Em um mundo em que a inteligência artificial promete prever o futuro, não precisamos de um prompt sofisticado para saber o que pode acontecer com o Metrô do Distrito Federal. O roteiro já é um velho conhecido: primeiro diminuem os investimentos, a manutenção deixa de acompanhar as necessidades do sistema, os equipamentos envelhecem, a qualidade do serviço piora e a população perde a confiança no transporte público.
É justamente nesse momento que surge o discurso de que a privatização seria a única solução.
Esse processo não acontece por acaso. Afinal, sucatear também é uma escolha política. O descarrilamento registrado no Metrô-DF somente reforça a urgência dos alertas que a Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana tem feito à Secretaria de Mobilidade do DF, ao Tribunal de Contas do Distrito Federal e ao Ministério Público.
É grave que um descarrilamento tenha acontecido, ao que tudo indica, por uma peça que caiu de uma composição. Felizmente, não houve feridos, mas é prenúncio de que se nada for feito para mudar, algo pior pode acontecer. Desde 2023, a CTMU vem apontando após inspeções: frota envelhecida, redução do número de trens disponíveis, equipes de manutenção sobrecarregadas e um sistema que, diante da dificuldade para obter peças de reposição, passou a depender da canibalização de composições para continuar funcionando.
Dos 32 trens da frota, apenas 19 circulam regularmente. Em alguns momentos deste ano, o sistema chegou a operar com apenas 12 composições nos horários de maior demanda. Outros dez trens aguardam manutenção e quatro sequer têm condições de voltar à operação, servindo apenas para fornecer peças às demais composições. Agora, mais um trem ficará fora de operação por tempo indeterminado.
A investigação dirá a relação entre esses fatos. O que já se pode afirmar é que o episódio evidencia um sistema que deixou de preocupar apenas pela perda de eficiência e passou a exigir atenção redobrada com sua segurança operacional.
Nada disso aconteceu de um dia para o outro. Um sistema de transporte não chega a esse nível de deterioração por acidente. Entre 2019 e 2024, o Governo do Distrito Federal empenhou cerca de apenas 1% dos recursos previstos para investimentos no Metrô-DF. Na prática, R$ 1 bilhão deixou de ser investido no sistema metroviário enquanto o governo aportou bilhões em viadutos e rodovias.
O problema não é apenas quanto se investe, mas também como o sistema é financiado. Enquanto as empresas de ônibus recebem por meio da tarifa técnica — um modelo que cobre custos operacionais, manutenção e renovação da frota independentemente da arrecadação das passagens —, o Metrô-DF continua dependendo, em grande medida, da receita obtida com os próprios passageiros para custear sua operação. Esse desequilíbrio compromete um sistema que deveria ser planejado de forma integrada.
O metrô precisa voltar a ser a espinha dorsal da mobilidade do Distrito Federal, realizando os grandes deslocamentos entre as regiões administrativas e o Plano Piloto, enquanto os ônibus cumprem o papel de alimentar essa rede.
É indispensável modernizar o sistema de energia para ampliar a capacidade operacional da rede, reduzir a dependência de equipamentos obsoletos e permitir a entrada de novas composições. Também é urgente recompor o quadro de servidores, fortalecer a manutenção preventiva e garantir investimentos permanentes para a companhia deixar de atuar apenas apagando incêndios e voltar a planejar o futuro.
O futuro do Metrô-DF ainda pode ser reescrito. Mas isso exige coragem para abandonar a política do improviso e transformar o transporte público em uma verdadeira prioridade de Estado. Com um modelo de financiamento mais justo, investimentos permanentes e planejamento de longo prazo será possível adquirir novos trens, ampliar o quadro de servidores, recuperar a capacidade operacional da companhia e levar o metrô às regiões administrativas que há décadas aguardam essa expansão.
Não precisamos escolher entre um metrô sucateado e um metrô privatizado. Precisamos escolher um metrô forte, moderno, seguro e capaz de atender às necessidades da população. Porque patrimônio público não se abandona. Patrimônio público se fortalece.
*Max Maciel é deputado distrital pelo Psol-DF.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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