mariam pessah

ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora. Autora dA saliva que umedece, poemariam – um tratado sobre línguas, 2025; Meu último poema 2023; Em breve tudo se desacomodará, 2022; entre outros. Organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre, desde 2017, e coordenadora da Oficina de escrita e escuta feminiSta. Curadora da FestiPoa literária.

Por um brinde coletivo e popular

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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Anúncio à imprensa sobre a inauguração do Instituto Federal Goiano – Campus Catalão, em Catalão - GO. Foto: Ricardo Stuckert / PR© Foto: Ricardo Stuckert / PR Versão em áudio
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Desejo que no domingo, o voto seja com muita consciência coletiva e que o brinde da vitória seja a nós, todxs

“Somos filhos e filhas da época
e a época é política.” 

Wislawa Szymborska

Chove na tarde fria de Porto Alegre e estamos a pouquíssimos dias das eleições. Penso. E mais uma vez fico nervosa. Olho para os panfletos e adesivos que aguardam serem repartidos, eles descansam sobre a mesa e eu no sofá.

No domingo eu estava muito cansada. Há tempos não tinha todo um dia sem horários marcados. O clima chuvoso acabou me proporcionando um momento para descansar e trocar áudios com pessoas que não falava há um tempinho, dada a correria que a consciência prévia às eleições me impõe. Pânico de que um miliciano chegue à presidência. Recomendo muito o vídeo no qual Jaque Pinheiro, também conhecida por Jaque Conserta, dá uma aula sobre milicianos. 

Precisamos muito mudar o Congresso. Porque não é só o Presidente, são as deputadas e deputados, assim como o Senado e o governo de Estado. Estamos prestes a uma renovação muito grande. Você já parou para pensar nisso?

Sinto medo de que um militar, misógino e gordofóbico — que já agrediu à deputada Samia Bomfim (PSOL/SP), oferecendo-lhe de maneira irônica e ofensiva um remédio ou um hambúrguer, para calar sua boca —, fique à frente do Rio Grande do Sul. Ou que aconteça em qualquer estado do nosso kerido Brasil. Sinto o mesmo medo e raiva, não consigo acreditar que em São Paulo volte a ganhar esse Tarcísio em lugar de Haddad. Deusas, por favor, haja luz! Por que não é só nós aqui, é sempre nós todxs. Nunca é por mim, sempre é por nós. 

Penso num senado com Manu, Monica, Benedita, Simone, Marina, Marilia, Áurea Carolina e minha boca se faz toda de água. Daí a outro STF é muito mais perto. Lembrando que o próximo governo poderá indicar até quatro novos ministros e ministrAs para o Supremo Tribunal Federal (STF). Recomendo ver a entrevista que fez a Band com o presidente Lula, onde ele fala sobre sua ideia de mudar o STF. Muito bom, aliás, a entrevista toda foi ótima, à diferença do que foi o inquérito da Globo, na qual só faziam perguntas afirmando inverdades não o deixando responder. Aqui houve tempo, inclusive, para que o presidente Lula chamasse a atenção sobre a imprensa que nunca se desculpou com ele por ter repetido coisas das quais não havia provas.

Aproveitei a calma imposta do domingo para trocar áudios com minha irmã. Ela mora na Patagônia argentina e teve que viajar a Buenos Aires por questões de (falta de) saúde do nosso progenitor. Eu sabia que um tempo atrás, ele vendeu um apartamento que alugava. O dinheiro já está acabando e com a aposentadoria que recebe, cada mês mais magra, só alcança para pagar o condomínio (de um apartamento de dois quartos e sala) e parte dos medicamentos. É uma pessoa de 88 anos e tem duas cuidadoras. Minha irmã, professora aposentada, ajuda ele com algumas despesas.

Fico pasma. Ele foi um homem que teve muito dinheiro (para mim), apartamentos, e a possibilidade de perder dinheiro na bolsa (pois então). Nunca me dei bem com ele. Quando saí de Buenos Aires, em 2001, fechei a porta. 

Eu sei dos horrores que são as medidas de Milei. Na coluna da semana passada citei o que foi um dos aumentos de luz. Mas fico impressionada. A crise argentina não é somente com as pessoas pobres, está atravessando muitas categorias sociais.   

As pessoas aposentadas estão sofrendo horrores. Já são muitos meses que, toda quarta-feira, acontecem as manifestações e o governo reprime de maneira cruenta. Como todo governo totalitário e fascista, o de Milei é um governo desumano! No nazismo, a sociedade era moldada sob a ideia de que todxs xs cidadãos/dãs/dxs saudáveis deveriam trabalhar pelo bem comum do Estado. Aqueles que não podiam produzir devido a deficiências físicas ou mentais eram rotulados como “vidas indignas de serem vividas”, o que levou ao extermínio de milhares de pessoas com deficiência. Qualquer semelhança com o pensamento bolsonarento, ou, o com o que está executando o presidente argentino durante seu mandato, não é coincidência, é projeto político.  

Também conversei com uma amiga de Buenos Aires. Ela me contou que os índices de suicídios na Argentina estão alarmantes. E Uol confirma : Aumento histórico de suicídios causa preocupação na Argentina Se “o suicídio é atualmente a principal causa de morte entre os jovens de 15 a 34 anos no país” vizinho, isto fala da falta de perspectivas e de sonhos. Além das altas cifras de jovens, minha amiga me conta de uma mulher idosa que se prendeu fogo, já não tinha mais nada! Também me conta de toda uma família que já não podia pagar o aluguel, tiveram que deixar o apartamento e foram morar no carro. Até cometer suicídio a família inteira! 

Minha amiga, que poderia ser eu, tampouco consegue pagar o aluguel, e está morando em casa de pessoas conhecidas. Mas quanto tempo é possível viver assim? 

Escuto tudo isso e queria vir gritando e dizer: Gente, lembram que Milei veio ao Brasil prestar apoio ao filhote bolsonarento? Lembram que ele diz que quer implementar as mesmas medidas de Argentina?

Enquanto isso, nosso kerido presidente Lula reivindica a capacidade de indignação. Quem assista a entrevista da Band, chegando ao final, vai ter essa sobremesa. 

A pobreza a cada dia é pior e com mais gente porque está em relação direta com os milionários, bilionários e até o trilionário. Para poder haver uma pessoa que tenha tanto, mas tanto, mas tanto dinheiro tem que haver muitas, mas muitas, mas muitas que não tenham nada. Lembram do filme de Costa Gavras, O Capital, que terminava com uma turma de poderosos que brindavam e sorriam e diziam: Continuaremos tirando dos que menos têm?

Desejo que no domingo, o voto seja com muita consciência coletiva e que o brinde da vitória seja a nós, todxs. 

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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