No próximo 25 de outubro, o Brasil vai às urnas mais uma vez. Não será apenas uma escolha entre candidaturas. Será uma disputa sobre os caminhos que o país pretende seguir: que democracia queremos construir, que lugar o Brasil deve ocupar no mundo e que projeto de sociedade pode responder às necessidades da maioria do nosso povo.
Essa disputa também ultrapassa nossas fronteiras. O Brasil tem um peso decisivo na América Latina, e sua política externa, sua posição diante da soberania dos povos e sua capacidade de articular iniciativas de integração regional repercutem em todo o continente. Por isso, em um cenário de avanço das forças de direita e extrema direita em diferentes países, a eleição brasileira também expressa uma disputa sobre os rumos da América Latina.
Nunca foi tão fácil identificar qual candidatura representa, para nós, a possibilidade de avanço. De um lado, a continuidade de um projeto comprometido com a reconstrução de políticas públicas, com a democracia e com os direitos sociais. De outro, a possibilidade de retorno de forças políticas que já demonstraram, no governo Bolsonaro, os riscos de um projeto marcado pelo negacionismo, pelo enfraquecimento das políticas públicas e pelo desprezo diante de uma das maiores crises sanitárias da história recente.
Para nós, Lula não é nenhum salvador. A jovem democracia brasileira só foi e segue sendo possível graças à organização popular, à participação e à disputa permanente das forças populares e de esquerda pelos corações e pelas mentes da nossa sociedade.
Mas, diante das alternativas colocadas, está em jogo a possibilidade de manter aberto um caminho de reconstrução das políticas públicas, de defesa da democracia, de soberania nacional e de compromisso com os direitos sociais.
A história recente do Brasil deixou marcas profundas. A ruptura democrática de 2016, o desmonte de políticas públicas e os anos seguintes de ataques a direitos e instituições produziram consequências que ainda estão presentes. A pandemia tornou ainda mais visíveis essas escolhas. O Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes por Covid-19 em 2021, em meio a uma crise sanitária que expôs a importância das decisões tomadas pelo Estado diante de uma emergência dessa dimensão.
É preciso lembrar também que projetos políticos se revelam nas prioridades que estabelecem.
De um lado, uma concepção de Estado que trata a vida, a fome e a desigualdade como questões secundárias diante dos interesses econômicos e políticos. De outro, a ideia de que governar significa enfrentar a fome, ampliar direitos e garantir condições mínimas de dignidade.
Na posse de 2023, Lula resumiu uma das prioridades de seu governo em uma frase simples: queria que o povo brasileiro pudesse voltar a “tomar café, almoçar e jantar todo dia”. Essa orientação se traduziu na retomada de políticas de combate à fome e na criação do Plano Brasil Sem Fome.
Perguntar se uma família consegue comer três vezes por dia é perguntar para quem o Estado existe.
É também perguntar se nossas crianças estarão na escola ou trabalhando para complementar a renda da família. É perguntar se jovens, adultos e idosos terão alternativas para viver com dignidade ou se continuarão submetidos ao endividamento e a formas de exploração que lucram com a sua vulnerabilidade.
É colocar a vida concreta das pessoas no centro da política.
Durante estes quatro anos do terceiro governo Lula, acompanhamos e, em muitos casos, ajudamos a construir e fortalecer a retomada de políticas públicas importantes. Vimos alianças serem criadas e fortalecidas em defesa da vida das mulheres e meninas, do direito de trabalhar e também do direito ao descanso, à cultura e ao tempo livre — dimensões fundamentais da qualidade de vida.
Vimos também a retomada de políticas habitacionais e avanços importantes na área tributária. Em 2026, trabalhadores que recebem até R$ 5 mil por mês passaram a ter redução do Imposto de Renda suficiente para zerar o imposto devido, enquanto a redução é parcial para rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7.350. (Serviços e Informações do Brasil)
São avanços importantes. Mas sabemos que ainda são insuficientes diante da dimensão das desigualdades brasileiras.
E é justamente aí que está o nosso desafio.
Não se trata de escolher um governo e esperar que ele faça tudo por nós. Trata-se de reconhecer as condições concretas da disputa e, a partir delas, fortalecer a organização popular, ampliar nossa capacidade de pressão e radicalizar a participação do povo nas decisões sobre os rumos do país.
Mas há ainda outra dimensão nessa escolha.
A América Latina conhece bem as consequências de projetos que subordinam sua soberania a interesses externos, enfraquecem os Estados nacionais e tratam nossos recursos, nossos territórios e nossa força de trabalho como mercadorias.
Também conhece a resistência dos povos que, em diferentes momentos, buscaram construir caminhos próprios de desenvolvimento, integração e soberania.
O Brasil sempre teve um papel importante nesses debates. Agora, mais do que nunca, é hora de disputar os rumos de uma nova ordem internacional, baseada na cooperação, na reciprocidade entre os povos, na soberania e no respeito à autodeterminação das nações.
Não surpreende que momentos importantes da política externa do governo Lula tenham sido justamente aqueles em que o Brasil afirmou sua soberania e buscou construir alternativas ao unilateralismo.
A retomada de uma política externa brasileira mais ativa e a defesa de mecanismos de cooperação entre os países do Sul Global recolocam o Brasil em uma posição de protagonismo internacional. Lula tem defendido uma maior participação brasileira nas grandes decisões mundiais e uma agenda internacional voltada ao enfrentamento da fome, da desigualdade, da crise climática e da defesa da paz.
Por isso, quando dizemos “Lula de novo”, não estamos falando apenas de uma pessoa.
Estamos falando de uma escolha política sobre o papel do Estado, sobre democracia, soberania, direitos sociais e sobre a relação do Brasil com seus vizinhos e com o mundo.
Sabemos que há contradições. Sabemos que nenhum governo, por si só, realiza o projeto histórico da classe trabalhadora. Sabemos também que a reconstrução de políticas públicas não substitui a organização popular e que não existe transformação profunda sem povo organizado, mobilizado e participando das decisões.
É justamente por isso que seguiremos atentos e cada vez mais fortes, radicalizando os debates e as lutas em defesa dos nossos direitos. Formando e conscientizando o povo, com o povo.
Porque a democracia não termina na urna. Ela começa também na nossa capacidade de nos organizar, disputar ideias, ocupar espaços de decisão e construir um projeto de país.
No dia 25 de outubro, estará em disputa mais do que a Presidência da República. Estará em disputa uma concepção de Brasil e, em alguma medida, de América Latina.
Para nós, votar em Lula é afirmar que queremos um Brasil soberano, democrático, solidário e comprometido com os direitos de seu povo. É defender que a riqueza produzida pelo trabalho esteja a serviço da vida e que o país exerça seu papel na construção de uma América Latina mais integrada e soberana.
É defender também o direito à paz, à autodeterminação e às liberdades dos povos.
A história são os povos que a fazem.
O nosso futuro não está dado. Ele será construído pelas escolhas, pela organização e pela luta daqueles que acreditam que dias melhores são possíveis.
É preciso estar atento e forte.
*Regina Jerônimo é comunicadora popular e integrante da direção nacional do MTD.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


