mariam pessah

ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora. Autora dA saliva que umedece, poemariam – um tratado sobre línguas, 2025; Meu último poema 2023; Em breve tudo se desacomodará, 2022; entre outros. Organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre, desde 2017, e coordenadora da Oficina de escrita e escuta feminiSta. Curadora da FestiPoa literária.

Voltando da Flip

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mariam pessah é ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora
mariam pessah é ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora | Crédito: Arquivo pessoal

A poeta celebrada durante os cinco dias foi Orides Fontela

Sempre, desde a primeira vez que fui à Feira Literária Internacional de Paraty, em 2019, voltei flipando. 

É o maior evento literário que temos no Brasil e, arriscaria a dizer, que está entre os maiores do mundo.

Imagina uma cidade, cujo centro histórico é tomado por livros, escritorxs e amantes da literatura durante 5 dias. Um espaço físico no qual só se fala em palestras de literatura, em filas, em horários, em encontros. Também em festas e autógrafos e mais encontros. Tem quem já ficou esperando mais de três horas e meia, e, ainda assim não conseguiu entrar para ver de perto uma de suas autoras favoritas. E tem também quem a encontra caminhando, pelas pedras coloniais da cidade. 

Mas o que é a FLIP?

A Festa literária tem uma programação chamada de oficial, a qual acontece em um teatro e seus ingressos estão à venda — e esgotam — antes do evento começar. Paralelamente, é montado um telão, que ficava também na Praça da Matriz, e, agora, do outro lado da ponte. Nesse espaço, é possível sentar e ver a programação de graça. Contudo, como o público a cada Flip é maior, nem sempre dá para conseguir lugar. Mas sempre é transmitido pelo Youtube onde ficam registradas todas as Festas literárias e todas as mesas.

Este ano, a curadora foi a crítica literária Rita Palmeira, quem substituiu a Ana Lima Cecilio que fez a programação por dois anos consecutivos. A poeta celebrada durante os cinco dias foi Orides Fontela. Rita criou algo muito bonito, os nomes das mesas da programação oficial, todas levavam um título que provinha de um verso da poeta. Recomendo a primeira mesaentra furtivamente a luz, com Augusto Massi e Marilia Garcia. 

Paralelamente à programação oficial, tem as chamadas Casas Parceiras. Este ano foram 44 programações diferentes. Ou seja, a gente vai para a Flip, mas fica muito dividida com tanto cardápio bom. Dentre as tantas alternativas, teve a Casa da Favela, este ano em um espaço bem maior que os anteriores, e, na abertura, contou com a presença da Ministra da Cultura : Margareth Menezes. Assisti a uma das primeiras mesas com aes escritoraes tatiana nascimento, Cidinha da Silva, Amara Moura, Tom Grito e muita gente incrível. Também, e pelo 4º ano consecutivo, a Casa Queer, abriu suas portas da mão de Jean Cândido Brasileiro com uma programação imperdível, estiveram presentes— entre muitos nomes bonitos — : Geny Nuñes, Bruna Mitrano, as garotas da revista Brejeiras, Bruna Irineu, o Sarau Trans com Ravel Machado e, também, contou com a especial presencia de Mónica Benicio, viúva de Marielle Franco e, esperemos, futura senadora do RJ.

Vale muito destacar que, pela primeira vez, a Feira do Livro de Porto Alegre teve uma Casa Parceira, com uma vasta programação. A curadoria esteve a cargo de Vitor Diel. Eu participei da mesa Cartografias feministas: a escrita grande do Sul, ao lado de Carolina Panta, e com mediação de Ilana Lhen. Foi emocionante fazer parte da primeira programação da Feira em Paraty, sobretudo, falando em literatura feminiSta. Também estiveram presentes na programação, autorias como Taiasmin Ohnmacht, TônioCaetano, Irka Barrios, Maria Helena Weber, Clarissa Ferreira e a patrona da 71º Feira do Livro, Martha Medeiros, entre muitxs escritorxs que por ali passaram deixando um sabor incrível de (chimarrão) queiro mais. Acredito que esta tenha sido a primeira de uma longa trajetória que se inicia.

No coquetel de inauguração da Casa, a presidenta da Câmara Rio Grandense do Livro, Roseni Siqueira Kohlmann, contou que na abertura oficial da Flip, a Casa da nossa Feira do Livro recebeu as boas-vindas como a Mãe de todas as feiras do Livro do país. O que nos deixou com muito orgulho e muito mais honradxs de fazer parte da programação. 

(Este ano a Feira ocupará a Praça de Alfândega do 15 ao 30 de outubro.)

Voltando a Paraty, é uma delícia estar no meio de tanta gente, conversar, respirar, suar literatura durante 5 dias. Logicamente a gente tem que fazer um exercício profundo de escolhas, pois não é fácil a seleção entre 45 programações diárias. 

Uma das mesas que eu me planejei para ir foi com a autora Tatiana Salem Levy, na Casa Record. Cheguei só 10 ou 15 minutos antes da conversa iniciar e já não havia mais lugar para sentar. Como acontecia em um jardim, sentei na grama. As pessoas continuaram a entrar durante toda a hora que aconteceu a conversa entre as três autoras. Eu me perguntava onde cabia tanta gente. Foi algo surreal. Pessoas entravam e entravam e entravam. Estas coisas acontecem graças à literatura.

Para quem nunca foi, mas gostaria de ir, eu conto que as hospedagens mais caras são as que ficam no Centro Histórico e no centro da cidade. Ou seja, quanto mais dentro e perto do evento, mais caro. (Eu já fiquei a mais de 20 km, no meio do mato, e, mais longe ainda, em cima dos morros.) Tem uma variedade enorme entre hotéis, pousadas e Airbnb. Assim como as possibilidades de comidas e lanches. Existe uma variadíssima oferta de lugares e comidas, com opções de preços, desde entrar em restaurantes mais luxuosos, com valores mais altos, até encontrar comida caseira da reforma agrária, por um valor muito justo, ou se deliciar com empanadas argentinas. Também está a possibilidade de sentar em algum dos bares da praia do Pontal e comer peixe ou pedir um PF, com opções veg por volta de R$30. É só procurar e curtir.

Sei que vou ser criticada por algumas pessoas pelo que vou dizer, mas acho que a Festa que se produz em Paraty durante a FLIP, sobrepassando amplamente a Festa oficial, é uma experiência que, para quem não foi, recomendo muito ir. Assim como o povo religioso, muçulmano, vai à Meca, uma vez na vida, o pessoal amante da escrita, deveria fazer a experiência de ir a Paraty no mês de julho, pelo menos uma vez. Acreditem, é Para ti e para nós, todxs.

O espaço acabou e ainda não falei das festas!, nem da mesa com a ministra Carmen Lucia, nem da Angela Davis, nem da noite que caiu a luz, nem de todas as pessoas maravilhosas que encontrei.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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