seriam capazes de promover a literatura?
Essa pergunta se torna ainda mais necessária quando observamos os hábitos de leitura no Brasil. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o país perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024. Pela primeira vez na série histórica do levantamento, a maioria da população brasileira, 53%, foi classificada como não leitora.
Enquanto as redes e os vídeos curtos avançam, a leitura afunda.
O mercado editorial tem celebrado influenciadores literários e comunidades de leitura organizadas em torno das plataformas digitais. A promessa é sempre a mesma: democratizar o acesso aos livros, conquistar novos públicos e transformar a leitura em uma experiência compartilhada. Produzir engajamento e vender livros parece não ser o mesmo que formar novos leitores.
Em outubro, o Prêmio Jabuti, principal distinção do mercado editorial brasileiro, concedeu pela primeira vez uma estatueta na categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital. O vencedor foi Pedro Pacífico, conhecido nas redes sociais como Bookster, influenciador literário que reúne mais de um milhão de seguidores no Instagram.
Um júri formado por 12 especialistas selecionou dez semifinalistas, submetidos posteriormente à votação popular, que definiu os cinco finalistas. A própria Câmara Brasileira do Livro, responsável pela premiação, incluiu o engajamento entre os aspectos valorizados para reconhecer o trabalho de promoção da leitura no ambiente digital.
O que exatamente essa premiação está premiando? O que significa incorporar os critérios de popularidade e engajamento das próprias plataformas aos mecanismos institucionais de reconhecimento da cultura?
Há algo de profundamente contraditório em celebrar a influência digital como medida de incentivo à leitura em um país que perde milhões de leitores.
Evidentemente, não podemos atribuir essa perda exclusivamente às plataformas, tampouco ignorar as experiências de formação de leitores que acontecem nelas. Mas o entusiasmo com os números de visualizações, curtidas e seguidores parece ter produzido uma perigosa confusão entre circulação comercial, popularidade e formação cultural.
Uma metanálise publicada em 2025, reunindo 71 estudos e quase 100 mil participantes, encontrou uma associação entre o consumo intensivo de vídeos curtos e dificuldades de atenção e controle inibitório.
Vídeos curtos destroem capacidade de leitura
A cada vez que vemos um vídeo interessante sobre um livro interessante, perdemos um pouco da capacidade de ler o próximo livro interessante.
A soberania digital, portanto, não deveria ser uma preocupação restrita à defesa das instituições democráticas ou ao combate à desinformação. É também uma questão de autonomia cultural. Afinal, quem controla os mecanismos de circulação e visibilidade dos livros exerce uma influência cada vez maior sobre aquilo que é publicado, valorizado e, eventualmente, escrito.
A literatura pode encontrar leitores nas plataformas. O que não podemos é confundir essa possibilidade com a ideia de que a plataformização será capaz de salvar nossa cultura literária. O algoritmo não é amigo da leitura.
*Marcos Vinícius Almeida é escritor e jornalista. Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, colaborou com Folha, O Globo, Piauí e Suplemento Pernambuco. É autor do romance “Pesadelo tropical” (Aboio, 2023). Atualmente, prepara “Tempo Fantasma”, seu segundo romance. www.marcosviniciusalmeida.com
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


