O mundo não será mais o mesmo depois deste 25 de outubro de 2026. O Brasil deu um exemplo de cidadania e protagonizou uma vitória de dimensões planetária, mudando a energia política no contexto global. Compreendendo os riscos e as consequências da ascensão ao poder, pelo voto, de um projeto supremacista, fascista e antidemocrático liderado pela aliança internacional de extrema-direita, o país disse não. E a onda de esperança se estendeu por vários continentes, onde o “L” de Lula virou sinônimo de resistência. A roda da história começou a girar.
Nos dias seguintes, o sionista Netanyahu perdeu a maioria no Knesset – parlamento israelense -, com ampliação da presença dos partidos árabes. Em toda a Europa pipocam mobilizações em defesa de direitos, seja na Alemanha, na França, na Espanha, na Bélgica e na Itália. E, para coroar o clima de mudanças, nesta terça-feira de eleições de meio de mandato, o supremacista Donald Trump acaba de sofrer uma derrota acachapante, perdendo a maioria nas duas casas do Congresso norte-americano.
Novos Aprendizados
Para que o atraso não volte a nos amedrontar, é preciso compreender a dimensão e as bases que permitiram a vitória no Brasil. Primeiro, reconhecer a força simbólica de Lula como representante da alma do povo trabalhador brasileiro, como assinalou Yanis Varuofakis, ex-ministro grego. Em momentos agudos da luta de classe, o povo brasileiro se enxerga em Lula. O povo vê em Lula seu projeto de Brasil. E essa identificação foi crucial para a virada no segundo turno, tendo, no deboche do candidato bolsonarista com o acidente de trabalho que atingiu o Presidente, um momento emblemático e decisivo.
E quando digo povo brasileiro não estou me referindo apenas às esquerdas. O espírito de cidadania irrompeu do coração de todas as pessoas verdadeiramente democráticas, reunindo jovens e pessoas idosas que, superando a alienação política, tomaram as ruas e foram às urnas. O segundo turno mobilizou até os espectros políticos do centro, do centro direita e da direita comprometida com a democracia. Assim como nas mobilizações pelas Diretas Já, que levaram milhões de pessoas às ruas, o que vivemos neste segundo turno foi um levante democrático protagonizado por brasileiras e brasileiros cientes da importância da disputa política e eleitoral. Cidadãs e cidadãos de todas as matizes que comungam de um valor estratégico: a democracia. Aliás, parece-me fundamental preservar a aliança com a direita democrática, que tem um projeto nacional de país diferente do nosso, mas que acredita na importância do Estado Democrático de Direito, num ambiente sem armas e sem guerras.
Velhos Desafios
Passada a euforia, há enormes desafios, dentre eles a consolidação da soberania nacional com o fortalecimento do poder popular. Essa é uma questão crucial que, até aqui, os governos Lula e Dilma não enfrentaram de forma adequada. Há resistências reais em partilhar o poder nas cúpulas partidárias. O máximo que se tem avançado é em processos de escuta por meio de conferências e de conselhos nacionais — importantes, mas insuficientes. E a participação é fundamental para garantir uma correlação de forças capaz de promover mudanças em uma sociedade de classes com profundas desigualdades como no Brasil.
Por isso é importante reconhecer que, como em eleições nacionais anteriores, o petismo salvou o PT. O petismo é uma prática política que tem na participação direta e consciente um princípio ético e uma força transformadora. Desde as eleições de 2006, a burocracia partidária construiu estratégias que deixam a participação popular ao largo. Essa escolha — sim, isso é uma escolha política — tem alto custo nos momentos agudos da luta de classes. A busca pela governabilidade deixou de ser apenas uma necessidade e tornou-se um modo de fazer política que afasta a participação popular do centro do poder e empodera alguns segmentos da burocracia partidária. E, sejamos sinceros, esses segmentos são majoritariamente masculinos, brancos e sudestinos. É preciso mudar este retrato do poder — e não somente no dia da posse, ao subir a rampa.
O PT sentiu o risco real da derrota. Mas a cultura política da participação direta, sem mediação nem autorizações burocráticas, irrompeu como uma chama patriótica. Uma ânsia de participação direta tomou conta do país. Tanto que, ao longo do segundo turno, o próprio Presidente Lula declarou que vai inaugurar uma outra forma de governar, com a participação efetiva das juventudes, das mulheres, do povo negro, dos povos indígenas, das pessoas idosas, das trabalhadoras e trabalhadores. Para isso acontecer, é preciso criar mecanismos reais de partilha de poder, com metodologia participativa, processos de organização, espaços coletivos e gestão compartilhada.
Democracia Participativa
Como contribuição para essa reflexão, cito as experiências do Orçamento Participativo e do Fórum Social Mundial, iniciadas em Porto Alegre e que se espalharam pelo mundo. O OP reconhecer que o poder está onde as decisão sobre a aplicação do recurso público acontece. Por isso que o conceito reúne o orçamento e a participação. Essa é uma mudança estrutural proporcionada pelo processo de Orçamento Participativo. Colocar em discussão onde serão aplicados os recursos públicos, de forma aberta e transparente. Chamando a cidadania a tomar partido nas decisões sobre o futuro do país. E essa prática foi reconhecida pelas Nações Unidas como republicana porque dela participam todas as classes e segmentos sociais e todas as matizes político-ideológicas. O governo precisa compreender que democratizar o Estado não é criar vários mecanismos para o mapeamento das demandas da população. Isso é escuta. Democratizar o poder é criar mecanismos de tomada de decisão e de garantia de que essas decisões serão efetivamente implementadas.
O Fórum Social, por sua vez, inaugurou uma prática de participação e de protagonismo compartilhado entre vários sujeitos políticos, na qual não é apenas a quantidade de votos que importa. O mantra de um outro mundo possível, anti e pós-capitalista, onde o poder vem de baixo e que todos temos capacidade de nos organizarmos através do princípio da autogestão, que temos objetivos comuns, mas podemos ter formas diversas de buscá-los reconhecendo nossa diversidade, a defesa dos direitos humanos em sua integralidade e plenitude e, principalmente, a ideia de uma cidadania planetária e universal iluminaram e ainda iluminam corações e mentes em todo o mundo. São práticas que devem ser enriquecidas, ajustadas e aperfeiçoadas, mas que representam novas formas de fazer política de modo horizontal e participativo. Num país continental e com autonomia dos entes federados há enormes desafios, mas nada é impossível quando se deseja construir mais participação popular.
Finalizo enfatizando o recado das urnas para as elites brasileiras: a agenda econômica vitoriosa foi a agenda das políticas sociais e do combate às desigualdades. O próprio candidato derrotado viu-se obrigado a apoiar o fim da escala 6×1 e a defender, no debate, a manutenção e ampliação das políticas sociais. Diferentemente do segundo turno das eleições de 2014, quando Dilma venceu por pequena margem e o novo governo sentiu-se acuado, nestas eleições a vitória de Lula é um recado direto por mais participação, combate aos privilégios e às desigualdades. Que estejamos à altura deste desafio para não frustrar a esperança popular.
*** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


